Grupo teatral Nativos Terra Rasgada completa 18 anos

JOSÉ SIMÕES – Um grupo ou um coletivo teatral são pequenas unidades de formação e produção das artes da cena e da cultura teatral de uma cidade, região ou nação. Os coletivos e grupos são fundamentais porque, na sua maioria, mantêm uma linguagem/unidade, que dialoga no tempo e lugar onde atuam.

O grupo sorocabano Nativos Terra Rasgada completa 18 anos. Um grupo que optou pelo teatro popular, feito na rua, em dialogo com o seu tempo.

É, também, um grupo que gosta de receber pessoas na sua sede, de organizar rodas de conversa, de participar da vida política cultural da cidade e potencializar a formação continuada. Um grupo que discute entre si, tem diferenças e buscam resolver em cena suas questões. São um grupo. É difícil a vida em grupo. É mais fácil ter um nome da companhia e ser dono dela. Você e a companhia e vai convidando as pessoas por empreitada. Não deu certo você não convida mais ou muda o nome da companhia e a vida que segue.

Todos sabemos o quanto é difícil fazer teatro de grupo longevo no interior. Não é clichê. É realidade.

Por fim, o grupo teatral Nativos com o tempo amadurece e aos poucos setorna exemplaridade para outros grupos teatrais da região, do interior, que desejam desenvolver linguagem teatral própria, trabalho contínuo e permanecer em plena atividade.

Viva o teatro. Viva o Nativos Terra Rasgada. Precisamos comemorar.

Aproveite para conhecer ou rever os trabalhos do grupo no YouTube. Também curta a página do grupo para ampliar a sua visibilidade nestes tempos de pandemia.

https://www.youtube.com/channel/UCc_mZ4cb4VKaQVDdum6v3pg/featured

Segue o texto do professor e ator Flavio Melo, integrante do Nativos:

O Nativos faz 18 anos de prática teatral ininterrupta, mas há o que comemorar?

Nem vou fazer trocadilhos com relação aos 18 anos do Nativos e a maioridade penal no Brasil. Seria muita alienação de minha parte, comparar vidas e responsabilidades de indivíduos com a de um coletivo, porque um grupo, coletivo artístico, nasce com uma carga de responsabilidade que corresponde à própria existência, à sua própria vida, enquanto que o outro, é alimentado, cuidado, instruído. Fazer arte é uma escolha que exige responsabilidade e nos cobra caro o tempo todo.
A cada dia de vida de um grupo de teatro, tem-se um motivo para comemorar pois, a existência de um coletivo artístico talvez seja a expressão mais concreta de nosso desejo de “adiar o fim do mundo”1 preservando a coletividade e diversidade da vida em sua amplitude e não em sua exclusiva individualidade.
O que tenho refletido ao longo destes 18 anos que faço parte deste grupo de teatro de rua, não é a nossa capacidade/competência para reproduzir técnicas de atuação, tão pouco o “sucesso” que deveríamos ter pela trajetória que construímos juntes, mas sim o próprio fato de nos mantermos coletivos.
Em 10 de janeiro de 2003, nasceu um sujeito artístico coletivo que faz enfrentamentos concretos diariamente para sobreviver e que hoje completa 18 anos de encontros, trocas, muitas vivências, muitas histórias de vidas. Neste sentido, talvez haja sim motivo para comemorar.
As praticas deste sujeito coletivo compreendem diversas ações individuais que precisam ser avaliadas e reavaliadas, e foram, e são. Não há espaço para romantismo, não existe linearidade na história, não existe uma form(ula)a que garanta a existência e permanência de um grupo artístico no tempo. O que existe é a concretude da vida e o desejo de viver a utopia.
Bruna Salatini, Celso Stefano, Flavio Melo, Juliana Prestes, Rodrigo Zanetti, Samir Jaime, Stefany Cristiny, Tom Ravazoli e Vitor Silva integram um grupo que já foi muito maior, já contou com muitas outras pessoas maravilhosas que contribuíram com a construção do que somos hoje. Outros ainda haverão de somar vivências por aqui, pois a história do futuro está toda por acontecer e, há um movimento experiencial sendo
partilhado com nossas crianças, nossas filhas e filhos: Fellipe Melo; Lorenzo Prestes Ravazoli; Rafaela Salatini Zanetti e Beatriz Salatini Zanetti. Mas isso não quer dizer nada para o futuro do Nativos, pois para que o futuro exista, temos de existir no presente e, isso não tem sido fácil.
A importância de um coletivo artístico se dá pela construção e reconhecimento sociais, digo, não adianta eu, você, o próprio grupo Nativos ou outros artistas e coletivos acharmos bonita ou importante a história e o trabalho que fazem(os), mas a própria cidade enquanto estrutura política, econômica, filosófica, tem de enxerga a mesma coisa que nós.
Se a sociedade e a cidade não nos reconhecem em nossas práticas, ficamos isolados, somos suprimidos e empurrados com violência para o abismo do fim. E assim, fica difícil comemorar.
Então, sem ignorar a história vivida, e a dura realidade deste momento em que vivemos, completamos 18 anos, desejosos de que a dignidade pela qual lutam as trabalhadoras e trabalhadores da cultura – estamos inseridos aqui – possa ser alcançada.
Enquanto isso, comemoremos nossa coletividade, nossa teatralidade, presencial e virtual, comemoremos a nossa utopia.

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