Hoje, entrevista com Valter Hugo Mãe

Aconteceu outra vez numa escola…

Evandro Affonso Ferreira

Hoje me deu vontade de ler um trecho de um texto meu que está numa plaquete, editada pelo selo Demônio Negro. O título é Cacimba

Pílula do dia

Perguntas insólitas

A obscena senhora D, de Hilda Hilst

Nasceu em Jaú (SP), 1930. Formada em Direito pela USP. Desde 1954 dedicou-se integralmente à criação literária. Um dos principais nomes da literatura brasileira. Foi traduzida para o Francês, o Alemão, o Italiano, o Espanhol, o Inglês. Escreveu dezenas de livros. Exemplo: Fluxo-floema, Qadós, Tu não te moves de ti, Rútilo, Estar sendo, ter sido. Escreveu para teatro. Recebeu o Prêmio Pen Clube de São Paulo, o APCA (Melhor livro do Ano) e o Prêmio Jabuti.

Trecho do livro:

Engolia o corpo de Deus a cada mês, não como quem engole ervilhas ou roscas ou sabres, engolia o corpo de Deus como quem sabe que engole o Mais, o Todo, o Incomensurável, por não acreditar na finitude me perdia no absoluto infinito
te deita. te abre, finge que não quer mas quer, me dá tua mão, te toca, vê? está toda molhada, então, Hillé, abre, me abraça, me agrada
Engolia o corpo de Deus, devo continuar engolia porque acreditava, mas nem por isso compreendia, olhava o porco-mundo e pensava: Aquele nada tem a ver com isso. Este aqui nada tem a ver com isso. Este, O Luminoso, O Vivido, O Nome, engolia fundo, salivosa lambendo e pedia: que eu possa compreender, só isso. Só isso, Senhora D?

Entrevista: Valter Hugo Mãe

Escritor angolano, radicado em Portugal. Licenciou-se em Direito e fez Pós-Graduação em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea. Ganhou vários prêmios, entre eles: Prêmio Almeida Garret, Grande Prêmio Portugal Telecom de Literatura e Prêmio Literário José Saramago. Escreveu vários livros – exemplo: O remorso de Baltazar Serapião, A máquina de fazer espanhóis e Homens imprudentemente poéticos.


O Poeta e a solução


Evandro Affonso Ferreira – E quando seus passos não se adaptam de jeito nenhum às probabilidades peregrinas?
Valter Hugo Mãe – Eu passo sempre meio voando. Sei que estou indo embora. Quando criança já tinha claro que seria tudo muito breve. Ainda que adorasse demorar em tantos instantes, sei que única garantia é ir acabando. O resto é uma tendência ligeira. Impõe alguma angústia. Mas, peregrinação real é uma intensidade emotiva. Isso eu garanto sem sequer dar um passo.

Evandro – Costumo dizer que sou muito afetivo, pegajoso, motivo pelo qual gostaria que Deus fosse palpável? Afinal, procurar Deus é querer apalpar plenitudes?
Valter – Escrevi um poema breve em que digo: “também eu tenho uma meta / física / chegar ao corpo de deus”.
Tocar-lhe. Claro que deve ser amplo e pleno. Gostaria tanto que ele existisse e nos esperasse e nos abençoasse e nos quisesse de modo a que entendêssemos até porque somos metidos nesta matéria torpe, precária e tangível.

Evandro – Procurar a verdade é querer estudar a anatomia do inimaginável, debulhar as cascas do incógnito?
Valter – Não. Não é mesmo.

Evandro – Agora, com o tempo, tenho conseguido polir os avanços com o verniz da parcimônia. E você? Já se afeiçoou aos recuos? É condescendente com os retrocederes?
Valter – Completamente. Eu próprio caminho para trás. Não vejo sempre vantagem em avançar. Voltar é o sentido mais profundo de todas as partidas. Mais saímos para ser esplendoroso voltar a casa.

Evandro – É possível rastrear lampejos?
Valter – Em noites do meu inverno, sim. Com toda a facilidade. Você precisa ver como ficam os temporais de Caxinas, com o vento do norte invariavelmente furioso e gelado, quando abrem os relâmpagos entre as chuvas, troando que chega a dar choro nos velhos do prédio. A gente rastreia até olho de gato pelas costas. A escuridão é bruta. Dobramos de sentidos como absurdos.

Desenho de Valter Hugo Mãe

Evandro – E quando você se sente refém das ciladas da afoiteza? Sim: quando percebe que está transgredindo os preceitos da precaução?
Valter – Não corro o risco. Sou até chato de tão cauteloso. A sorte é que adoro ficar nesse sossego onde nada parece acontecer, porque é quando eu invento tudo por minha conta. Todas minhas memoráveis omoletas não usaram ovos.

Evandro – Você já ensinou seu próprio olhar a refutar angústias e todos os seus apetrechos melancólicos?
Valter – Não. Aí, fui um imbecil. Eu afeiçoei. Nem sou triste. Mas sou na sombra quase sempre. Sabe que nem levanto o estore? Eu prefiro não dar muito conta do dia. Acendo dois candeeiros pequenos e vivo como se fosse uma hora de deitar contínua. Muito suave, sem clarão. Eu não suporto o clarão do dia. Estou mais e mais fotofóbico. Vivo a 80 metros da areia da praia e chego ali para levar o cachorro e olho maravilhado como quem só pode olhar um minuto. Depois, volto para meus candeeiros pequenos, a luz meio morena que me faz lembrar o resto de sol no deserto, quando chega ao mundo por baixo. O sol que não é da altura. É da terra.

Evandro – É possível se precaver contra as próprias contradições?
Valter – Não. Não adianta nada. Amanhã vou ser de outro modo e nem responderia igual às suas questões e não estaria a mentir. O paradigma humano em vigor é esse: a pessoa é legitimamente, inelutavelmente, contraditória.

Desenho de Valter Hugo Mãe

Evandro – Você já aprendeu a farejar com antecedência uma rua sem saída?
Valter – Creio que sim. Especialmente se não der para passar porque não suportamos o coração junto de quem nos abandonou. Sou um perito em entender onde sofreria tanto que não tenho como passar de jeito nenhum.

Evandro – E quando as mágoas se embrenham nas suas entranhas? Como se livrar dos urros do rancor?
Valter – Carlos Mena cantando “O magnum Mysterium”, de Tomás Luis de Victoria, cura tudo. Fico até com a capacidade de inventar Deus, se ele não existir. Pode ser que o sofrimento faça parte, mas o rancor não vale. Num mundo onde Mena canta, nem que apenas isto, só quem desistiu em absoluto não recupera a ternura e a gratidão.

Evandro – E as certezas? Vida toda ultrapassamos, se tanto, o pórtico do talvez?
Valter – Eu estou cheio de certezas que uso todos os dias. Podem não servir para mais ninguém, mas servem para mim na perfeição. Acontece muito de mudar uma certeza por outra. Sou infiel às certezas. Uma pouca vergonha, eu sei. Conheço pessoas muito mais decentes. E miseráveis.

Fragmentos

Colecionava, sem saber, o abstrato; praticava acrobacias utópicas com poção de éter que fugia ao controle da tampa do frasco; estudava, obstinado, a tessitura do vazio; esculpia transcendências. Morreu anônimo – desconfiam que foi o precursor do surrealismo.

Jactâncias

Livros de minha autoria

1996Bombons Recheados de Cicuta (Paulicéia)
2000Grogotó! (Topbooks)
2002Araã! (Hedra)
2004Erefuê (Editora 34)
2005Zaratempô! (Editora 34)
2006Catrâmbias! (Editora 34)
2010Minha Mãe se Matou sem Dizer Adeus (Record)
2012O Mendigo que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Rotterdam (Record)
2014Os Piores Dias de Minha Vida Foram Todos (Record)
2016Não Tive Nenhum Prazer em Conhecê-los (Record)
2017Nunca Houve tanto Fim como Agora (Record)
2018Epigramas Recheados de Cicuta – com Juliano Garcia Pessanha ((Sesi Editora)
2019Moça Quase-viva Enrodilhada numa Amoreira Quase-morta (Editora Nós)
2019 – (Plaquetes) – Levaram Tudo dele, Inclusive Alguns Pressentimentos, Certos Seres Chuvosos não Facilitam a Própria Estiagem e Anatomia do Inimaginável.
2020Ontologias Mínimas (Editora Faria e Silva)
2021Rei Revés (Record)

Foto principal

As fotos que abrem este blog pertencem ao meu futuro livro, Ruínas. Passei um ano fotografando paredes carcomidas pelos becos, veredas, ruas do centro, e de alguns bairros paulistanos.

As imagens apresentam uma concretude pobre e miserável, de ruína mesmo, que na sua própria deterioração encontra rasgos inesperados de um refinado expressionismo abstrato – força das paredes arruinadas e das tintas expressivas do tempo. (Alcir Pécora)

Capa: Marcelo Girard

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