O vento frio apanhou-me estrangeiro

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José Carlos Fineis

O vento frio apanhou-me estrangeiro
As ruas esvaíram-se mais cedo
E eu, que julgara-me seguro,
estremeci como uma chama, tênue,
oferecida ao vento

O vento frio fez-me perceber
que a hera do tempo-quimera
estivera roendo a pedra, e que agora,
como antes,
pedra não haveria;
apenas pó

Fez-me ver a indiferença dos olhares,
dos lugares, das pessoas
E enrijeceu minhas fibras
com sua simples presença

Ele estará presente
Será como um fantasma,
sentado à mesma mesa,
a cada instante,
amarelando cada traço de sorriso

Eu sei, estará presente
nas brincadeiras do tempo-relógios
badalando loucamente
como os sinos
das vilas
da minha infância

E me tornará amargo, ausente
Um belo macaco nu
que pensa (que pensa)
e sente (que sente) as rotações da Terra,
como sente, de resto,
o resto

Não o contesto
Presto-me exatamente ao seu intento
E num delírio árido me prostro
E presto – presto —
o meu tributo ao vento

E me diluo no vento

Agora
e no próximo momento

Arte: Noite em Saint-Cloud, de Edvard Munch (1863-1944), lápis de cera e pastel sobre tela, 1892

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