Ciência, vacinas e filtros ideológicos

GERALDO BONADIO – A vacinação contra o coronavírus ainda não começou, mas acha-se, em pleno andamento a guerra das vacinas em que, a mídia vai inculcando, em parte da população, a falsa ideia de que somente os imunizantes desenvolvidos por laboratórios norte-americanos ou europeus merecem confiança.

Isso não é verdade e eu não me surpreenderia se, no frigir dos ovos, vacinas muito eficazes e isentas de efeitos colaterais vierem a ser produzidos por países não abrigados sob o falacioso guarda-chuva midiático e ideológico dos Estados Unidos, como é o caso da Rússia ou mesmo de Cuba.

É bom lembrar que, por conta de uma epidemia muito séria – a da febre amarela que teve dois picos, um em 1897 e outro, muito mais duro, em 1899 /1900 – Sorocaba tem uma imensa dívida com a ciência cubana.

Foi graças às pesquisas do médico Juan Carlos Finlay – ali nascido – e às metodologias de combate a proliferação do mosquito da febre amarela por ele desenvolvidas que o epidemiologista Emílio Ribas, secretário da Saúde de São Paulo no primeiro governo republicano de Rodrigues Alves, fez de nossa cidade, em 1901, a primeira, em todo mundo a erradicar a sinistra doença.

Movido pelo amor à ciência, Finlay nunca sonegou informações sobre suas pesquisas. Décadas antes da virada do século, levou a uma conferência mundial de saúde, realizada nos Estados Unidos, e ali tornou público, os dados sobre seus estudos e experimentos. Caso houvesse sido levado a sério – o que não ocorreu – milhares de vidas, em todo o mundo, inclusive o Brasil, teriam sido poupadas.

Os méritos de Finlay ainda hoje, não são reconhecidos pelos norte-americanos que estiveram entre os primeiros a se beneficiarem de suas pesquisas e experimentos. Nos dicionários de ciência de grande circulação – Wiley, Penguin – o leitor buscará em vão qualquer referência ao cubano. No Cambridge, no extenso verbete dedicado ao cientista americano Walter Reed, se menciona em duas ou três linhas que o trabalho do cientista cubano foi revisado pelo norte-americano, que constatou sua exatidão.

Preconceito semelhante atinge hoje as vacinas contra o covid 19 geradas a partir da tecnologia chinesa, ocultando-se que boa parte de tudo que produzimos em matéria de vacinas eficientes e confiáveis, incorpora elementos produzidos naquele país.

A exemplo do que ocorre no Brasil, a ciência, na China, na Rússia e em Cuba, tem história. E, ao contrário do que acontece conosco, desde que deixamos de ser uma República para nos transformarmos num playground da família Bolsonaro, aqueles países – e, no caso cubano, apesar da terrível situação de suas contas públicas, em consequência do boicote americano – continuam a apoiar e investir em ciência e tecnologia.

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