Arte pela Arte

Rubens Nogueira

Em 1927 o cinema ganhou voz. Até então, os filmes eram mudos, isto é, sem voz humana, como se pode ver nas pequenas e geniais produções de Charlie Chaplin. Esse pequeno homem foi, junto com sua primeira esposa, pioneiro na produção de pequenas joias em preto e branco – filmes de uma parte, como se dizia. O cinema é outra invenção atribuída a alguém de Campinas, creio que um padre.

Na sua biografia, um calhamaço de quase mil páginas, Chaplin revela-se genial desde criança, com seu irmão e a esposa, que depois se tornou grande atriz. Juntos fundaram a United Artists e produziram centenas de pequenos filmes, os quais de vez em quando são mostrados na televisão.

Chaplin só veio a falar nos filmes com “O grande ditador”, sua maior contribuição para a chamada sétima arte.

O cinema americano começou em Nova York e, por isso ou por aquilo, foi-se deslocando para a Califórnia, em uma pequena cidade chamada Hollywood.

Inventada pelo francês Méliès, foi nos Estados Unidos que essa arte pegou firme. Embora um ideal, o “ars gratia artis” e os rugidos do leão da Metro tornaram-se o instrumento para a expansão norte-americana.

Meu pai viu o filme “Patrulha da madrugada” na década de 30 e mesmo sendo semianalfabeto não perdia estreias. Para nós, crianças, dizia que era tudo arranjado, os estúdios usavam muita madeira compensada, papelão pintado, enfim: não era como o circo espetáculo que nós crianças não perdíamos na matinê.

Paulo Francis

Esta é a hora na qual tenho sentido a falta que faz ao leitor brasileiro o texto corrosivo, porém superatualizado de um escritor chamado Paul Heilborn, que viveu muitos anos em Nova York, tinha presença permanente na televisão. Morreu do coração. Seu médico e amigo era de Sorocaba e dele cuidou por muitos anos.

De vez em quando, a atual equipe do programa Manhattan Connection põe no ar as imagens antigas que mostram como era inteligente, como brilhava intelectualmente e como sabia usar seus dotes histriônicos o brasileiro que mantinha coluna em jornal de São Paulo, na qual aproveitava boa parte do que dizia perante as câmeras.

Eu me atualizava com os lançamentos de livros, filmes e músicas, lendo sua coluna ou através das suas aparições na televisão.

Theodoro Nogueira

Enquanto ele viveu, não tive quase oportunidade de demonstrar-lhe meu respeito e gratidão por todo o esforço que ele fez para me ajudar a ter uma vida correta.

Agora, aos noventa e dois anos, aproveito para evocá-lo como seu filho agradecido.

E mandar um recado aos meus filhos: vale a pena ser bom e honesto!

Obrigado Ana, Vera, Marcio, Regina, Lucia, Sandra, Aurora, Nilton.

Rio de Janeiro, 7 de julho de 1948

Meus queridos pais:

Com uma alegria imensa, cheio de contentamento, foi que completei vinte anos. Estou fora de casa, estou longe, mas é como se nunca nos tivéssemos separado. Assim não é mesmo estar separado. Vocês, em verdade, quanto mais o tempo avança, mais perto estão do meu coração. Vivo, ando, trabalho, num meio estranho, mas é como se estivesse em casa. Não os esqueço um momento sequer. Deus sabe quanto desejo que vocês estejam felizes.

No dia trinta, fiquei muito orgulhoso dos meus pais. Na pensão, todos me olharam com o maior respeito. Era que, de uma distante cidade, estavam chamando um moço que fazia anos, só para cumprimentá-lo. Muito obrigado, meus pais, pela felicidade que me deram. Deus os conserve por muito tempo. Esse é o meu desejo.

Do filho que muito os quer.

Rubens


Foto principal: fotograma do filme O Grande Ditador, de 1940.

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