Hoje, entrevista com Renato Aroeira

Invento vidas para quem inventa vidas…

Evandro Affonso Ferreira

Eu queria deixar já, pra início de conversa, que as histórias que eu conto aqui sobre escritores nem sempre são verdadeiras…

Pílula do dia

Deixemos falar o vento, de Juan Carlos Onetti

Nasceu em Montevidéu, Uruguai, 1909, morreu em Madrid, Espanha, 1994. Julio Cortázar dizia que Juan Carlos Onetti é o maior escritor latino-americano. Gabriel Garcia Marques tinha grande admiração por ele. Ganhou o Prêmio Cervantes de 1980. Em 1974, por ter participado de um júri que premiou um conto que falava mal dos militares, foi internado no manicômio judiciário pela ditadura militar uruguaia. Antonio Munõz Molina, um de seus tradutores aqui no Brasil, comentou: A prosa de Juan Carlos Onetti reflete a dimensão quase trágica de personagens à deriva entre o sonho e o desencanto. Escreveu vários livros, entre eles: A vida breve, Deixemos falar o vento e Junta-cadáveres.

Trecho do livro:

E se, alguma noite, Pablo me perguntou, com desafio e compaixão, que haveria ou houvera acontecido com o mundo, com os homens, se não tivessem fé bastante para progredir, eu movi a cabeça e medi, silencioso, a distância que separa os mau-maus dos campos de concentração, do genocídio e dos animais ávidos que governam o mundo.

Entrevista: Renato Aroeira

Mineiro de Belo Horizonte. Chargista, ilustrador, músico. Participa, há muitos anos, nas revistas musicais dos irmãos Caruso. Trabalhou, fez charges para o Globo, Jornal do Brasil, Diário da Tarde, entre outros. Já ganhou vários prêmios, tais como Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog e Prêmio Imprensa de Pernambuco. Aroeira é magistral.

Evandro Affonso Ferreira – Envelhecer é polir os avanços com o verniz da parcimônia?
Renato Aroeira – Envelhecer é aprimorar o senso de custo & benefício. Nada sei sobre avanços, do ponto de vista individual. Algumas supressões e algumas novidades pela vida, mas no geral sobre basicamente o “ser quem sou”, mas com menos esforço. A carcaça demanda. No social, sim, existem avanços. E recuos…

Evandro – E o autodomínio? Costumo dizer que tenho sim, mas nunca aparece quando preciso realmente dele.
Aroeira – Autodomínio eu tenho, mas quase não preciso mais usar. Sempre fui comedido, e me tornei mais ainda com o tempo… Uso com parcimônia, e nunca quando estou sozinho. Na verdade, no trato com o lado de fora uso mais as regras da civilização e o método científico.

Evandro – E quando seus passos divergem dos caminhos que você mesmo propõe?
Aroeira – Os irmãos Caruso têm uma música que sempre tocamos nos seus vaudevilles humorísticos… “A filosofia de Tancredo é que nos norteia… Pra que fazer plano, se vai entrar areia?”. Quando os passos divergem, deixo a vida me levar (outra canção) … Desde que eu não traia minhas escolhas morais e éticas. Se traírem, se descarrilo – e isso pode acontecer eventualmente – tento voltar aos trilhos. Da melhor forma que puder.

Evandro – Alma, o que é isso? Quando morremos, destampa-se o frasco, evapora-se o éter?
Aroeira – Alma é esse holograma de carne, processos e impulsos bioelétricos. Completamente autodidata (sim, em última análise), um trem doido que grita EU. Acredito piamente na alma. Mas não na sua imortalidade. Ela não sobrevive ao fim de nenhum dos seus componentes. Quando morremos, morremos.

Evandro – Maomé disse que Deus não tem filhos? E nós? Temos Deus?
Aroeira – Nós inventamos Deus (e Deuses de todo tipo e jeito) porque é muito solitário aqui, entre o céu e o inferno. Robert Heinlein dizia que Deus criou o Universo para ter amigos.

Evandro – Solidão? É aquele invisível, acocorado ali no canto, carente de apalpamentos?
Aroeira – Solidão apavora, diria o Caetano. A solidão conceitual (moramos sós na nossa cabeça – exceto os esquizofrênicos com múltiplas personalidades, que vivem em comunidades) vai se impondo, a gente se acostuma. Mas a vontade de ser apalpado é outra coisa.

Evandro – Você se inclina amiúde diante das preeminências do espírito? Ou é uma criatura quântica in totum?
Aroeira – Sou tão quântico quanto o gato de Schrödinger. Estudei Física e Matemática. Por outro lado, o Universo NÃO RESPONDE as questões da Metafísica…

Evandro – Você se angustia com reiteradas desaparições do Afeto?
Aroeira – As reiteradas desaparições do afeto eu respondo (e respondi) sempre preenchendo o espaço deixado, antes que ele se feche. Aceito isso como parte da nossa condição num Universo que tem entropia.

Evandro – É possível aprender, com o passar do tempo, a farejar, com certa antecedência, uma rua sem saída?
Aroeira – Sim, o tempo ensina a farejar armadilhas e becos sem saída. A idade amplia nossa percepção do “vai dar merda”. Eu aprendo, meu gato aprende (e mais rápido do que eu).

Evandro – E essa inquietude que emerge de repente de dentro das profundas águas das impossibilidades?
Aroeira – As minhas impossibilidades são águas tranquilas. Quando jovem, desafiei o impossível e muitas vezes percebi que tinha apenas conquistado um possível cabeludo e difícil… Mas ainda possível. O tal do impossível de fato é um ótimo espetáculo. Bom de assistir.

Evandro – E quando queremos empreender novos caminhos, mas nossos passos não se adaptam de jeito nenhum às probabilidades peregrinas?
Aroeira – Sou realista, e gosto sempre de tentar coisas novas. Mas tem coisa, dizendo de maneira bem coloquial, que não dá, brother…

Fragmentos

Deixou lamúrias no fundo da gaveta e caminhou a trouxe-mouxe pelas ruas assobiando trechos da Nona – de Beethoven. De repente, extasiou-se vendo vento prevaricador levantar saia de encantadora moça que, digamos, incauta, mostrou seu indelével desprendimento íntimo. Ele, nosso andejo-voyeur, há meses não consegue mergulhar no esquecimento aqueles sub-reptícios e veludosos pelos púbicos.

Livro de minha autoria

Foto principal

(As fotos que abrem este blog pertencem ao meu futuro livro, Ruínas. Passei um ano fotografando paredes carcomidas pelos becos, veredas, ruas do centro, e de alguns bairros paulistanos).

As imagens apresentam uma concretude pobre e miserável, de ruína mesmo, que na sua própria deterioração encontra rasgos inesperados de um refinado expressionismo abstrato – força das paredes arruinadas e das tintas expressivas do tempo. (Alcir Pécora)

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