Vertigo de Hitchcock: muito além da loucura e da fragilidade masculina

FREDERICO MORIARTY – Vertigem todos nós já sentimos. Colocá-la num papel pode ser fácil. A questão é como passar a sensação numa tela de cinema? Ainda mais se estamos nos anos 50 e não temos nenhum recurso digital, apenas uma câmera na mão e uma ideia na cabeça. Mas a câmera estava nas mãos de Alfred Hitchcock. O mestre desenvolveu uma técnica de “zoom out and track in” . Explico: as objetivas antigas eram grandes e deslizavam sobre trilhos. Hitchcock começou a ” puxar” um zoom para dentro ( do alto para o baixo zoom) e ao mesmo tempo ele corria a câmera nos trilhos para frente. O resultado é o efeito ” vertigem”, em homenagem ao filme. Experimente fazer com o celular, não sai tão bom mas funciona Foque uma cena, abra o zoom. Comece a filmar. Então, vá fechando o zoom enquanto caminha para frente. Pronto, você é um Hitchcock sem Tik Tok.

A primeira vertigem de James Stewart leva à morte de um policial

A vertigem ( Vertigo é o nome original do filme) está na abertura do filme. O designer gráfico Saul Bass e o cinegrafista John Whitney se inspiraram nas curvas espirais do matemático francês do século XIX Lissajous para passar a ideia de vertigem, enjoo, descontrole. Associadas a música de fundo, deixam-nos tontos desde o primeiro momento. Uma das mais belas aberturas de filme até hoje.

A abertura.

E a circularidade permanece. Na trama, Scottie ( James Stewart) segue Madeleine ( Kim Novak). Em várias cenas temos a forma inusual que ela prende seu cabelo. A espiral aparece em destaque. Reafirmando a vertigem, mas demonstrando o caráter perturbado e circular de Scottie. Um detetive genial, porém incapaz e frágil. Está no famoso pesadelo freudiano de Scottie. A Acrofobia de Scottie é apenas um detalhe na atmosfera desvairada que Hitchcock cria.

Madeleine contempla o retrato de Carlota. Detalhe do cabelo

Vamos ao filme. Pierre Boileau era um romancista francês de histórias policiais. Em 1948 conheceu um outro Pierre, também escritor de histórias policiais, de heterônimo Narcejac. Estava formada a dupla perfeita: Boileau era o homem do ambiente, dos detalhes, das pistas dos ” como o crime ocorreu”. Narcejac era o mestre do lado psicológico, das subjetividades humanas, dos porquês de um crime. Escreveram mais de 50 romances entre 1948 e 1989. Sempre com o nome Boileau-Narcejac. Mesmo após a morte do parceiro de letras, Narcejac manteve o duplo nome nas histórias escritas até 1998 quando faleceu. Não é á toa que as histórias deles misturam fatos minuciosos com turbulências psicológicas. O filme ” Les Diaboliqués” é baseado em obra deles. Claro, a história de ” Os vivos e os mortos ” é a base de Vertigo.

Capa original do livro

Scottie( um detetive) começa o filme perseguindo um criminoso junto com um policial. Num dos prédios, por ter acrofobia, ele acaba sendo oresponsável – sem culpa -, pela morte do colega. Ganha uma aposentadoria e passa a viver meio recluso e depressivo num apartamento. O único contato com a realidade vem pelas visitas de uma ex-namorada, Barbara Bel Geddes( Edge). Até aqui o filme lembra muito Janela Indiscreta ( já analisado nesse blog nesse artigo). A história inova quando Scottie recebe um telefonema de um amigo milionário de escola, interpretado por Tom Helmore ( Gavin Elster). Curioso, Jackie encontra Gavin que lhe oferece um trabalho bem remunerado para seguir a esposa. O detetive não aceita e Gavin lhe pede então como um marido desesperado com a loucura de sua esposa, uma rica herdeira de um estaleiro. Madeleine, a esposa de Gavin, estava possuída pelo Espírito de Carlota, uma mulher falecida quase 70 anos atrás. Seduzido pela oferta, Jackie começa o trabalho simples. As complicações começam quando encontra Madaleine a primeira vez, pois trata-se de uma mulher belíssima. Começa a vertigem do frágil homem de meia idade. Madaleine vai a um museu onde está Carlota, depois a uma igreja retirada distante de São Francisco. Os dois se conhecem, conversam, a vertigem de Scottie aumenta. Os homens de Hitchcock são inseguros e volúveis. No dia seguinte vem a famosa cena de uma Madaleine transformada caindo na baía de São Francisco. Scottie a salva, leva para a casa. Tem a cena romântica com pitadas de sexo, mas que não se completa. Scottie agora está em queda livre. Um jantar com Gavin e no dia seguinte o suicídio de Madaleine no alto da torre da igreja. O atônito e incapaz Scottie não conseguiu subir as escadas por conta da acrofobia. Mais uma morte sobre sua responsabilidade. Com direito a julgamento por acusação de homicídio culposo. Jackie é absolvido, Gavin o perdoa e anuncia que abalado irá se mudar para a Europa.

Madeleine prestes a cair em São Francisco

Scottie se deprime mais ainda. Tem o famoso pesadelo. Sua vida volta à sala do apartamento com a ex-namorada. Mas a intuição do detetive não desaparece. Algo o incomoda muito. Andando pelas ruas, reflexivo, um dia ele encontra uma mulher morena, mas muito semelhante a Madaleine. Jackie se apaixona, a nova Madaleine se deixa enrolar na espiral do amor. Agora ele irá moldar aquela mulher como uma nova Carlota e Madaleine. Por ser um ser incapaz, o homem procura destruir a personalidade da mulher. São vestidos, joias, trejeitos, mesmo locais que conheceu com a falecida. Scottie transforma a mulher e começa a curar sua impotência. Olhos, unhas, cor de cabelo e corte, tudo é feito para criar a vertigem de uma nova Madaleine. Quando ela está pronta, é a espiral no cabelo e o colar que revelam a Scottie: Madaleine já estava morta. Em verdade, sempre foi Judy. O amigo Gavin contratou Judy para esta se passar por Madaleine. Quando Scottie estivesse ” fisgado” por Judy/ Madeleine/ Carlota ( A alegoria é clara, pois isso acontece quando Judy se joga ao mar), os dois o levariam até o alto da igreja. Lá, Gavin atira o corpo da mulher verdadeira e já morta. O inválido Scottie só vê um corpo que cai. Jamais identificou a vítima por conta da acrofobia. A descoberta da trama se dá no mesmo alto da torre em que ocorreu a simulação. Judy, agora apaixonada por Scottie suplica perdão. Ele a rejeita e agora está curado. Judy se assusta com um barulho e desesperada pula para a morte. Scottie perde sua segunda Madaleine. Boileau-Narcejac fizeram um final diferente: Scottie esgana Judy até a morte.

Qual final é melhor? Sinceramente, o de Hitchcock pois ele reafirma a ideia de que seus homens heróis são uma farsa. Impotentes, incapazes, frágeis e que resolvem as tramas de modo insatisfatório e contando com a sorte. Homens que se apóiam nas várias mulheres para conquistar suas vitórias. Homens que erram mas não admitem erros das mulheres. Homens que destroem a personalidade das mulheres e ainda se fazem de vítimas. Nada como o velho Alfred.

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