As muitas faces do Poderoso Chefão

FREDERICO MORIARTY – Conheci Mario Puzo aos meus 12 anos. Era uma coleção de banca da Abril ” Grandes Sucessos “. Um livro a cada 15 dias. Meu pai, filho de um italiano nascido em Sernaglia de la Bataglia e emigrado para o Brasil em fins do século XIX, desafiou-me: ” Se garantir que vai ler 1 livro a cada 15 dias, eu compro”. A saga de Vito, um menino magricela italiano, migrante como meu avô Alessandro, era o primeiro da coleção. E não consegui mais parar de ler ” O Poderoso Chefão ” e os livros seguintes, ou seja, tenho a coleção de 1 centena de livros comigo até hoje. Ao terminar de ler The Godfather, este neto de italianos começou a encasquetar uma ideia na cabeça: quero ser o Vito Corleone tropical. No ano seguinte, ao assistir pela primeira vez O Poderoso Chefão 1 e 2, na antiga tevê Bandeirantes em 10 capítulos de segunda a sexta-feira, com cortes e dublagens terríveis, a ideia fortaleceu mais ainda: o que haveria de mais importante do que ser um mafioso. Seja marginal, seja um heroi…

Mario Gianluiggi Puzo era um filho de imigrantes italianos nascido em Nova York. Quando voltou da segunda guerra anunciou aos pais que seguiria a profissão de escritor. ” Louco!”, gritou-lhe o pai. Puzo foi trabalhar em revistas e jornais. Entre 1950 e 1967 conseguiu vender 3 contos para uma Revista Literária e escreveu 2 romances que não venderam nem 1000 exemplares. Perto de completar 50 anos uma editora lhe oferece um adiantamento de US$ 150 mil ( valor atualizado) para que ele escrevesse uma história sobre mafiosos. Puzo fez uma belíssima pesquisa e terminou em 1969 a obra que definiu tudo o que entendemos por Máfia. The Godfather ( O Poderoso Chefão, em português) narra a saga da família Corleone e de seu patriarca, Vito Andolini entre 1891 e 1955, o ‘capo di tutti capi’ dos mafiosos norte-americanos.

Dois anos depois do estrondoso sucesso, Puzo fica amigo do jovem cineasta da ” turma da UCLA “, Francis Ford Coppola. Este havia ganhado um Oscar de roteiro por Patton, rebelde ou heroi em 1970. Por mais de 20 anos eles trabalharam juntos nos roteiros e direção da trilogia cinematográfica de O Poderoso Chefão. O livro original desmembrou-se em duas histórias. Uma segunda história foi escrita em 1989. A narrativa linear do romance virou uma primeira parte com os últimos anos de Vito Corleone à frente do império criminoso. Na segunda parte há duas tramas: a reconstrução da história de Vito Corleone em recorrentes flash-backs e a arquitetura da sucessão com Michael Corleone, o preferido do Padrinho (nome do filme e do livro em Portugal). Michael era o preferido não para herdar as atividades ilícitas, mas para purificar e enobrecer a família Corleone. No terceiro roteiro vemos um Michael Corleone fazendo de tudo para sair dos negócios, se redimir dos imperdoáveis pecados e deixar para os filhos e netos a batalha da redenção. Nada mais cristão, nada mais hipócrita, como todo bom italiano é.

Marlon Brando em O Poderoso Chefão 1

Vito Andolini nasceu na Sicília em 7 de dezembro de 1891. Aos nove anos viu sua família ser dizimada pelo gângster local, Don Ciccio. Marcado de morte, Vito consegue fugir para os Estados Unidos em 1901. Em 1920 Vito ( interpretado por Robert de Niro) é um pobre migrante italiano casado com Constanza e com 2 filhos: Sonny de 4 anos e o doente Federico de 1 ano. Um vizinho lhe pede 1 favor e Vito faz. O vizinho, Genco, lhe retribui com um tapete que eles roubam de uma casa luxuosa. Logo depois, Vito é demitido da mercearia em que trabalhava, a pedido de Don Fanucci, o mafioso do bairro. Tendo de sustentar a família, agora com o terceiro filho: Michael, Vito se junta com Genco, Clemenza e Tessio e passam a explorar o mercado de roubos e depois o contrabando de bebidas, além da prostituição e venda de proteção para pequenos comerciantes da ” Little Italy”. De perfil contemporizador e hábil estrategista, Vito incomoda Don Fanucci. O velho mafioso será assassinado pelo jovem siciliano. Agora ele é Don Vito Corleone ( O fiscal da imigração não entendeu o nome Andolini e colocou a cidade de onde o menino veio). Ergue um império de negócios que incluem a produção de azeite de oliva para exportação, com o nome Genco. O dinheiro sujo da máfia sendo lavado no verde oliva. Vito enriquece, compra policiais, juízes, imprensa, políticos, cria toda uma rede de proteção para seus negócios escusos. Esta história do segundo filme nos leva até 1942, quando um dos homens mais ricos e poderosos dos Estados Unidos verá seus negócios serem colocados em cheque, exatamente no momento em que tenta se tornar um império do bem. O Don quer que seu filho vire o Duque. Sim, O Poderoso Chefão é uma metáfora do capitalismo. Os grandes impérios econômicos são sempre símbolos do empreendorismo de mentes geniais e obcecadas pelo sucesso. No caminho entre o início dos negócios e o sucesso empresarial, a mão invisível do mercado apaga o passado e as idiossincrasias do presente. O marginal vira heroi. O filho será senador. O neto patrono das artes e quiçá presidente. Corleone é como os Ford, os Odebrecht, os Edison, os Gates, os Camargo Corrêa e os Zuckberg da vida. A diferença é que o filme destas vidas seria muito chato, tal a indulgência santificadora dos seus roteiristas.

O primeiro filme começa com o casamento da 4° filha de Corleone ( aqui interpretado pelo estupendo Marlon Brando). Connie ( Talia Share, irmã do ítalo-americano Coppola, que também arrumou um papel para a filha recém-nascida: Sofia e que no filme 3 ganhou destaque aos 19 anos, além é claro, de parte da trilha maravilhosa de Nino Rota, entregue para o pai do diretor nepotista) irá se casar com Carlo ( curiosamente o papel seria de Silvester Stallone, que 4 anos depois fez o par romântico com Share em Rocky). O casamento é o início de uma guerra fratricida entre os mafiosos. Cada vez mais Solozzo e Don Barzini querem ampliar as atividades e os lucros do crime organizado. A cocaína e a heroína prometiam um lucro dezenas de vezes mais lucrativo do que jogos ilegais, drogas leves, prostituição e roubos. Don Corleone não aceita e logo após o fim da 2° Guerra Mundial quase é assassinado. A partir daí o filme entra numa escalada sem fim de violência que lembra a participação dos Estados Unidos no Vietnã. Michael salva o pai de uma segunda tentativa de assassinato. Um capitão corrupto quebra-lhe o queixo. Tom Hagen ( O filho adotivo e conselheiro de Corleone) é sequestrado pelos outros mafiosos que lhe expõe que ” Vito está morto” e ele precisava aceitar o acordo. Sonny mata o filho de Solozzo. Numa emboscada armada pelo cunhado espancador da esposa, Sonny é morto com centenas de tiros. Michael mata Solozzo e o capitão corrupto, foge para a Sicília. Lá acaba escapando de uma tentativa de assassinato que tira a vida de seu grande amor, Apollonia. Cada uma destas cenas dura no máximo 5 minutos e cada uma delas é melhor do que 90% dos filmes que já assistimos. A Batalha de Pirro (líder militar macedônico do início do século III a.C. Numa das batalhas contra os romanos vencida por ele, perdeu 95% dos soldados) dos mafiosos leva às 5 famílias a propor a paz. Don Corleone é tratado com reverência, mas sabe que estão apenas adiando sua morte. Exige a volta de Michael, um civil. As famílias rejeitam, pois ele matara Solozzo. Corleone lembra que perdeu o filho Sonny ( um excelente James Caan). Aliás, a interpretação de Brando quando vê o filho morto é uma das passagens mais marcantes do cinema. Os mafiosos terminam por aceitar. A trégua estabelecida foi o tempo necessário para a preparativa da tacada final. Nos três filmes, a tomada de poder é embalada por uma ópera. Michael arquiteta o plano e mata todos os 5 chefes de família, mata ainda os traidores de Don Corleone, como o cunhado Carlo no dia do batizado do filho dele com sua irmã Connie. Kay (Diane Keaton), a esposa americana de Michael se revolta e Michael lhe garante que jamais matara Carlo ( mafiosos não matam, mandam matar, Kay). Quando ela lhe pega um copo de uísque na sala ao lado vê a a porta do escritório ser fechada pelos protetores e afilhados do novo Don, Michael Corleone.

Sonny, Don Corleone, Michael e Freddo

Michael Corleone se mostra um mafioso muito mais cruel e sanguinário do que o pai. O filho querido, o futuro senador da América, o inteligente da família, torna-se o mais pérfido e violento criminoso líder mafioso. Sonny era o irascível que preocupava Don Corleone, mas Michael, o pretenso bom moço é doentio na sua sede de poder. É machista ao extremo, espanca Kay, a aprisiona, tira-lhe a guarda dos filhos e por último a impede de ver os próprios filhos. Michael mata todos os líderes das outras famílias, mata antigos aliados, mata o cunhado e termina por matar o próprio irmão Fredo. Proibe a irmã Connie de entrar na casa da Família. Michael é o empresário sem nenhum escrúpulos, como tantos que vimos pela vida. Ao contrário do pai que tinha um propósito e uma justificativa para os crimes; Michael mata pelo prazer hedonístico de exercer o poder ilimitado. É um Deus da morte. Elevou o Império Corleone à riqueza iniguálavel, transformou o negócio num gigante, mas era pequeno demais perto do pai Vito. Não é á toa que Vito morre de forma romântica entre parreiras e a paz dos campos, brincando com o neto, futuro músico de óperas e Michael tem a morte dolorosa e solitária das casas velhas e secas da Sicília. Se Don Corleone é o Capitalismo Industrial e Liberal, Michael é o Capitalismo Selvagem.

O recado de Don Corleone


Coppola é um perfeccionista. Os dois primeiros filmes custaram algo em torno de US$ 600 milhões de dólares em moeda atual. Para sua sorte, o sucesso estrondoso fez a Paramount arrecadar dez vezes esse valor. O diretor fez poucos filmes depois, como Apocalipse Now e Drácula, nenhum com o mesmo sucesso. Em O Poderoso Chefão todas as cenas de festas e jantares são reais. Copolla insistia em ter cardápios verdadeiros. Há um verdadeiro livro de receitas italianas nos 3 filmes. Michael aprende até como fazer o verdadeiro molho ao sugo italiano. Os cenários, as locações, o figurino, tudo foi milimetricamente pensado pelo diretor. O Poderoso Chefão está sempre entre os três maiores filmes da história, segundo qualquer crítico. Frederico Moriarty o considera o maior filme da história. O Poderoso Chefão 2 é certamente a melhor continuação da história e talvez um dos 100 melhores filmes do cinema. O Poderoso Chefão 3 é o filme mais injustiçado da história. Passados 30 anos vemos que também é um clássico. A nova edição do diretor, lançada no início de dezembro de 2020, confirma que a parte 3 está entre os grandes e inesquecíveis filmes do cinema. Imaginar que entre os meio milhão de filmes já produzidos até hoje em 125 anos de cinema, a saga das 3 histórias de Don Corleone está entre os maiores de todos os tempos não é pouco.

O pai dança coma noiva, sua caçula. Os dois embalados pela música de Frank Sinatra, um dos personagens baseados em histórias reais, afinal “blue eyes” era amigo da Máfia e ganhou um papel no cinema por intercessão dela.


Passados 40 anos da minha primeira leitura do livro de Mario Puzo e das incontáveis vezes em que assisti os 3 filmes, tenho a certeza de que meu sonho infantil estava correto. Maldita hora em que escolhi ser apenas como o pai de Vito Andolini, hoje sou reflexo das violências, torturas e desespero causados em mim pelos Corleones e Michaels da vida. Meu único glamour é a miséria.

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