Hoje, entrevista com Eugênio Bucci

Anteposição do fenômeno

Evandro Affonso Ferreira

Hoje de manhã eu estava me lembrando de minha época de boemia, e me lembrei também de um sujeito que frequentava a nossa mesa…

Pílula do dia

A morte de Virgílio, de Hermann Broch

Nasceu em Viena, 1886. Morreu em 1951. Com a anexação da Áustria pelos nazistas, Hermann Broch foi preso, porém, movimento organizado por amigos – incluindo James Joyce – foi solto, autorizado a emigrar, primeiro para o Reino Unido, depois para os Estados Unidos. Na prisão, concebeu-iniciou seu magistral romance-rio, A morte de Virgílio. Nobel de Literatura. Escreveu vários livros, entre eles: Os sonâmbulos e o recomendado A morte de Virgílio, este, um dos maiores romances da literatura universal – vasta meditação lírica que exprime profunda inquietação sobre a morte. Elias Canetti disse que o ouvir de Broch concedia às pessoas uma recepção misteriosa, razão pela qual estas sucumbiam a ele. Eu não conhecia, então, um único ser humano que não tivesse viciado nela. Essa recepção não era precedida de qualquer sinal, não continha qualquer apreciação; nas mulheres, transformava-se em amor.

Trecho do livro:

E hoje, quase no fim das suas forças, no fim da sua fuga, no fim da sua busca, quando tinha vencido os obstáculos e se tinha aprontado para a despedida, quando tinha conseguido a disposição e estava pronto para assumir a derradeira solidão e a iniciar o regresso íntimo até ela, então o destino, com os seus poderes, de novo o tinha forçado, de novo lhe tinha torcido o caminho, entortado em direção à multiplicidade do exterior, tinha-o obrigado a regressar ao mal que sombreara toda a sua vida, sim, era como se o destino apenas tivesse a única simplicidade que lhe restava – a simplicidade da morte.

Entrevista: Eugênio Bucci

Jornalista, professor titular da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP). Membro do Conselho Consultor da Fundação OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de que São Paulo) e integrante do Conselho Deliberativo do Instituto Vladimir Herzog. Autor de vários livros, entre eles: Existe democracia sem verdade factual? (Estação Liberdade), A forma bruta dos protestos (Cia das Letras), e O Estado de Narciso (Cia das Letras). Ganhou vários prêmios, como, por exemplo, Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa.


Bucci: democracia e jornalismo



Evandro Affonso Ferreira – O que você costuma fazer quando tropeça nos incompreensíveis que surgem abruptos em seu caminho?
Eugênio Bucci – Acho que eu sou o mais intrigante incompreensível abrupto do meu caminho. Se eu me compreendesse, seria fácil, mas talvez não fosse tão emocionante. Por isso, aos incompreensíveis eu costumo dar boa noite (é a hora preferida deles) e sentamos para conversar. Às vezes, eles somem sem mais. Outras vezes, dá jogo.

Evandro – O que fazer com essas junturas, essas urdiduras do acaso do ocaso do casual do ocasional?
Eugênio – Acho que teço tessituras. Conforme a urdidura, uma jura. Fujo da conjuntura, esqueço a estrutura, no acaso amando o transitório.

Evandro – Difícil adquirir o hábito de deixar logo de manhãzinha o furor no fundo da gaveta?
Eugênio – Esse hábito seria um vício. Não o quero.

Evandro – E quando você se vê num compartimento de reduzidas proporções, cujo nome é pressentimento?
Eugênio – Sinto, pressinto, mas não ressinto nem minto.

Evandro – E quando você ouve barulhos do ininteligível, rumores atabalhoados, inaudíveis? Sim: quando o destrambelho parece querer se instalar de vez, talvez, na própria cachimônia?
Eugênio – Penso que são barulhentos, mas não roncam para mim.

Evandro – E esses amanheceres irreconhecíveis, escassos de surpreendências?
Eugênio – Marmóticos.

Evandro – É aflitivo para você, olhar, mesmo de soslaio, as insinuações do improvável?
Eugênio – Não sei se aflitivo, porque torço por elas. Como sou do contra, mesmo entre os que são do contra, tudo o que é provável me entedia.

Evandro – Nem sempre é possível perceber que os auges são muito escorregadios?
Eugênio – Quase nunca.

Evandro – Com que argamassa você reveste a alvenaria do nostálgico?
Eugênio – Com a utopia. Ou você acha que não há uma alma nostálgica no futuro improvável?

Evandro – Você acredita que um dia, não muito distante, a física quântica vai dar conta de todas essas nossas bancarrotas personalizadas?
Eugênio – Não acredito não. Virá outra física depois, não muito distante, mas não sei ainda em quântico tempo.

Fragmentos

Predestinação lasciva provocando a luxúria do Predomínio. Sempre alimentado pelos ingredientes afrodisíacos da Soberania; sempre se guiando pelos ventos propícios às dominâncias, às supremacias; sempre seguindo trilhas pavimentadas com mistura escura, viscosa da tirania. Sensação de que se considerava metal preservado (por leis próprias) das oxidações. Contam que ainda hoje, mesmo depois de se instalar num manicômio, continua estudando a hereditariedade, a estrutura, as funções dos genes do Poder Absoluto.

Livro de minha autoria

Foto principal

(As fotos que abrem este blog pertencem ao meu futuro livro, Ruínas. Passei um ano fotografando paredes carcomidas pelos becos, veredas, ruas do centro, e de alguns bairros paulistanos).

As imagens apresentam uma concretude pobre e miserável, de ruína mesmo, que na sua própria deterioração encontra rasgos inesperados de um refinado expressionismo abstrato – força das paredes arruinadas e das tintas expressivas do tempo. (Alcir Pécora)

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