Hoje, entrevista com João Adolfo Hansen

Os insondáveis…

Evandro Affonso Ferreira

Hoje me deu vontade de ler um texto que publiquei muito tempo atrás, numa plaquete…

Pílula do dia

Da Natureza das Coisas, de Lucrécio

São escassas as informações que temos sobre Lucrécio e contraditórias entre si. S. Jerônimo diz, baseando-se provavelmente em Suetônio, que no ano 94 a.C. nasceu Tito Lucrécio, que mais tarde por causa de uma poção afrodisíaca enlouqueceu, tendo escrito alguns livros nos intervalos da loucura, posteriormente emendados por Cícero, e que se suicidou aos 44 anos de idade. Teria falecido em 51 ou 50 a.C.

Trecho do livro:

Ora, se tivermos compreendido que do nada nada pode provir
Então já perceberemos melhor o que é que procuramos:
A partir do que é que cada coisa pode ser criada
E de que forma ocorrem todos os fenômenos, sem intervenção divina.
Na verdade, se tudo surgisse do nada, qualquer coisa
Poderia nascer de qualquer coisa, nada precisaria de uma semente.

Entrevista: João Adolfo Hansen

Professor, crítico literário, ensaísta e historiador da literatura. Professor da USP durante muitos anos. Membro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Foi professor visitante na Universidade do Chile, na Stanford University, na UCLA e na École des Études de Paris. Ganhou prêmio Jabuti na categoria Ensaios. Publicou vários livros, entre eles: A sátira e o engenho – Gregório de Matos e a Bahia do século XVII, O O. A ficção da literatura em Grande Sertão: Veredas e Alegoria – Construção e interpretação da metáfora.


O crítico e a barbárie


Evandro Affonso Ferreira – Costumo dizer que sou muito afetivo, pegajoso, motivo pelo qual gostaria que Deus fosse palpável. Afinal, procurar Deus é querer apalpar plenitudes?
João Adolfo Hansen – Não. Procurar Deus é querer o nada.

Evandro – Agora, depois de velho, tenho conseguido polir os avanços com o verniz da parcimônia. E você? Já se afeiçoou aos recuos? É condescendente com os retrocederes?
Hansen – Depois de algum tempo, não sei bem o que é avanço ou recuo. Não sei responder. Em geral, não tenho condescendência nenhuma comigo.

Evandro – É possível rastrear lampejos?
Hansen – Alguns é possível entrever, mas não são nada de sólido que deixe rastros rastreáveis.

Evandro – É aconselhável, vez em quando, se refugiar, resignante, nos estupefatos?
Hansen – Acho que não. Os estupefatos em geral são estúpidos. Acho melhor acreditar que não há refúgio.

Evandro – Você já ensinou seu próprio olhar a refutar angústias e todos os seus apetrechos melancólicos?
Hansen – Não, nunca. Ao contrário, sempre os tornei mais agudos pra percebê-las.

Evandro – Costumo esbarrar, distraído, tempo quase todo na precipitação. E você?
Hansen – Sim, claro. A falta de calma, a pressa, a falta de consideração, etc. A gente esbarra em si mesmo o tempo todo.

Evandro – Você já aprendeu a farejar com antecedência uma rua sem saída?
Hansen – Mas alguma delas tem saída?

Evandro – E quando você pretende empreender tarefa de confeccionar caminhos, mas percebe que seus passos não se adaptam às probabilidades peregrinas?
Hansen – Mudo de assunto, mudo de caminho, mudo de ideia, caio fora, etc.

Evandro – Você já inventou, para consumo próprio, símbolo gráfico indicativo para ajudá-lo a seguir os próprios instintos?
Hansen – Não, nunca pensei nisso.

Evandro – E as certezas? Vida toda ultrapassamos, se tanto, o pórtico do talvez?
Hansen – As certezas em geral estão enganadas. É melhor pensar que sim/não simultaneamente. Pra mim, é melhor viver sem elas, como no verso do poeta, “atravesso noites e dias no vento”.

Fragmentos

É a favor da extinção dos alaridos, das algazarras, dos ruídos estrondosos. Entanto, reverente às palavras sonoras, nossa ontológica personagem espera que o substantivo estrépito nunca caia em desuso.
…………….
Sua fala vez em quando arrastada, tem a mesma lenteza da fluidez do mel – entanto, amargosa.

Jactâncias

Livros de minha autoria

1996Bombons Recheados de Cicuta (Paulicéia)
2000Grogotó! (Topbooks)
2002Araã! (Hedra)
2004Erefuê (Editora 34)
2005Zaratempô! (Editora 34)
2006Catrâmbias! (Editora 34)
2010Minha Mãe se Matou sem Dizer Adeus (Record)
2012O Mendigo que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Rotterdam (Record)
2014Os Piores Dias de Minha Vida Foram Todos (Record)
2016Não Tive Nenhum Prazer em Conhecê-los (Record)
2017Nunca Houve tanto Fim como Agora (Record)
2018Epigramas Recheados de Cicuta – com Juliano Garcia Pessanha ((Sesi Editora)
2019Moça Quase-viva Enrodilhada numa Amoreira Quase-morta (Editora Nós)
2019 – (Plaquetes) – Levaram Tudo dele, Inclusive Alguns Pressentimentos, Certos Seres Chuvosos não Facilitam a Própria Estiagem e Anatomia do Inimaginável.
2020Ontologias Mínimas (Editora Faria e Silva)
2021Rei Revés (Record)

Foto principal

(As fotos que abrem este blog pertencem ao meu futuro livro, Ruínas. Passei um ano fotografando paredes carcomidas pelos becos, veredas, ruas do centro, e de alguns bairros paulistanos).

As imagens apresentam uma concretude pobre e miserável, de ruína mesmo, que na sua própria deterioração encontra rasgos inesperados de um refinado expressionismo abstrato – força das paredes arruinadas e das tintas expressivas do tempo. (Alcir Pécora)

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