Hoje, entrevista com Fernando Gabeira

Cartola, maravilhoso Cartola

Evandro Affonso Ferreira

Hoje, exatamente hoje, há 40 anos, morria o grande, genial, maravilhoso, extraordinário Cartola…

Pílula do dia

Cavaleiro Andante, de Almeida Faria

Nasceu em 1943, no Alentejo, Portugal. Além de romancista, autor de ensaios, contos e teatro. Ensinou, na Universidade Nova de Lisboa, Estética no Departamento de Filosofia e Psicologia da arte. Ganhou, com o conjunto de sua obra, o Prêmio Virgílio Ferreira da Universidade de Évora e o Prêmio Universidade de Coimbra. Escreveu, entre dezenas de livros, Rumor Branco, A Paixão, Cortes, Lusitânia).

Trecho do Livro:

Salvação de quê? E onde? Suspeito do substrato destas palavras tão abstratas, não encontro porém outras que mais me agradem: salvação, da nação, amor de perdição trazem ecos suaves, recordam a falhada ocasião, o ato letal, o facto definitivo e fatal, o fado que nos serve de consolo há séculos, a fúria com que vou à procura da escolha errada, do caminho à partida seguramente falso.

Entrevista: Fernando Gabeira

Mineiro de Juiz de Fora, Fernando Gabeira é escritor, jornalista e ex-deputado federal pelo Rio de Janeiro. Publicou vários livros, entre eles: O que é isso, companheiro?, O crepúsculo do macho, Entradas e bandeiras e Hóspede da utopia. Um dos fundadores do Partido Verde. Viveu, ao longo de quase uma década, exilado político em vários países, entre os quais: Chile, Suécia e Itália. Desde 2013 apresenta na Globonews o programa Fernando Gabeira – reportagens e entrevistas. Quando lança mão de seus comentários na televisão, pratica concisos tratados-poéticos-políticos.


Gabeira – sempre avançando na reflexão


Evandro Affonso Ferreira – Costumo dizer que sou muito afetivo, pegajoso, motivo pelo qual gostaria que Deus fosse palpável? Afinal, procurar Deus é querer apalpar plenitudes?
Fernando Gabeira – Se você considera Deus como tudo que existe, ou como os católicos onipresente, apalpar é uma busca do divino, ou mesmo um encontro entre veludos e espinhos.

Evandro – Agora, depois de velho, tenho conseguido polir os avanços com o verniz da parcimônia. E você? Já se afeiçoou aos recuos? É condescendente com os retrocederes?
Gabeira – Depois de velho o avanço é se esquecer e mergulhar no mundo. Não só me afeiçoei aos recuos como passei a vê-los como indispensáveis ao movimento.

Evandro – É possível rastrear lampejos?
Gabeira – Difícil rastrear lampejos, intuí-los talvez. Mas são muito independentes.

Evandro – É aconselhável, vez em quando, se refugiar, resignante, nos estupefatos?
Gabeira – De vez em quando sim. Insuportável permanecer nos estupefatos. É preciso um mínimo de compreensão para prosseguir.

Evandro – Você já ensinou seu próprio olhar a refutar angústias e todos os seus apetrechos melancólicos?
Gabeira – É um aprendizado refutar angústias e seus apetrechos melancólicos. Moer no áspero porque a vida continua.

Evandro – Costumo esbarrar, distraído, tempo quase todo na precipitação. E você?
Gabeira – Sim, costumo e me pergunto: pra quê? O final já está escrito.

Foto: Gabeira

Evandro – E quando você pretende empreender tarefa de confeccionar caminhos, mas percebe que seus passos não se adaptam às probabilidades peregrinas?
Gabeira – Meus passos não conseguem abandonar as possibilidades peregrinas. Infelizmente a pandemia triunfou por um tempo. Viajo há seis anos, todas as semanas. Como diz o poeta, viagem é a notícia de que estamos sós ao nascer. As viagens nos acostumam a essa realidade.

Evandro – Você já inventou, para consumo próprio, símbolo gráfico indicativo para ajudá-lo a seguir os próprios instintos?
Gabeira – Meu símbolo gráfico é o mais banal, até os jogadores o representam quando se dirigem à torcida: um coração desenhado com os dedos da mão.

Evandro – E as certezas? Vida toda ultrapassamos, se tanto, o pórtico do talvez?
Gabeira – As certezas ficaram pelo caminho, se ultrapassamos o pórtico do talvez é apenas para lembrar que as certezas são temporárias, apenas uma ajuda para vencer a paralisia.

Foto: Gabeira

Fragmentos

Depois de ler-reler Da natureza das coisas, de Lucrécio, nossa ontológica personagem, pensou, desalentada: se tudo isso que meu poeta latino afirmou em vida, for verdadeiro, nem ele pôde confirmar depois de morto: coisa nenhuma não vislumbra o absolutamente nada.

Livro de minha autoria

Foto principal

(As fotos que abrem este blog pertencem ao meu futuro livro, Ruínas. Passei um ano fotografando paredes carcomidas pelos becos, veredas, ruas do centro, e de alguns bairros paulistanos).

As imagens apresentam uma concretude pobre e miserável, de ruína mesmo, que na sua própria deterioração encontra rasgos inesperados de um refinado expressionismo abstrato – força das paredes arruinadas e das tintas expressivas do tempo. (Alcir Pécora)

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