Hoje, entrevista com Ana Miranda

Evandro Affonso Ferreira

Hoje me lembrei da palavra inveja…

Pílula do dia

O homem sem qualidades, de Robert Musil

Escritor austríaco (1880-1942), autor da obra-prima Um homem sem qualidades, amplo painel da existência burguesa no início do século XX. Estudou filosofia e literatura em Berlim. Escreveu vários livros, entre eles: O jovem Törless, Os entusiastas, além de vários ensaios. Costumava dizer que não é gênio que se adianta um século ao seu tempo, é a Humanidade que se encontra cem anos atrás dele.

Trecho do livro:

Tudo isso é o conhecido fato dos paradoxos, da incoerência e imperfeição da vida, que nos fazem rir ou chorar. Ulrich porém não era assim. Odiava aquela mescla de desapego e exagerado apego à vida, com que suportamos suas contradições e meias-verdades, como uma tia solteirona tolera as más-criações de um jovem sobrinho. Mas não saltou da cama ao ver que ficar deitado nela era tirar vantagem da desordem nas relações humanas; pois evitar pessoalmente o mal e fazer bem, mas não se importar com a ordem geral, é, em muitos sentidos, um com compromisso precipitado com a consciência à custa da causa, um curto-circuito, uma fuga para o mundo particular.

Entrevista: Ana Miranda

Nascida em Fortaleza, Ceará, Ana Miranda trabalhou em filmes do Cinema Novo, foi editora-chefe da Funarte, além de dirigir, nesta mesma instituição, o Instituto Central de Artes. Escritora e desenhista, publicou vários livros, entre eles: Boca do Inferno (traduzido na Suécia, Estados Unidos, França, Espanha, Inglaterra, muitos outros países), O retrato do Rei e Dias & Dias, entre uma dezena de outros. Ganhou vários prêmios, como por exemplo, Jabuti, Biblioteca Nacional e Prêmio da Academia Brasileira de Letras.


Ana e o passado


Desenho: Ana Miranda

Evandro Affonso Ferreira – Morrer é vislumbrar as profundezas místicas dos fogos-fátuos?
Ana Miranda – Morrer deve ser ir para um lugar muito bom porque ninguém volta.

Evandro – E a solidão? É aquele invisível, ali no canto, carente de apalpamentos?
Ana – Solidão e silêncio são hóstias preciosas de que nos alimentamos.

Evandro – É possível farejar as voluptuosidades do eventual, as luxúrias do acaso?
Ana – O acaso é nossa única certeza.

Evandro – Viver? Você está preparada para esta emboscada?
Ana – Sim. Sempre sei como vou errar de novo, errar de novo, errar de novo…

Evandro – Reveses? Enriquecem biografias, empobrecem epitáfios?
Ana – Meu epitáfio vai ser um poema sobre o retorno: E quando ali retornarmos/ Verás que nunca nos fomos/ Pois o lugar onde estamos/ o lugar onde estaremos/ é sempre o lugar que somos.

Evandro – E quando você se sente uma nau desarvorada, barco aturdido nas águas da inquietude, veículo desordenado numa estrada em declive?
Ana – Volto a ser menina. E ser criança é a única maneira de entrar no céu.

Evandro – Você já aprendeu, com o passar do tempo, a farejar, com antecedência, uma rua sem saída?
Ana – Todas as ruas têm saída – às vezes basta caminhar para trás.

Evandro – Sensação de que sua vida, vez em quando, se parece com uma parábola ininteligível, cheia de não-vereis-não-entendereis?
Ana – Sim, esta é a minha sensação ao olhar o mundo e os humanos e a literatura.

Evandro – Eu sinto, você também sente que, às vezes, muitas vezes, carece de passos únicos para caminhar no sentido contrário ao unânime?
Ana – Fico procurando dar passos coletivos porque meus passos são sempre na contramão – isso às vezes é cansativo.

Evandro – E esse solene cortejo de incompreensíveis e seus inumeráveis ininteligíveis apetrechos?
Ana – Acendo uma vela e sigo a procissão, mas não entro na igreja.

Fragmentos

Dizem que guarda no porão baú atafulhado de metáfora para consumo próprio. Outros, mais perspicazes, garantem que nossa ontológica personagem recolhe, dentro desse mesmo receptáculo, pastilhas em doses duplas de implícitos.
…………….
Refugia-se no subsolo dos pretextos: aprendeu ofício de afagar escusas.

Livro de minha autoria

Foto principal

(As fotos que abrem este blog pertencem ao meu futuro livro, Ruínas. Passei um ano fotografando paredes carcomidas pelos becos, veredas, ruas do centro, e de alguns bairros paulistanos).

As imagens apresentam uma concretude pobre e miserável, de ruína mesmo, que na sua própria deterioração encontra rasgos inesperados de um refinado expressionismo abstrato – força das paredes arruinadas e das tintas expressivas do tempo. (Alcir Pécora)

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