A música da alma

LÚCIA HELENA DE CAMARGO (Blog Todas as Telas) –

Depois de meses, volto a escrever aqui neste blog Todas as Telas. A vida ficou meio desorganizada com a pandemia de covid-19. Mas embora o vírus ainda esteja por aí (em alguns lugares mais forte do que nunca), a vida segue. Com distanciamento e todos os cuidados. Seguimos.

Antes de acabar o ano, a dica é a animação “Soul”, lançada em 25 de dezembro,  paralelamente em salas de cinema e streaming (serviço Disney Plus). Produzida pela Pixar/Disney, a boa inspiração começa pelo título, que em inglês significa tanto “alma”  quanto o ritmo musical que contêm elementos do rhythm and blues, jazz e gospel, a interessante miscelânea nascida nos anos de 1950 na comunidade afro-americana.

O protagonista é Joe Gardner, professor de música apaixonado por jazz que alimenta o sonho de se tornar um músico conhecido. Ele segue pela vida tentando se alçar, como fazem todos que perseguem um objetivo. Se ele dá os passos certos ou não, caberá ao espectador analisar. Quando ele consegue a chance de tocar em um dos melhores clubes de jazz de Nova York, cai num buraco de rua.

Negro, alto, meio fora de forma e com as contas no vermelho, ele traduz a perfeita antítese dos loiros e perfeitinhos príncipes Disney. Ponto para a Pixar, que tem conseguido manter certa liberdade criativa, mesmo trabalhando sob o guarda-chuva orçamentário da companhia de Walt Disney.

A estética lembra em muitos pontos aquela usada em “Divertidamente”, estrondoso sucesso da produtora de 2015. Mas o autoplágio não empobrece a história. Pelo contrário. A referência talvez invoque no público reflexões sobre os universos dos dois filmes que, no fim do dia, talvez sejam apenas um. Ou seja, céu, inferno, purgatório e outras fases intermediárias que porventura estejam no meio, tudo, afinal, pode ter sido criado pelo cérebro humano. Então, o que faz a diferença é como processamos nossa relação com o universo e os demais habitantes dele.

O professor de música é dublado pelo ator Jamie Foxx, na versão original em inglês. Já quem faz a voz da sua colega de jornada (chamada apenas de “22” – você saberá porque ao assistir ao filme) é a humorista Tina Fey.

Camadas

“Soul” é aquele tipo de filme em camadas, que podem ser entendidas de maneiras diversas por crianças e adultos. Ao falar sobre vida e morte, motivações e propósitos de uma existência humana, vai pavimentando o argumento de maneira que você começa rindo do jeito desengonçado de Gardner e torcendo para que ele consiga fugir do burocrata que o persegue, mas ali pela metade da animação já está, quase sem querer, pensando em questões bem mais profundas, como maneiras de dar mais sentido ao seu cotidiano, se tem coisas demais, se percebe realmente quanta sorte teve por nascer em uma família amorosa etc. Os caras sabem construir uma história. Porque não bastaria ter imagens perfeitas (e elas são) sem um roteiro consistente.  

A direção é de Pete Docter (o mesmo de “Divertidamente”), que chegou a declarar, em uma entrevista de lançamento do filme, que a concepção do projeto de “Soul” começou há 23 anos, quando nasceu seu filho e ele teve a certeza de que a personalidade de uma pessoa – ou sua alma – é construída muito antes do  nascimento. Será? De maneira divertida, a animação explora essa possibilidade.

E, finalmente, há a música! Quem aprecia jazz, blues e afins, vai se deleitar. A trilha sonora traz 42 canções originais, com composições do pianista Jon Batiste, além da parte instrumental com arranjos de Oscar Trent Reznor e Atticus Ross, premiados em 2011 com o Oscar na categoria Melhor Trilha Sonora pelo filme “A Rede Social”.

“Soul” é filme para assistir e, ao final, dar aquele suspiro: OK, podemos terminar 2020 vislumbrando alguma beleza na alma humana, apesar da covid e de todas as mazelas que a pandemia revelou. Ou começar 2021 com esperança de que podemos buscar uma vida mais satisfatória e autêntica. Nada de lição de moral, apelos religiosos ou a velha história de “a felicidade sempre esteve aqui e eu não via”. Não. Basta deixar para trás alguns preconceitos e abrir os sentidos à percepção do mundo.

Lúcia é jornalista.

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