Hoje, entrevista com Marcelo Mirisola

Hóspede desta vida

Evandro Affonso Ferreira

Hoje me deu vontade de ler Anna Akhmátova, poeta russa maravilhosa…

Pílula do dia

Pedro Páramo, de Juan Rulfo

Nasceu no México. Escritor que deu aos camponeses mexicanos uma voz universal. Também fotógrafo e roteirista. Ganhou os prêmios Nacional de Literatura e o Príncipe de Astúrias. Publicou apenas dois livros: Pedro Páramo e O planalto em chamas. Ambos geniais. Faleceu em 1986.

Trecho do livro:

Acreditamos às vezes, no meio desta estrada sem beiras, que não haveria nada depois, que não poderíamos encontrar nada do outro lado, no final da planura rachada das gretas e de arroios secos. Mas há alguma coisa. Existe um povoado. Ouvem-se os cachorros latindo e se sente no ar o cheiro de fumaça. Saboreia-se este cheiro de gente, como se fosse uma esperança.

Entrevista: Marcelo Mirisola


Mirisola comentando Tolstoi


Escritor, bacharel em Direito, autor de contos, romances, crônicas e dramaturgia. Colabora regularmente para revistas, jornais e websites. Escreveu vários livros, entre eles Fátima fez os pés para mostrar na choperia, O azul do filho morto, A vida não tem cura e O cristo empalhado. Já publicou dois livros em Portugal. Dizem, concordo, que leva ao extremo a ideia de transgressão – Moral, sexual, de linguagem, política, religiosa, revelando raro domínio da língua e uma erudição invulgares.


O escritor e o casamento


Evandro Affonso Ferreira – E essas telhas que vão se quebrando pelos caminhos? Vida é casa destelhada carente de reformas eternas?
Marcelo Mirisola – Mente quem diz que não é sem-teto.

Evandro – O homem é o lobo do homem que uiva para lua nenhuma?
Mirisola – Uiva para a mulher, que é lua nenhuma e é loba também.

Evandro – Nossos percursos são malthusianos? Os tropeços são desproporcionais aos próprios passos?
Mirisola – Qual a graça se não forem desproporcionais?

Evandro – E aquele bumerangue da infância? Ainda não voltou?
Mirisola – Sabe aquele prólogo de Borges sobre Kafka? Sobre influenciar os predecessores? Desconfio que fiz uma maldade com o pobre garoto que semeou minha degenerescência. Somente hoje consegui entender alguns sustos e uma pequena parte do encanto dele. Um dia acertaremos as contas, e aí você sabe o que vai acontecer, não sabe?

Evandro – Você se habita bem em você mesmo? Ou… Fica quase sempre na própria edícula?
Mirisola – Fui expulso de mim mesmo, inclusive da minha solidão: como lhe disse na primeira resposta; um sem teto. Ah, quem me dera uma edícula, seria feliz com um puxadinho.

Evandro – Às vezes penso na possibilidade de existir palavra-fraque-da-frase… Inexorável seria uma delas? Ou…
Mirisola – Inexoravelmente (com fraque e cartola)

Evandro – E o epitáfio de Marcelo Mirisola?
Mirisola – Conheci Ituporanga, a capital da cebola.

Evandro – Como você imagina que será o primeiro dia dos dias que nunca mais amanhecerão para você?
Mirisola – Para imaginá-lo precisaria pegar carona com o garoto (ele mesmo) que sobrevoava as copas das árvores, e lá do alto avistar um homenzinho dizendo adeus.

Evandro – Todo o rio Letes nunca será suficiente para nos fazer esquecer delas, nossas vinganças?
Mirisola – Resta saber se as vinganças, as piranhas, esquecerão da gente, nesse rio jacaré nada de costas.

Evandro – O Inacessível é lugarejo no qual mora o amor?
Mirisola – Anota o endereço aí: inacessível esquina com o inexorável, casa 10.

Evandro – E esse oco, esse vazio, essa falta (que sabemos eterna) de quem vai para voltar jamais?
Mirisola – Para voltar ou não voltar jamais? Se for o segundo caso, oco é eco.

Evandro – E os rancores? Guardá-los na algibeira? Na gaveta? Num baú? Ou jogá-los todos no já citado rio do esquecimento?
Mirisola – Jogar a gente joga, Evandrinho, mas aí vem o oco que citaste e engole a gente.

Evandro – Você iria até o último andar do Céu para encontrar sua Beatriz? Ou… já na frontaria do Purgatório arrepiaria caminho, concluindo que mulher alguma valeria essa comédia toda – mesmo que fosse divina?
Mirisola – Se for para correr atrás de mulher, melhor é ir direto pro inferno. Sou mais Eurídice que Beatriz.

Evandro – E a plenitude? Mortinha da Silva?
Mirisola – A plenitude é a cenoura amarrada na frente do cavalo.

Evandro – Viver é irmos deixando, sorrateiros, nossos próprios-infindáveis-incômodos eus pelos caminhos?
Mirisola – Nem tão sorrateiros assim, Evandrinho, uma barulheira danada a cada eu perdido pelo caminho. Como se a vida fosse cheia de som e de fúria e um idiota equivocado achando que perdeu grande coisa.

Evandro – E se de repente, não mais que de repente, explodissem todos os celulares, todos os computadores do mundo? Desacostumados, correríamos o risco de sentirmos nojo do cheiro um do outro?
Mirisola – E precisa explosão pra isso?

Evandro – Noutros tempos… noutros tempos… Este é o refrão da cantiga de ninar da velhice?
Mirisola – A mais agridoce canção.

Evandro – E ela, a velhice, são as nossas colunas de Hércules? Nosso Non plus ultra?
Mirisola – “Quando Hércules se dedicou a tricotar (um manto para sua fama) cortou o fio de sua própria fama, entristecendo os bravos e instruindo os sábios” – Baltasar Gracián

Evandro – A vaidade do escritor transcende a própria ficção do escritor? Ou… como diria Henri Michaux: Nem todas as nuvens são mais altas do que nós próprios. Hem?
Mirisola – Se a ficção for boa, sim.

Evandro – De repente, num gesto estoico, não seria razoável concluirmos que, afinal, é tudo questão de mais uns dias?
Mirisola – Poucos dias, meu caro, pouquíssimos dias.

Fragmento

Observadores desaforados garantem que nossa ontológica personagem, na maioria das vezes, se excede na absurdez, no desatino, para magnetizar incautos e irrefletidos leitores.

Jactâncias

Livros de minha autoria

1996Bombons Recheados de Cicuta (Paulicéia)
2000Grogotó! (Topbooks)
2002Araã! (Hedra)
2004Erefuê (Editora 34)
2005Zaratempô! (Editora 34)
2006Catrâmbias! (Editora 34)
2010Minha Mãe se Matou sem Dizer Adeus (Record)
2012O Mendigo que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Rotterdam (Record)
2014Os Piores Dias de Minha Vida Foram Todos (Record)
2016Não Tive Nenhum Prazer em Conhecê-los (Record)
2017Nunca Houve tanto Fim como Agora (Record)
2018Epigramas Recheados de Cicuta – com Juliano Garcia Pessanha ((Sesi Editora)
2019Moça Quase-viva Enrodilhada numa Amoreira Quase-morta (Editora Nós)
2019 – (Plaquetes) – Levaram Tudo dele, Inclusive Alguns Pressentimentos, Certos Seres Chuvosos não Facilitam a Própria Estiagem e Anatomia do Inimaginável.
2020Ontologias Mínimas (Editora Faria e Silva)
2021Rei Revés (Record)

Foto principal

As fotos que abrem este blog pertencem ao meu futuro livro, Ruínas. Passei um ano fotografando paredes carcomidas pelos becos, veredas, ruas do centro, e de alguns bairros paulistanos.

As imagens apresentam uma concretude pobre e miserável, de ruína mesmo, que na sua própria deterioração encontra rasgos inesperados de um refinado expressionismo abstrato – força das paredes arruinadas e das tintas expressivas do tempo. (Alcir Pécora)

Capa: Marcelo Girard

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