Revisitando a Sagrada Família

GERALDO BONADIO – O acervo do Mosteiro de São Bento de Sorocaba inclui, entre outras obras de arte, uma tela, de autor desconhecido, proveniente do Mosteiro de São Bento de São Paulo, que mostra a fuga da Sagrada Família para o Egito. Ao fundo e ao alto, temos soldados montados e a pé, enviados por Herodes ao encalço do Menino. Em primeiro plano, vê-se Maria, montada sobre um burro, levando Jesus ao colo, envolto em panos. À esquerda, José caminha, orientando a marcha do animal.

O relato do Evangelho de Lucas não menciona o muar, mas sua inserção na tela é absolutamente plausível. Era assim que pequenos grupos de pessoas viajavam naquela época. Já o modo como as figuras humanas foram retratadas comporta discussões.Maria é mostrada com traços de uma mulher com mais de vinte anos. Jesus ostenta cabeleira aloirada. José aparece como um homem de meia idade e calva acentuada. A tela segue a representação convencional da cena, na qual os personagens passaram por longas e profundas filtragens culturais.

Comecemos pelo Menino Jesus. As pesquisas arqueológicas e antropológicas sugerem que, a exemplo da maioria dos habitantes da Palestina, tinha cabelos pretos e, na idade adulta, pele queimada do sol. O Jesus louro, claro e de olhos azuis, “nasceu” das releituras pictóricas ocorridas, de modo preponderante, na Renascença.

O casamento entre os judeus, na época, se alicerçava, basicamente, num contrato negociado entre as famílias, que procurava dar ao marido um patrimônio que, numa sociedade agropastoril e patriarcal, lhe permitisse sustentar adequadamente a esposa e a prole, habitualmente numerosa. O matrimônio não era monogâmico. O homem, figura dominante, podia ter mais de uma esposa e, também, concubinas.Maria era muito mais jovem do que a tela sugere. Naquele tempo, os casamentos ocorriam entre pessoas muito jovens. A idade mínima, fixada pelos rabinos, era de 12 anos para as meninas e 13 para os meninos. Ao acerto entre as famílias seguia-se um ano de noivado, que precedia a coabitação. Essa praxe colocou Maria, entre a Anunciação e a formalização do matrimônio numa condição ainda hoje muito difícil e, naquele tempo, inaceitável: a de noiva grávida.

A Virgem, logo após a Anunciação, viajou para Nazaré, em visita a Isabel, prima idosa, tida como estéril, que engravidara na velhice. A esse deslocamento voluntário logo se somaram dois outros, um compulsório, a ida a Belém, para recensear-se e, poucos dias após o parto, a fuga para salvar a vida da criança. A resistência a esses esforços sucessivos se ajusta melhor ao perfil de dois jovens que a um casal em que o marido é um quase ancião.

O personagem mais maltratada da Sagrada Família, em toda a literatura de apoio aos estudos bíblicos, produzidos por teólogos católicos ou de fé reformada, é José. Dicionários, guias e enciclopédias, em português e inglês, mesmo os mais recentes, não lhe concedem um verbete, exceção feita ao Oxford Companion, fazendo dele uma figura menor, posição que os Evangelhos não respaldam. Neles se lê que, em quatro oportunidades, Deus falou em sonhos ao carpinteiro, traçando diretivas que ele sempre seguiu à risca.

Parte das tradições fazem-no viúvo. A maioria das pinturas e imagens o retrata como idoso, na tentativa pífia de resolver, no terreno do catolicismo, pela via da senectude, a questão dos “irmãos de Jesus”, expressão que os cristãos reformados, como regra, entendem literalmente.

Tais leituras colidem com o pensamento de um teólogo cada vez mais valorizado pelos cristãos: Agostinho de Hipona, para os reformados; Santo Agostinho, para os católicos e, para ambos, um dos Pais da Igreja. Em seus escritos, muito anteriores aos cismas que fracionariam a Igreja, ele enfrentou, sem hesitar, uma das questões mais espinhosas da Encarnação: a condição única de Maria, virgem e mãe. No denso verbete a ela dedicado, no substancioso “Agostinho de A a Z”, do reverendo Franklin Ferreira, Mestre em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul (Editora Vida : 2006) ele opõe um taxativo não às afirmações de que Maria teve ainda outros filhos, enfatizando: “irmãos do Senhor eram os parentes de Maria”.

Só um José tão jovem quanto a Virgem poderia tê-la acompanhado e protegido nas penosas viagens a Nazaré e Belém, logo seguidas pela fuga para o Egito. O papel que Deus reservou ao jovem casal, em seu plano para o Mundo, impôs, ao carpinteiro de Nazaré – que, como observou, com muita sensibilidade, o autor da canção “José”, gravada por Rita Lee, “neste mundo só queria ser feliz com a sua Maria” – um sofrido ajustamento à vontade do Eterno, alicerçado, simultaneamente, na fé e no amor, coisas que, seguramente, não se compaginam com a subalternidade do papel se tenta atribuir a ele.

Foto de Tiago Macambira para o livro ‘Mosteiro De São Bento De Sorocaba, Catálogo do Acervo’, da pesquisadora Nancy Kaplan.

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