Hoje, entrevista com Luiz Fernando Emediato

Aconteceu numa sexta-feira qualquer…

Evandro Affonso Ferreira

Hoje me deu vontade de ler, outra vez, texto meu que foi publicado numa plaquete do selo Demônio Negro…

Pílula do dia

Reflexões insólitas

Sete Noites, por Jorge Luis Borges

Nasceu em Buenos Aires, 1893. Formação literária europeia. Sua produção estende-se por variadas obras de poesia, ficção e ensaio, das quais podemos destacar Fervor de Buenos Aires, História Universal da infâmia, Elogio da Sombra, Aleph e O fazedor. Neste livro Sete noites (conferências), Borges fala das Mil e uma noites, da Divina Comédia, da cegueira, da Cabala do Budismo…

Borges falando de Borges:

Eu tenho de me esquecer de minhas circunstâncias. Não me lembro de minhas datas. Em compensação, recordo os versos que li. Minhas memórias mais vivas não são de coisas acontecidas, mas de textos lidos. É uma memória singular, uma espécie de antologia. Além disso, tendo a esquecer os males. Já Bergson dizia que a memória é seletiva, a memória escolhe, e, no meu caso, escolhe a felicidade. Ou a inventa, se não aconteceu.

Entrevista: Luiz Fernando Emediato

Escritor minero, jornalista, editor. Criou a Geração Editorial. Ganhou vários prêmios, entre eles Prêmio Esso e Prêmio de Jornalismo Rei de Espanha. Foi presidente do Conselho deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador. Publicou vários livros. Exemplo: A grande ilusão, Eu vi mamãe nascer, Geração abandonada, Verdes anos e o Outro lado do Paraíso.


O escritor e a democracia


Evandro Affonso Ferreira – Morrer é vislumbrar as profundezas dos fogos-fátuos?
Luiz Fernando Emediato – Quando morri, por cinco dias, numa UTI, há seis anos, eu vi imóvel o nada e nada mais. Um mês depois minha mãe pediu para morrer e cinco horas antes de pedir jogou fora a fé, agradeceu pela vida que tivera, perdeu a consciência e calmamente foi-se. Desde então perdi o medo dos finais imprevisíveis e passei a viver verdadeiramente.

Evandro – E a solidão? É aquele invisível, ali no canto, carente de apalpamentos?
Emediato – É o momento em que todas as coisas se calam e sozinho comigo mesmo eu me vejo dentro de mim e sonho.

Evandro – É possível farejar as voluptuosidades do eventual, as luxúrias do acaso?
Emediato – Sim, e em seguida vislumbrar o portal das possibilidades, o umbral dos desejos e o esconderijo mais secreto dos prazeres recônditos.

Evandro – Viver? Você está preparado para esta emboscada?
Emediato – Nunca. Todo dia é um renascer para enfrentar as armadilhas que a vida nos prepara, em cada esquina pela qual passa o que os crédulos chamam de alma.

Evandro – É possível rastrear lampejos?
Emediato – Sim, mas só se eles resplandecem nos recônditos das lembranças e dos oblívios.

Evandro – E quando o afago se descamba para a obliquidade? Como consertar as empenas do telhado do fraterno?
Emediato – Só com as ferramentas da retidão, as réguas e os esquadros do afeto e os olhos da fraternidade.

Evandro – Costumo dizer que sou muito afetivo, pegajoso, motivo pelo qual gostaria que Deus fosse palpável. Afinal, procurar Deus é querer apalpar plenitudes?
Emediato – Sendo qualquer deus uma impossibilidade, resta-nos apalpar o Cosmos, que sempre foi, é e será, assim como nós, que nele estamos, nele sempre estaremos, posto que, como ele, somos imortais.

Evandro – É aconselhável, vez em quando, se refugiar, resignante, nos estupefatos?
Emediato – Sim, mas sem resignação, posto que a estupefação e a perplexidade fazem parte, naturalmente, do paradoxo que é morrer na vida e viver na morte.

Evandro – Sensação de que sua vida, vez em quando, se parece com uma parábola ininteligível, cheia de não-vereis-não-entendereis?
Emediato – Nunca. Não entender o ininteligível significa paradoxalmente entender o imensurável.

Evandro – E quando você pretende empreender tarefa de confeccionar caminhos, mas seus passos não se adaptam às probabilidades peregrinas?
Emediato – Basta calçar os sapatos mágicos das travessias peregrinas e seguir em frente abrindo as veredas e os portões das possibilidades.

Evandro – E esse solene cortejo de incompreensíveis e todos os seus inumeráveis-ininteligíveis apetrechos?
Emediato – Faz parte de nossa humilde e inútil caminhada do fim para o nada do nada para o fim, labirinto que começa no imponderável e termina fechando o círculo das esperanças naturalmente intangíveis.

Evandro – É aflitivo para você, olhar, mesmo de soslaio, as insinuações do improvável?
Emediato – Jamais. Diante do incompreensível, resta-nos nos maravilharmos com os sonhos inatingíveis, as buscas improváveis e os desejos incontidos, até a exaustão das possibilidades do mágico e do onírico.

Fragmentos

Dizem que guarda no porão baú atafulhado de metáforas para consumo próprio. Outros, mais perspicazes, garantem que nossa ontológica personagem recolhe, dentro desse mesmo receptáculo, pastilhas em doses duplas de implícitos.

Jactâncias

Livros de minha autoria

1996Bombons Recheados de Cicuta (Paulicéia)
2000Grogotó! (Topbooks)
2002Araã! (Hedra)
2004Erefuê (Editora 34)
2005Zaratempô! (Editora 34)
2006Catrâmbias! (Editora 34)
2010Minha Mãe se Matou sem Dizer Adeus (Record)
2012O Mendigo que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Rotterdam (Record)
2014Os Piores Dias de Minha Vida Foram Todos (Record)
2016Não Tive Nenhum Prazer em Conhecê-los (Record)
2017Nunca Houve tanto Fim como Agora (Record)
2018Epigramas Recheados de Cicuta – com Juliano Garcia Pessanha ((Sesi Editora)
2019Moça Quase-viva Enrodilhada numa Amoreira Quase-morta (Editora Nós)
2019 – (Plaquetes) – Levaram Tudo dele, Inclusive Alguns Pressentimentos, Certos Seres Chuvosos não Facilitam a Própria Estiagem e Anatomia do Inimaginável.
2020Ontologias Mínimas (Editora Faria e Silva)
2021Rei Revés (Record)

Foto principal

As fotos que abrem este blog pertencem ao meu futuro livro, Ruínas. Passei um ano fotografando paredes carcomidas pelos becos, veredas, ruas do centro, e de alguns bairros paulistanos.

As imagens apresentam uma concretude pobre e miserável, de ruína mesmo, que na sua própria deterioração encontra rasgos inesperados de um refinado expressionismo abstrato – força das paredes arruinadas e das tintas expressivas do tempo. (Alcir Pécora)

Capa: Marcelo Girard

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