Uma revolução cinematográfica: 2001, uma Odisseia no Espaço

FREDERICO MORIARTY

São duas tribos de homens pré-históricos. Na primeira cena, o grupo derrotado se retira da fonte hídrica e, cabisbaixos, escondem-se nas cavernas. Na aurora, eles encontram um assustador e perfeito monólito negro. Os hominídeos tocam o totem espacial. Um deles logo após o contato tem uma visão ao pisar em restos mortais de animais. Numa nova disputa pela água com a tribo vizinha, eles continuavam derrotados. O homem que recebera o ensinamento pelo contato com o monólito ergue um imenso osso de animal e começa a massacrar o atônito derrotado.

Em meio à música de Richard Strauss o osso massacra o homem ao chão. O novo vencedor comemora jogando o artefato de guerra para os céus. Este se transforma numa espaçonave. O início do filme 2001 Uma Odisseia no Espaço começa com a tese de Hobbes: “O homem é o lobo do homem”. A evolução tecnológica e científica da humanidade é decorrência da violência.

Mais do que o Leviatã, o obra utilizada no filme do compositor Strauss vem de ” Also sprach Zaratrusta”. Kubrick bebeu Strauss que por sua vez é Nietzsche puro. Em Assim Falava Zaratustra, o filósofo alemão coloca Zaratustra para tripudiar dos Velhos e Novos Testamentos. Nele encontramos a famosa afirmação ” Deus está morto”. Foi nessa obra que Nietzsche defendeu que o homem é um tênue fio entre o macaco e o übbermensch ( além homem). A grande maioria das pessoas são frágeis, dependentes e escravos. Uns poucos, pela perseverança, pela destruição das verdades absolutas e finalmente, pela vontade de potência, seriam os homens de liderança, acima e além do gado humano.

Kubrick e Clarke chegavam a passar 8h no set

Stanley Kubrick e Arthur Clarke ( o escritor de ” O sentinela” que inspirou 2001 e o levou a ser co-roteirista com o cineasta) trabalharam 4 anos no roteiro e nas ideias de Odisseia no Espaço (sim, o diretor compara as navegações espaciais do futuro com as aventuras de Ulisses). Consultaram a Nasa, cientistas e até um jovem astrônomo Carl Sagan. Foi Sagan que lhes advertiu que um ser alienígena não teria forma escamosa, nem terráquea, afinal será anos-luz mais inteligente do que nós. Para Sagan, a forma corpórea seria desnecessária em tamanha capacidade de intelecto, de tal forma que o ET seria algo como uma luz transcendente e onipresente. Apesar de negaram a influência de Sagan, a parte final do filme, o contato, deixa claro que talvez seja isso mesmo o ser extraterrestre. E óbvio também a presença da filosofia de Nietzsche: o filme vai da aurora num macaco-homem até a irradiação do além-homem.

O contato entre o pobre homem e o além homem

Entre a Aurora do homem e o Contato temos duas partes. O contato é a passagem mais confusa do filme que temos de assistir com atenção, pois trabalha a evolução do conhecimento humano. O astronauta assiste a um filme de sua própria vida, um adulto que se modifica até tornar-se um velho doente e caquético e após a morte reaparece como embrião. Pela inteligência adquire-se a sabedoria de entender nossa existência.

As duas outras partes do filme são a ida de um grupo para a base lunar e a outra a viagem a Júpiter e o conflito homem-máquina.

Uma nave da Pan Am leva o Doutor Floyd para investigar e, em verdade, revelar porque as autoridades haviam encoberto um Anomaly Magnetic Thyco One ( AMT – 1). O AMT-1 era um imenso monólito preto encravado no.solo lunar que emitia poderosos e indecifráveis sinais. A mesma pedra da aurora da humanidade.

Doutor Floyd

A partir dessa parte o filme começa a adotar uma forma narrativa inusitada e que poucos entendem até hoje: os diálogos são substituídos por sons, imagens imponentes e épicas e música clássica. Kubrick utilizará um outro Strauss, o compositor de Danúbio Azul para dizer o indizível. Na imensidão vazia do espaço vemos naves espaciais se movimentarem lentamente, como uma valsa em que máquinas giram entre as estrelas e a escuridão do infinito. As imagens de 2001 são das mais belas já produzidas pelo cinema. Kubrick e Clarke procuraram impor formas de naves espaciais o mais próximo da realidade de como elas seriam em 40 anos. Não há filme de ficção científica posterior que não utilize o mesmo roteiro: naves solitárias, escuridão infinita, música ao fundo e formas com design desconhecido. 2001 virou uma espécie de exercício obrigatório em filmar. Tempos depois, os ônibus espaciais, as bases e as plataformas lunares e a futura marciana, demonstraram ser cada vez mais parecidas com as naves de Kubrick e Clarke.

Ficção ou realidade?

Apesar de anti-comunista, Kubrick fugiu da Guerra Fria. Estava cansado da discussão feita em Doutor Fantástico, filme anterior, com o impagável Peter Sellers no papel de um cientista alemão que irá trabalhar na Nasa após a 2°Guerra. O problema de Stranglove é que além de perder um braço na guerra, ficou com um tique: ergue a mão, estica a palma e grita ‘ Heil Hilter’. Seu futuro retrata a eterna incapacidade da humanidade em resolver suas questões elementares. 2001 é niilista. Muita gente que assiste a filmes antigos de ficção científica gosta de apontar os erros e acertos. 2001 não só errou muito pouco, como praticamente direcionou um modelo de futuro. Talvez uma das falhas seja imaginar que a gigante Pan Am, maior empresa aérea do mundo em 1969, iria a falência 10 anos depois. Para mim, o maior equívoco vem do fato de desconsiderar um futuro espacial com russos lado a lado dos americanos ( e hoje os chineses). Ficções científicas não são obras de adivinhação, são apenas uma história às avessas, uma maneira de interpretarmos os fatos futuros por nossos erros do presente. Não é cartomancia, é apenas o delicioso exercício de imaginar como será o amanhã.

o espaço nos observa

A Missão Júpiter, terceira parte, acontece 1,5 ano depois dos eventos lunares. Dr Bowman, Dr Poole e mais 3 cientistas estão a caminho de Júpiter. Ainda não sabem o que encontrarão por lá. Ao acordarem Bowmane e Poole percebem que há algo muito errado na nave Discovery ( olha aí a influência, em 1984 a Nasa coloca em órbita seu maior e mais importante ônibus espacial, a Discovery, responsável entre outras missões por lançar o telescópio Hubble). Aparece um personagem cibernético, o supercomputador Hal 9000 ( as três letras que antecedem IBM, mas os autores dizem que foi só coincidência). Hal 9000 é o mais poderoso, inteligente e infalível computador já construído pelo homem. Hal 9000 detecta diversas falhas na nave e relata, com a voz pausada e cansativa aos 2 tripulantes que restavam. Aos poucos, Bowman e Poole começam a desconfiar de que Hal 9000 era o responsável pelas falhas. Dialogam escondido, mas o computador faz leitura labial da conversa. Hal 9000 simula uma falha externa e consegue colocar os 2 astronautas fora da nave. Logo depois, ele mata Poole. Bowman consegue escapar por milagre, volta a nave. Lá, ele luta para desligar o computador assassino. Vitorioso, Bowman termina ouvindo um áudio do comandante Floyd. Tudo era relacionado ao monólito negro, que agora se encontrava em Júpiter e buscava talvez prejudicar a humanidade.

Hal 9000

Arthur Clarke escreveu mais 3 continuações do roteiro de 2001. No terceiro livro, 2061, Hal 9000 e Bowman enfrentam os alienígenas e cabe ao computador fazer um backup de toda a história humana para ” preservar o legado desses herois”. O conflito homem-máquina é apenas aparente. Não seremos banidos do universo por conta dos computadores. Em 1996 os cientistas alimentaram um supercomputador de nome ” Deep Blue” com todas as partidas de xadrez realizadas pelos campeões mundiais. Do outro lado da mesa, estava o então maior enxadrista mundial, o russo Kasparov. Ao final de alguns dias Kasparov venceu por 4 a 2. No ano seguinte tivemos a revanche. Os programadores adicionaram mais 1 milhão de lances na memória do Deep Blue, além é claro de todas as partidas de Kasparov. No primeiro dia empate, nos dias seguintes duas vitórias de Kasparov. Nos três dias seguintes, três vitórias do computador. A cada dia os lances da máquina eram mais rápidos. Kasparov percebeu também que Deep Blue “aprendera” a antecipar suas jogadas. O russo desistiu da última partida. O supercomputador caberia hoje num pendrive de 2 gigas. Sua memória é semelha a 1% dos grandes computadores atuais. Somos uns pobres coitados pertos de um mero celular. Habemus máquinas.

Capa original do livro

Por tudo isso 2001 uma odisseia no espaço é uma revolução cinematográfica. Por praticamente criar um gênero de filme. Pela narrativa inusitada em que sons e músicas dizem mais que mil palavras. Também por ter influenciado quase tudo do gênero que veio depois ( além de influenciar a própria indústria espacial). Revolucionário por jamais nos explicar como seria um contato extraterrestre e além disso, o que seria e qual sentido da existência do monólito negro. O monólito é o grande enigma da história do cinema, assim como Rosebud de Cidadão Kane.

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