Nós que amávamos tanto nosso futebol

FREDERICO MORIARTY – Foi o ano do Cruzado. A cerveja custava CZ$ 6,80 – como estampava o grafite/pixo na esquina da PUC -, algo como R$ 1,50 hoje em dia. Tempos do “fiscal do Sarney”, da inflação zero, salários em alta e popularidade estratosférica do rei do Maranhão. Tempos em que o Campeonato Paulista (e o Carioca) era o que importava. Além deles tinha o Gaúcho, o Mineiro, o Baiano e o Pernambucano (e os menores centros como o Paranaense,  Alagoano, Paraense, Goiano…) O torcedor de futebol ficava 9, 10 às vezes os 12 meses do ano assistindo as disputas regionais. Época em que os gloriosos Fast Clube e Nacional de Manaus decidiram o torneio Amazonino depois de 9 turnos e 25 confrontos diretos! E o Brasileirão? Era diversão secundária (em 1979, vários times de São Paulo desistiram da disputa em virtude do Paulistão daquele ano, que por sinal foi tão disputado que a final vencida pelo Corinthians só aconteceu em fins de janeiro de 1980. O Corinthians virou o time da “fiel” porque passou 23 anos (de 1955 a 1976) sem levantar a taça e mesmo assim a torcida crescia e cada vez mais lotava os estádios. Nada se falava dos 31 anos até a primeira das 7 conquistas nacionais do Timão.

Libertadores, sonho de consumo atual, era desprezada. Os brasileiros ganharam 5 vezes e foram vice-campeões 4 vezes entre os anos 1960 e 1991. Nos 28 anos seguintes foram 13 títulos e 7 vices. Na edição deste ano temos 2 times na semifinal.  Os números podem crescer. A importância da Libertadores é tanta, que dos 13 brasileiros campeões continentais,  somente o Flamengo em 2019 conquistou também o Campeonato Brasileiro.

Voltando a 1986. Ian Curtis se suicidara há 6 anos, levando a Joy Division consigo. Eu namorava uma garota do último ano de psicologia e torcedora do São Paulo. Um dia ela me pediu pra levar a um jogo de futebol. Queria ver de perto a “ psicologia das massas”.

– Tá bom. Dia 27 de agosto tem o maior espetáculo da terra no Morumbi: Palmeiras e Corinthians.  Quer ir?

– Perigoso?

– Normal. A gente vai de numerada então…

Os estádios de futebol antigos – Não essas babaquices gourmet que remetem aos Circos Romanos,  ditas Arenas -,  normalmente dividiam-se em 4 alas: 15% de ingressos popularíssimos para a Geral, os pobres ( seria algo em torno de R$5 hoje); 15% de ingressos para a classe média, todos numerados (R$ 40); 1% para as cativas dos ricos e dos dirigentes, nos melhores pontos do estádio e quase 70% dos tíquete na popular arquibancada ( ingressos atuais a R$ 20). Os “ geraldinos” foram imortalizados em várias crônicas.  Povo suado, pobre, fanático e que torcia por paixão pura e desenfreada. Nos títulos tinham a glória de serem os primeiros a invadir o gramado. Assistiam a partida em pé,  pois os assentos eram em verdade degraus de uma escada baixa. Retrato das desigualdades brasileiras. Na “ bancada” ficavam os torcedores “ celetistas” e as torcidas organizadas ( poucas e pequenas na época). Dava pra assistir o jogo sentado, mas num aperto desgraçado. Já estive em jogo no Morumbi com mais de 100 mil pessoas só na “ bancada”. O limite para essa área hoje é 56.000 pessoas sentadas, com locais numerados. As antigas numeradas eram pra classe média alta. Eram cadeiras de madeira dura, com o número pintado, entradas no estádio mais separadas do povão e sem horário antecipado. Na “bancada”, quanto mais cedo chegasse, melhor o lugar. Em clássicos, a gente precisava chegar 4h antes. Por último vinham as cativas. Os ricos. Isolados, com cadeiras confortáveis, às vezes protegidas por vidros para impedir os indesejáveis copos de urina e merda que eram atirados com gosto pelas “bancadas”. As numeradas não escapavam da revolta escatológica também.  Era um delírio de classes.

Os geraldinos no Maracanã antigo

Palmeiras e Corinthians fariam o segundo jogo da semifinal do Paulistão de 1986. No primeiro clássico da maior rivalidade futebolística do Brasil, o time da Fiel ganhara por 1 a 0 ( com alguns erros de arbitragem,  como sempre). Para o Corinthians bastava um empate para aumentar a fila do Palmeiras em 10 anos sem título. Nos anos de seca, o time verde teve três temporadas boas, 1979 com Telê Santana goleando todos mas perdendo numa manobra ardilosa de Vicente Matheus; 1984 com a invencibilidade e vitórias até 6 jogos da final, quando a denúncia de dopping do craque Mário Sérgio  tirou 6 pontos do time, a estabilidade emocional e o título e 1986 com um time com craques como Eder e bons jogadores como Jorginho, Mirandinha, Edmar, Gerson Caçapa e Wagner Bacharel. O Corinthians vinha de 5 títulos em 9 anos, com os craques Casagrande e Carlos, os bons Wilson Mano, Biro Biro e Cristóvão, era o grande favorito.

O velho tempero do futebol

Por conta da numerada,  chegamos meia hora antes num Morumbi com quase 100 mil pagantes. Sentamos nos lugares indicados e como ficava na altura da grande área dava para vermos a divisão entre as duas torcidas, ainda sem grades. Metade da arquibancada à nossa frente era preta e branca, a outra metade verde e branca. Havia centenas de bandeiras coloridas com mastros gigantescos, afinal era permitido cantar na época. A namorada se encantava com a profusão de cores e a imensidão de imagens. Faltando 10 minutos para começar a partida veio a tragédia. 

– Preciso ir ao banheiro…

– Mas eu avisei que não dava pra ir aqui. Se preparasse antes…

– Eu sei, mas não aguentei…

Quando ela voltou brava, com cara de que não conseguira ir ao sanitário  tal a imundície, um negão de 2m e 120kg de massa muscular, devidamente trajado com as cores Corinthianas estava sentado lugar dela. Levantei pra conversar quando os times entraram no gramado. Nesse ano era permitido a utilização de fumaça colorida. Os torcedores jogavam uma pó branco e preto de um lado e branco e verde do outro lado. Pareciam duas imensas cachoeiras bicolores descendo pelo estádio, cobrindo rostos e vidas,  durava pouco, mas era maravilhoso.

A fumaça proibida

A partida quase começando e ela vira pra mim:

– Não vai pedir pro cara sair do meu lugar?

– Não. Pode sentar na minha mesmo.

– Mas que absurdo. Deixa eu falo…

– Não. Não. Por favor. São as regras do futebol não ditas.

– Qual regra?

– Nunca deixe seu “ lugar guardado”. O assentol é de quem ocupa.

– É errado!

– No futebol não.

Partida começa. Sento no cimento ao lado do corintiano, a namorada na cadeira numerada do outro lado dele. O trio de ferro: uma saopaulina, um corintiano, um palmeirense. Jogo equilibrado, poucas chances. Zero no placar. No segundo tempo o Palmeiras apertou mais, tentou várias vezes, mas parava nas mãos do goleiro Carlos.  O corintiano ao lado cantava a Vitória,  mas faltando 3 minutos para acabar o jogo, Jorginho lança a bola na área, a defesa corintiana falha e Mirandinha faz 1 a 0. Pulei, urrei, gritei e o corintiano só olhando, puto da vida. Futebol é assim, um instante, 1 minuto, 3 minutos podem alterar a rotação da terra. Acabou o jogo. Agora vem a prorrogação.

– Como fica, perguntou a moça.

– Se empatar agora vai para os pênaltis. Se alguém ganhar tá classificado.

O Palmeiras empolgado e agora com uma torcida nova, a Mancha Verde,  que decidiu usar a alcunha de Porco,  dada pelos corintianos 7 anos antes. Então estádio começou a gritar Porco sem parar e os 11 porquinhos entenderam o recado. Aos 9 minutos da prorrogação Mirandinha faz 2 a 0 e depois pra selar a Vitória, o ponta esquerda Eder bate um canhão de escanteio aos 28 minutos e…gol olímpico. Eu pulava feito louco, a namorada veio me beijar alegre, o corintiano foi embora triste, nem deu tchau,  antes mesmo do apito final do José de Aragão, folclórico juiz paulista. Saímos felizes, pulando e cantando e eu só pensava no meu querido pai, palmeirense fanático, filho de italianos, eufórico no dia do seu próprio aniversário. E gritei pros céus do Morumbi “ Pai,  toma seu presente: Palmeiras 3 a 0 Corinthians !”.

Na frente do estádio havia os velhos ônibus da CMTC que levavam os torcedores gratuitamente até a Sé.  Entramos num vazio. Sentamos. A namorada adorou a experiência; eu a vitória.  Aos poucos o ônibus encheu de palmeirenses alegres e cantando o hino do time. Súbito passaram uns dez corintianos. Provocações mútuas. Chuva de cusparada .  E palavrões  muitos palavrões.  Um dicionário de chulices. De repente a versão palmeirense dá um “ presta atenção “ . Era um negão de 2m, 120 kg de massa e a camisa do Palmeiras…

– Gente, vamos respeitar,  tem uma dama no recinto.

E olhou em nossa direção. Ela sorriu e falou:

– Pode xingar. Viva o Palmeiras. 

O ônibus partiu com vaitomarnocu, putaqueopariu, chupadorderola e et coetera a quatro. No futebol higienizado atual, onde pobre não entra mais em jogos por conta dos preços extorsivos e do ideal higienizador das federações,  um palavrãozinho qualquer, assim um vaitomarnocu pode te banir do estádio. O jogo que era das multidões, que era de todas as classes, que expunha as diferenças virou algo de brancos, limpos, endinheirados, bem sucedidos. Quase como um hospital da elite misturado com um templo de luxo evangélico. Não é à toa que proliferam essa balbúrdia de “ jogadores de Deus” em homens do demônio. Nos tempos antigos futebol era apenas um jogo da vida. Hoje virou um espetáculo de entretenimento caro, com uma classe social apenas. Vide 2014 com o Itaquerão mandando a presidente tomar no cu por 90 minutos ( Ué, mas não pode palavrão ). Vide o atual governante que é identificado com a única classe dos estádios, sendo aplaudido por muitos nas “ arenas”, recebendo as honras dos times grandes com direito a “ arminha” e olhares aos céus agradecendo ao Deus deles.

O esquecido time de 1986

Dez dias depois, o Palmeiras conseguiu a proeza de perder o título na final para a Internacional de Limeira. Era a primeira vez que um time caipira do interior paulista ganhava o Campeonato em quase 90 anos. O Palmeiras teve de esperar mais 7 anos para ser campeão, totalizando 17 de fila. Foi num dia dos namorados em 1993. Novamente um 3 a 0 no Corinthians. A namorada não era mais a psicóloga, era apenas uma moça que acreditava que futebol era com as mãos.  O Paulistão foi perdendo importância, o futebol foi perdendo importância na minha vida, o futebol foi perdendo sua essência. Logo será substituído pelo futebol em games mesmo. O distanciamento do jogo com a realidade é tal que temos jogos pelo mundo todo sem torcida ( por conta da pandemia). Afinal se uma igreja não sabe quem mais é Deus  e seus fiéis não mais a frequentam, porque dela existir?

Futebol??

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