Com vinícolas para todos gostos e bolsos, a Serra Gaúcha de pronúncia italiana é pedida irresistível para quem ama vinho e a boa mesa dos imigrantes da Bota

MARCO MERGUIZZO (ESPECIAL DA SERRA GAÚCHA) – Não, não se engane com as colinas verdejantes riscadas por vinhedos, o clima típico de montanha e a pronúncia estrangeira entreouvida em conversas nas ruas. Ou pelos tipos humanos e o gestual pitoresco de quem fala e se expressa permanentemente com as mãos. Ou, ainda, ao se sentar à mesa, com os aromas, cores e sabores de pastas, queijos, geleias, embutidos, tintos, brancos, espumantes e sucos que costumam instigar e inebriar o paladar. Por todos esses motivos e tudo, absolutamente tudo nesta parte da região serrana do Rio Grande do Sul faz lembrar a Itália.

Uma associação quase atávica que remete automaticamente o visitante à geografia montanhosa do Piemonte e, de forma recorrente, aos ciprestes e cenários altivos da Toscana. Ou, ainda, de modo particular, às expressões idiomáticas locais e aos hábitos e costumes presentes no cotidiano originários das tradições do Vêneto e do Trento-Alto Adige, de onde é proveniente grande parte dos primeiros imigrantes que desbravaram esse ponto do Rio Grande.

Com vinícolas charmosas, mesa opulenta e cenários europeus, a Serra Gaúcha de sotaque italiano seduz nesta época do ano pela vindima pelas atrações na taça e fora dela com doses extras de história da imigração europeia nesta parte do país, boa comida, boa bebida e hospitalidade, muita hospitalidade.

Para quem o visita pela primeira vez, é praticamente impossível, portanto, não se encantar com este pedaço do território brasileiro de sotaque e alma peninsulares. Primeira região vinícola do país a oferecer roteiros enoturísticos cheios de charme e autenticidade, a Serra Gaúcha guarda um vasto e inesgotável repertório de influências dos colonizadores vênetos, trentinos e piemonteses que lá desembarcaram a partir do final do século 19.

Quem busca desvendar os encantos desse simpático lugar, distante pouco mais de 2h de Porto Alegre e que a cada ano recebe cerca de 1,4 milhão de turistas, vai sentir mesmo não sendo um fã de vinhos e um connoisseur de carteirinha que os costumes e as tradições italianas continuam fortemente enraizados.

Para onde quer que se vá ou olhe, as referências dos primeiros imigrantes aparecem com força em cada detalhe e em todo lugar: ora estampadas no interior das colônias – em fachadas de velhos casarões de pedra -, ora na arquitetura ultrapreservada dos prédios históricos, afortunadamente bem conservados, na maioria das mais de quatro dezenas de cidades da região, como as acolhedoras Garibaldi, Bento Gonçalves, Flores da Cunha, Pinto Bandeira e Antônio Prado, dentre outras. Ou, ainda, na geometria das vinhas e parreirais ali cultivados há décadas.

Melhor: com vinícolas e restaurantes para lá de charmosos, mesa farta e boa dose de hospitalidade e passione pela boa mesa e, claro, pelo fermentado de uva, este pedaço do Rio Grande do Sul, cuja anatomia desenhada por vales sinuosos cercados de vinho por todos os lados, não perde em nada para outras regiões vinícolas do mundo.

Para aproveitar o tempo e tirar o melhor da região, a dica é hospedar-se em um só lugar já que as distâncias e os deslo­camentos são curtos e podem ser feitos de carro por estra­das em geral em boas condições.

Em se tratando de origi­nalidade, charme e conforto são indicações seguras a Pousada Don Giovanni, na zona rural de Pinto Bandeira (uma construção dos anos 1930 abrigada dentro da viníco­la, com 8 habitações exclusivas, uma delas situada no meio de seus vinhedos biodinâmicos) e a Casa Valduga, no coração do Vale dos Vinhedos.

Ambas proporcionam experiência completa no universo de Baco, além de uma preciosa imersão na cultura regional. Mas se a ideia é ficar em uma das cidades como ponto de partida para os demais destinos da região, prefira a charmosa Garibaldi e o recém-restaurado Hostaria Casacurta, de localização estratégica e com ótima gastronomia, assim como os recomendados acima.

De vinhedo em vinhedo e de taça em taça

Como pressa e vinho jamais combinam, incorpore portanto o espírito local e selecione algumas das mais de 60 vinícolas da região e deguste em primeira mão as centenas de rótulos ali produzidos ou, privilégio de poucos, prove as novas safras ainda em barricas.

De quebra, aproveite para conversar e interagir com enólogos e os próprios produtores, percorrendo vinhedos e de cabo a rabo toda a linha de produção. Ou seja: do campo ao copo e de taça em taça, um programa e tanto para quem quer curtir momentos de puro hedonismo.

Em meio a paisagens que lembram as cenas do filme “1900”, do genial cineasta Bernardo Bertollucci (1941-2018), o tradicional Vale dos Vinhedos –  primeira região de Denominação de Origem brasileira (D.O.) situada em Bento Gonçalves, e cujo território de 100 km2 avança até os municípios de Garibaldi e Monte Belo do Sul – é, por todos os motivos, um dos destinos obrigatórios.

De fácil acesso, esta cenográfica região, patrimônio histórico e cultural do RS com extensas áreas de vinhedos, pode ser percorrida confortavelmente de carro ou, caso desperte o espirito aventureiro, a bordo de quadriciclos 4×4 lá disponíveis.

Ao lado de outras rotas sugeridas, como a de Cantinas Históricas, em Flores da Cunha, a dos Vinhos de Montanha, em Pinto Bandeira, além da de Espumantes, também nesta última cidade e em Garibaldi, esse passeio imperdível inclui uma impressionante diversidade de vinícolas: das pequenas às grandes, das tradicionais às de perfis mais modernos.

Caso, dentre outras, das ousadas e futuristas Don Guerino, em Alto Feliz e Luiz Argenta, em Flores da Cunha. Das monumentais Miolo e Casa Valduga, ambas no Vale dos Vinhedos. Da sofisticada Almaúnica, em Bento Gonçalves. Da histórica e belíssima Salvattore, em Flores da Cunha. Da ultrassimpática Cristofoli, no distrito de Faria Lemos. Das pioneiras e obrigatórias Dom Cândido e Dal Pizzol. E da sedutora vinícola-butique Don Giovanni, em Pinto Bandeira.

Outra superdica é conhecer a região durante a vindima, entre janeiro e março, na qual as vinícolas oferecem uma programação especial, cujo pacote inclui a colheita e a pisa das uvas e faustas degustações nos vinhedos. Simplesmente imperdível. Caso, entre outras, das tradicionais e para lá de autênticas vinícolas Cristofoli e Dal Pizzol.

Esta última ainda oferece provas sensoriais às cegas e a oportunidade de colher uvas no “Vinhedo Mundo”, berçário que reúne a terceira maiorcoleção de viníferas do planeta, com mais de 400 diferentes castas brancas e tintas oriundas de 35 países. 

Após esse giro precioso, não é difícil concluir que na Serra Gaúcha cultua-se e respira-se vinho 24h. Não por acaso, a região produz anualmente um oceano de 232 milhões de litros do 257 milhões fabricados no RS. Subtraída a região da Campanha, lá estão concentradas 90% das vinícolas gaúchas – 496, no total, espalhadas por 25 municípios, a maior parte delas familiares, muitas de renome internacional e cujos sobrenomes aparentados entre si são descendentes dos primeiros imigrantes que se dedicam há décadas ao cultivo de uvas viníferas, e cujas castas de melhor estirpe originam e moldam hoje alguns dos melhores espumantes e vinhos nacionais.

Para quem já a visitou no passado é notável a evolução e o grande salto de qualidade dados na região, fruto da profissionalização do setor vitivinícola como um todo, o que inclui a formação de novos enólogos e técnicos e uma talentosa geração de novos produtores.

O resultado pode ser visto na taça: rótulos de alta gama, cujos predicados são aplaudidos dentro e fora do Brasil, seja por consumidores mais exigentes, seja por críticos independentes como a inglesa Jancis Robinson e o norte-americano James Suckling, que já visitaram a Serra.

Outro ponto forte hoje do enoturismo local é a sua infraestrutura, com hotéis, restaurantes, vinícolas e mão de obra de padrão comparáveis aos melhores roteiros de vinho existentes no mundo.

Mas se taninos e fermentação malolática não fazem parte de seu vocabulário, dê um pulo, então, até a Colônia São Pedro. Lá, percorra a rota Caminhos de Pedra – uma estrada de construções seculares que proporciona a visão mais fiel de um núcleo rural dos primeiros tempos da colonização.

Espécie de museu a céu aberto, vale conferir a Cantina Strapazzon (1880) – onde foram filmadas algumas cenas de O Quatrilho, (1994) do diretor Fábio Barreto -, além de antigas vinícolas, salumeria, cafés e simpáticos restaurantes e osterias, onde é possível saborear a culinária colonial feita por descendentes dos pioneiros italianos.

Mapa da gula

Além da tradição de fazer e beber vinho, a Serra também herdou dos imigrantes a produção artesanal de queijos, maccheroni e de vários embutidos como salames, copas e a versão local do raro e cobiçado culatello di zibello D.O.P.. Porém, é o galeto, a massa e o vinho que formam historicamente o tripé culinário na Serra Gaúcha de pronúncia italiana.

Popular não só ali mas em todo o Rio Grande do Sul, o galeto tem  a sua origem ligada a um costume hoje ecologicamente condenável: a passarinhada. Aliada às dificuldades de sobrevivência nos primórdios da colonização, o costume árbaro de comer passarinhos assados foi trazido pelos imigrantes de alguns lugares do norte da Itália.

Resultado: depois da chegada dos primeiros colonos italianos sobraram bem poucas aves para contar história. O jeito, na falta destas iguarias aladas, foi substituí-las por franguinhos novos – os galetos -, que lembravam no tamanho e no sabor os canarinhos e rouxinóis da Serra.

Hoje, o galeto é o carro-chefe de muitas cozinhas locais, servido ao lado de seus tradicionais acompanhamentos: sopa de capeleti, massa fresca ao sugo, polenta brustolada (passada na chapa), salada de radicci (almeirão) com vinagre de vinho e bacon fritinho, maionese de batatas, salame, copa e queijo coloniais.

Esse cardápio farto e vigoroso, síntese exemplar da cozinha do Vêneto adaptada aos ingredientes encontrados na terra adotiva pelos imigrantes, é preparado em alguns lugares de forma excepcional, como é o caso do restaurante da vinícola Casa Valduga.

Ainda vale conferir a cozinha de origem do novíssimo Guri, do chef e consultor gaúcho Enio Valli. Situado no coração do Vale dos Vinhedos, o lugar busca resgatar de modo original e releitura contemporânea receitas campeiras ancestrais do Rio Grande do Sul.

Das carnes aos pães e vegetais, passando pelas sobremesas – tudo é preparado no fogo de parrilla, bem à moda da região da Campanha gaúcha e países do Rio da Prata. Provar, portanto, essas iguarias é poder viajar na história de uma região de cuore e alma italianas, numa saborosa volta ao passado.

FESTA NO PARREIRAL

Programa com sabor e estilo

Pisa da uva e merendim na vindima da Miolo são experiências imperdíveis para quem busca vivenciar o período da colheita do vinhedo à taça

De janeiro a março, o Vale dos Vinhedos ‘embriaga’ milhares de turistas de experiências sensoriais inesquecíveis. Afinal, somente nesta época do ano é possível vivenciar a colheita da uva, seus aromas, sabores e prazeres. Na Vindima da Miolo esta viagem pelos sentidos contempla visita pela vinícola, acompanhando a chegada das uvas, conhecendo o processo de elaboração dos vinhos e espumantes, além de caminhada pelo Parreiral Modelo, pisa das uvas, merendim, degustação e muita alegria com músicas típicas italianas.

A programação, que dura em média 2 horas, foi toda pensada para surpreender o visitante, levando-o a mergulhar pelo mundo da uva e do vinho. Oferecida sempre nas quartas-feiras e aos sábados, no período de 18 de janeiro a 7 de março, a atração é um convite a viver os prazeres da colheita. Cercada por vinhedos de todos os lados, a Miolo recebe anualmente em sua unidade no Vale dos Vinhedos mais de 200 mil turistas, cerca de 30% durante a vindima.

“A experiência de colher a uva do vinhedo, de ver de perto a rotina de uma safra, de sentir o cheiro da uva em todo lugar só é possível nesta época do ano. São três meses de muito trabalho, mas também de uma grande festa. Afinal, a colheita é a celebração de um ano de dedicação ao vinhedo, onde nascem todos nossos vinhos e espumantes”, destaca o enólogo Adriano Miolo, diretor superintendente da empresa.

Uma mostra das variedades que a Miolo cultiva em suas quatro unidades (Miolo – Vale dos Vinhedos, Terranova – Vale do São Francisco, Fortaleza do Seival / Candiota – Campanha Meridional e Almadén / Santana do Livramento, Campanha Central) é vista durante caminhada pelo Parreiral Modelo, que reúne 45 variedades de uvas tintas e brancas.

Fotos: Divulgação (Miolo Group)

De lá, o visitante é conduzido para a pisa das uvas, revivendo as vindimas de antigamente, ao som de músicas típicas italianas. A alegria se completa com o tradicional merendim, aos moldes do que os imigrantes faziam com pão colonial, queijos, salame, copa, grostoli e, claro, uvas. A experiência é harmonizada com vinhos, espumantes e suco de uva.

VINDIMA DA VINÍCOLA MIOLO EM BENTO GONÇALVES

Endereço: Vale dos Vinhedos, Bento Gonçalves, RS. Período: de 18/1 a 7/3, às 4as. e sábados. Programação: visita à vinícola e ao Parreiral Modelo, Pisa das Uvas, Merendim (lanche típico italiano com pão colonial, queijos, salame, copa, grostoli e uvas), músicas típicas italianas e degustação de suco de uva, vinhos e espumantes. Preço: R$ 120 (maiores de 18 anos) e R$ 60 (crianças e adolescentes de 9 a 17 anos). Cada participante ganha um brinde. Informações e reservas: email: visita@miolo.com.br ou pelo tel. (54) 2102-1537. Giordani Turismo – faleconosco@giordaniturismo.com.br ou tel. (54) 3455-2788.

SERVIÇO
ONDE FICAR

Hotéis: No Vale dos Vinhedos: SPA DO VINHO . CASA VALDUGA (casavalduga.com.br). Em Pinto Bandeira: DON GIOVANNI (www.dongiovanni.com.br).Em Garibaldi: HOSTARIA CASACURTA (hotelcasacurta.com.br).

ONDE COMER

Restaurantes: DON GUERINO (cozinha italiana moderna; CRISTOFOLI (colonial; vinhoscristofoli.com.br). CASA VALDUGA (colonial; casavalduga.com.br). GURI (regional; gurirestaurante.com.br). HOSTARIA CASACURTA (italiana clássica; hotelcasacurta.com.br). Queijaria: VALBRENTA (queijos artesanais de variedades italianas e francesas; queijariavalbrenta.com.br)

ONDE BEBER

Vinícolas: ALMAÚNICA (almaunica.com.br). CASA VALDUGA (casavalduga.com.br). CRISTOFOLI (vinhoscristofoli.com.br). DAL PIZZOL (dalpizzol.com.br). DOM CÂNDIDO (domcandido.com.br). DON GIOVANNI (dongiovanni.com.br). DON GUERINO (donguerino.com.br). MIOLO (miolo.com.br). SALTON (salton.com.br). SALVATTORE (vinicolasalvattore.com.br).

ATRAÇÕES

Passeio de quadriciclo 4X4 pelo Vale dos Vinhedos: tel. (54) 2102-1800. Roteiro histórico Caminhos de Pedra (www.caminhosdepedra.org.br).

MARCO MERGUIZZO 
é jornalista profissional 
especializado em gastronomia, 
vinhos, viagens e outras 
coisas boas da vida. 
Escreve neste Coletivo 
toda sexta-feira. 
Me acompanhe também no Facebook e no Instagram, 
acessando @marcomerguizzo  
#blogaquelesaborquemeemociona 
#coletivoterceiramargem

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