É preciso redescobrir e atualizar a obra de Vital Brazil

GERALDO BONADIO – Nascido em 1865, Vital Brazil ainda era vivo quando as lideranças sorocabanas iniciaram a movimentação para criar, em nossa cidade, a primeira escola médica do país situada fora de uma capital de Estado. Faleceu quando, vencidas barreiras de todo tipo – inclusive a ciumeira dos lutavam que tal primazia coubesse a Campinas – a Faculdade divulgava o edital de seu primeiro vestibular. No bem documentado volume em que historiou os primeiros 50 anos Faculdade, Hely Felisberto Carneiro não entra em detalhes, mas é bem provável que o recente desaparecimento daquele gigante de Medicina e da tecnologia médica tenha levado os estudantes, quando em 1952 organizaram seu Centro Acadêmico, a elegê-lo como patrono da nova entidade.

Neste momento, quando o país e o mundo enfrentam a maior pandemia da História da humanidade, é oportuno reexaminar a trajetória de Vital Brazil, até porque, no Instituto que leva o seu nome, situado no município fluminense de Cachoeiras de Macacu, um grupo de cientistas brasileiros conduzem pesquisas que devem criar o primeiro – e até agora único – medicamento capaz de curar as vítimas do Covid 19.

Quando o futuro cientista nasceu, em 1865, seu pai, Manuel dos Santos Pereira Junior decidiu, ao registrá-lo, reverenciar o santo do dia – são Vital -, prática muito comum àquela época. Incomum foi a decisão de, em vez atribuir-lhe o próprio sobrenome, substituí-lo por três topônimos identificadores do país, estado e cidade em que viera à luz, registrando como Vital Brazil Mineiro da Campanha.

A família era ilustre mas tinha pouco dinheiro. Vital enfrentou enormes dificuldades para manter-se como estudante na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, mas os perrengues financeiros não o impediram de, aos 26 anos, graduar-se, em 1901, como um dos mais brilhantes alunos da turma. Seis anos mais tarde, o governo de São Paulo recrutou-o para integrar a equipe do Instituto Bacteriológico, dirigido por Adolfo Lutz, no qual trabalhou, ao lado de Oswaldo Cruz e Emílio Ribas, no combate nas devastadoras doenças que assolavam o país: tifo, peste bubônica, varíola, febre amarela.

Além dessas mazelas, outra havia que preocupava seriamente Vital Brazil. As fronteiras agrícolas se expandiam e era grande o número de trabalhadores que, nas bocas de sertão, pereciam vítimas de picadas de cobras e outros animais peçonhentos, como aranhas e escorpiões.

O chefe do governo de São Paulo, Rodrigues Alves, partilhava dessa preocupação e entregou a Vital Brazil a Fazenda Butantan, situada às margens do rio Pinheiros, num ponto que ninguém sonhava que, algum dia, viesse a integrar o centro urbano. A fazenda era grande, os recursos escassos, mas o grupo liderado pelo jovem médico mesmo assim o converteu, rapidamente, num centro de pesquisa e produção de medicamentos. Quatro meses depois de ali instalar-se, iniciou a produção de um soro contra pestes e, em 1903, anunciou a criação do primeiro soro antiofídico eficiente do planeta, desenvolvido a partir de anticorpos produzidos no sangue de cavalos, depois da injeção de uma pequena quantidade de veneno da própria cobra. Na esteira, vieram os soros contra animais peçonhentos. Isso deu tal projeção ao laboratório e fábrica de medicamentos ali instalados que, em 1925, ele passou a chamar-se Instituto Butantan.

Naquele momento, porém, Vital Brazil não mais se achava à sua frente. Transferira-se para o interior fluminense e, em 1919, numa fazenda de Cachoeiras de Macacu, implantou o Instituto que, mais adiante, receberia o seu nome, atualmente uma autarquia ligada a Secretaria de Saúde daquele Estado.

É ali que, debaixo de um estranho silêncio da mídia, pesquisadores do Instituto Vital Brazil vêm desenvolvendo, em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a Universidade Federal Fluminense e uma organização particular, o Instituto D’Or, experimentos que poderão colocar o Brasil na vanguarda do tratamento do Covid 19, com a criação de um soro hiperimune para curar os infetados pelo vírus.

Seguindo os protocolos médicos tradicionais, cavalos pertencentes ao IVB começaram a ser imunizados, recebendo, na corrente sanguínea, pequenas doses do vírus para que criem anticorpos. Os cavalos não adoecem nem sofrem, a produção de anticorpos é espantosamente elevada e a previsão é que, em poucos meses, o medicamento já esteja disponível para testes clínicos, marco importante do percurso que permitirá, adiante, a realização de testes em humanos.

O maior obstáculo a ser vencido provavelmente será a atitude negacionista e anticientífica do governo federal, mas, considerados os antecedentes históricos, não há por que duvidar que os sucessores de Vital Brazil, na pesquisa e produção de soros, sairão vitoriosos.

Foto Instituto Vital Brazil

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