Hoje, entrevista com Teolinda Gersão

Freud e os Poetas

Evandro Affonso Ferreira

Freud costumava dizer que todo caminho que ele percorria, um poeta já tinha passado por ele antes…

Pílula do dia

Que os mortos enterrem seus mortos, de Samuel Rawet

Nasceu na Polônia (1929), morreu no Brasil (1984). Contista, dramaturgo, ensaísta, engenheiro – fez parte da equipe de Oscar Niemeyer, como calculista das obras de construção de Brasília. Ganhou o Prêmio Guimarães Rosa, com o livro Os sete sonhos. Publicou vários livros, entre eles: Contos do imigrante, O terreno de uma polegada quadrada, Devaneios de um solitário aprendiz da ironia e Alienação e realidade.

Trecho do livro:

Que sombra recrudesce à sua volta? Que áspera revolta se acumula em instantes desfigurados e anula qualquer percepção de objetos como objetos? Subitamente se identifica como receptor de imagens adulteradas, incapaz de um encontro concreto, singular, imediato com o outro. Havia homens à sua volta, o seu cotidiano era o cotidiano de todos, em aparência, tinha suas exaltações e fúrias, mas havia o tempo solidificado, estratificado, e era com dor que uma vaga impulsão de fluxos se estabelecia. Abriu a janela para o pequeno pátio lateral. Chovia.

Entrevista: Teolinda Gersão

Nasceu em Coimbra, Portugal. Formada em Filosofia germânica em sua cidade natal. Professora da Universidade Nova de Lisboa, onde ensinou Literatura Alemã e Literatura Comparada. Recebeu duas vezes o prêmio de ficção Pen Clube, além dos Prêmios de teatro Marele do Festival de Bucareste, Prêmio Camilo Castelo Branco e Prêmio Máxima de Literatura. Escreveu dezenas de livros, entre eles O silêncio, A casa da cabeça de cavalo e Atrás da porta e outras histórias.


A escritora e os meridianos


Evandro Affonso Ferreira – Procurar a verdade é querer estudar a anatomia do inimaginável, debulhar as cascas do incógnito?
Teolinda Gersão – Sim, é isso … uma tarefa impossível. A realidade é poliédrica, e a nossa visão é selectiva e subjectiva. E vai mudando, ao longo do tempo, na memória.
Nos dois volumes dos meus diários heterodoxos e “loucos”, Os Guarda-Chuvas Cintilantes (1984) e As Águas Livres (2013), escolhi como epígrafe uma frase da Ética de Espinosa: “Tudo o que percebemos clara e distintamente é verdadeiro”. No contexto desses livros, a epígrafe é adequada, mas também ironicamente desadequada: o que escrevi é genuíno, mas subjectivo, e acontece num universo interior, que subverte a perspectiva apenas racional.

Evandro – E quando você se sente refém das ciladas da afoiteza? Sim: quando percebe que está transgredindo os preceitos da precaução?
Teolinda – Quando isso acontece é sinal de que estou a acertar no alvo. E não me sinto refém, as ciladas em que caio trazem revelações e são bem-vindas. O escritor tem de arriscar e cair, para olhar de frente o seu lado de sombra. Mesmo que ele seja doloroso.

Evandro – Como tanger com destreza o próprio rebanho de inquietudes?
Teolinda – Oh, é um rebanho demasiado grande, e impossível de apascentar… Não posso ter mão nele, apenas tento segui-lo, tropeçando aqui e ali, e contento-me se conseguir o mínimo: não o perder de vista.

Evandro – E quando seus passos não se adaptam de jeito nenhum às probabilidades peregrinas?
Teolinda – Nesse caso é porque me enganei e perdi o norte. Deixo essas probabilidades peregrinas para aqueles a quem estão destinadas e procuro as que estavam, sem eu saber, no meu caminho.
Não me importo quando me perco, sei que me vou reencontrar, mais adiante. Só preciso de aceitar com humildade que sou falível, e que o caminho nunca é linear. Mas está sempre à minha espera, e não foge. É o meu caminho.

Evandro – Às vezes, nem sempre, estoico, consigo trocar a penúltima vogal pela primeira: ao invés de odiar, adiar. E você?
Teolinda – Tenho raiva a muitas coisas neste mundo cão, mas não tenho ódios. Não vale a pena cultivá-los, seria muita energia perdida.

Evandro – Você tem o hábito de jogar sementes de conformismo sobre seu terreno baldio?
Teolinda – Não tenho, não… O que semeio é sempre inconformismo, e não só no meu terreno baldio. Até num belo jardim que já tive, semeei inconformismo no meio das roseiras. Por isso elas ganharam espinhos.

Evandro – Existe nele, seu baú invisível, uma penca de irrealizações?
Teolinda – Oh, se existe! Tantas, tantas … A minha experiência é mais ou menos esta: por cada cem portas que parecem abrir-se, noventa e nove acabam por ser fechadas. Mas não por mim.

Evandro – E quando as mágoas se embrenham nas suas entranhas? Como se livrar dos urros do rancor?
Teolinda – Escrever é a melhor maneira de gritar. Com todas as minhas forças. Mas quanto a mágoas, deixo-as no passado, que é o lugar onde pertencem. E não tenho ódios nem rancores, embora haja muita coisa que não perdoo.

Evandro – Você já se viu, alguma vez, diante do espelho praticando lisuras?
Teolinda – O melhor espelho é o sentido inato de justiça, com que todos nascemos. Procuro segui-lo, e transmitir aos mais jovens os valores eternos: não faças aos outros o que não querer que te façam. Luta-se pela positiva, dando o seu melhor, e não torpedeando os outros. E se a lisura de caráter é fundamental individualmente, é ainda mais indispensável a nível coletivo. Maus governantes são a peste dos países e do mundo. Mais do que qualquer um, quem tem poder precisa de ser constantemente escrutinado, e punido com dureza se prevaricar, porque está em posição de aruimnar milhões de vidas.

Evandro – É possível se precaver tempo todo contra as próprias contradições?
Teolinda – Querido Evandro, eu não consigo precaver-me nem um minuto das minhas contradições. Sou um feixe delas, como qualquer um! O “eu” mais ou menos unívoco é ficção.

Evandro – Viver? É possível se preparar para essa emboscada?
Teolinda – Infelizmente não há preparação possível … O que quer que a gente faça, o caminho está sempre armadilhado.

Evandro – Agora, com o passar do tempo, tenho conseguido polir os avanços com o verniz da parcimônia. E você? Já se afeiçoou aos recuos? É condescendente com os retrocederes?
Teolinda – Tento não olhar para trás. Recuar no tempo não é possível, pelo menos na nossa dimensão. Procuro prosseguir, sem condescendência. Mesmo que só avance a passo de caracol, e com uma paciência de formiga…

Fragmentos

Garantem que conhece de cor e salteado a gramática do esquecimento – estudo sistemático, descritivo, analítico das peripécias mnemônicas. Hoje cedo bem cedinho, nossa ontológica personagem conseguiu, numa ação incomum, esquecer significado da palavra Etimologia.

Jactâncias

Livros de minha autoria

1996Bombons Recheados de Cicuta (Paulicéia)
2000Grogotó! (Topbooks)
2002Araã! (Hedra)
2004Erefuê (Editora 34)
2005Zaratempô! (Editora 34)
2006Catrâmbias! (Editora 34)
2010Minha Mãe se Matou sem Dizer Adeus (Record)
2012O Mendigo que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Rotterdam (Record)
2014Os Piores Dias de Minha Vida Foram Todos (Record)
2016Não Tive Nenhum Prazer em Conhecê-los (Record)
2017Nunca Houve tanto Fim como Agora (Record)
2018Epigramas Recheados de Cicuta – com Juliano Garcia Pessanha ((Sesi Editora)
2019Moça Quase-viva Enrodilhada numa Amoreira Quase-morta (Editora Nós)
2019 – (Plaquetes) – Levaram Tudo dele, Inclusive Alguns Pressentimentos, Certos Seres Chuvosos não Facilitam a Própria Estiagem e Anatomia do Inimaginável.
2020Ontologias Mínimas (Editora Faria e Silva)
2021Rei Revés (Record)

Foto principal

(As fotos que abrem este blog pertencem ao meu futuro livro, Ruínas. Passei um ano fotografando paredes carcomidas pelos becos, veredas, ruas do centro, e de alguns bairros paulistanos).

As imagens apresentam uma concretude pobre e miserável, de ruína mesmo, que na sua própria deterioração encontra rasgos inesperados de um refinado expressionismo abstrato – força das paredes arruinadas e das tintas expressivas do tempo. (Alcir Pécora)

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