Hoje, entrevista com Martha Medeiros

Perguntas irrespondiveis

Evandro Affonso Ferreira

Hoje amanheci fazendo perguntas irrespondíveis para mim mesmo…

Pílula do dia

Perguntas insólitas

Abismo de Rosas, de Dalton Trevisan

Quem é Dalton Trevisan? Dizem-desconfiam que se trata de certo Vampiro de Curitiba. Mas vamos deixar para Otto Lara Resende não-responder esta pergunta: Ninguém sabe quem é Dalton Trevisan. Deus mesmo não sabe e nem por isto se impacienta. Se algum espírito curioso quiser, porém, saber quem é o escritor Dalton Trevisan, aí a coisa muda de figura. A porta escancarada é o texto de Dalton Trevisan. Têxtil, sua escrita é uma tessitura de ponto rigorosamente cerrado. Minha avó, que não entendia de textos, mas entendia da vida e de bordado, diria que o nosso autor é um ponto de nó. E provavelmente nó cego, que cumpre ao leitor desatar e decifrar.

Entrevista: Martha Medeiros

Escritora gaúcha, formada em Comunicação Social na PUCRS. Participou das memoráveis Cantadas Literárias da Editora Brasiliense. Ganhou vários prêmios, entre eles Prêmio Açorianos de Literatura. Já foi publicada na Suíça, França, Portugal, Itália e Espanha. Muitos de seus livros já foram adaptados para teatro, cinema e televisão.


A escritora e a leitura


Evandro Affonso Ferreira – Você ainda encontra tempo para não fazer nada? Sim: ficar num canto qualquer estudando a anatomia do inimaginável, ou talvez, debulhando as cascas do incógnito?
Martha Medeiros – Fazer nada é minha especialidade.

Evandro – E Deus? Exilou-se de vez no subsolo do incognoscível?
Martha – Em nome dele tem se feito tanta patifaria que faz muito bem em sair de cena. Quem o conhece de verdade sabe onde encontrá-lo.

Evandro – E as certezas? Vida toda ultrapassamos, se tanto, o pórtico do talvez?
Martha – As certezas nos dão muito medo de errar. As incertezas são nossa coragem.

Evandro – Como se esquivar das ciladas das equivocações? Sim: quando não estamos entendendo a geografia dos próprios descaminhos? Mudar-se para casebre da rua de baixo, ali na viela das razoabilidades?
Martha – Temos que aprender a andar no escuro, não tem outro jeito. Com o tempo a gente acostuma e passa a enxergar alguns contornos sinalizadores.

Evandro – E quando queremos atropelar-acelerar as hipóteses, queremos mergulhar precipitados nas intuições? Eu, quase sempre, caio nas ciladas da afoiteza. E você?
Martha– Não sou impulsiva. Claro que não troco meus desejos pela ponderação, dei os saltos que tinha que dar, mesmo sem rede, mas a cautela e os recuos também podem nos levar longe.

Evandro – Vez em quando você se vê desestabilizada diante dos enigmas dos obscuros desalentos? Sim: vez em quando se atrela à melancolia e seu cortejo angustioso e seus penduricalhos de inquietudes?
Martha – Melancolia é uma palavra tão bela que me jogo em seus braços, seduzida. É meu ansiolítico contra a ansiedade. Não a procuro, mas se ela passa em frente à minha janela, eu assobio.

Evandro – Viver? É possível se preparar para esta emboscada?
Martha – Aprender a viver é o que fazemos desde o primeiro minuto, mas demora até ficarmos craques na matéria, e sempre tem uma aula que a gente faltou.

Evandro – E nesses tempos de desentendimentos mútuos? Devemos evitar inclusive os solilóquios?
Martha– Não suporto barracos, brigas, bate-bocas, sempre achei a agressividade muito cafona. Por isso, me trato com delicadeza, até quando discordo de mim.

Evandro – E o desprezo? Você já desconfiou alguma vez, teve ligeiro pressentimento de que foi o etecetera da frase de alguém?
Martha – Costumo me precaver, colocando um ponto final antes de me instalarem no etc. Sei que é uma presunção. Nem sempre dá certo.

Evandro – Você é feito eu? Sim: pertence também àquela chusma de seres chuvosos que não facilitam de jeito nenhum a própria estiagem?
Martha – Ao contrário, sou uma criatura solar. Minhas chuvas, quando vêm, são redentoras, necessárias, e logo se vão. Não apresento muitas variações climáticas. Sou um caso raro: comigo o meteorologista tem muita chance de acertar.

Fragmentos

Vaidade vai por água abaixo quando descobrimos, na velhice, que vida toda só fomos vistos de relance.

Motejos

Livros de minha autoria

1996Bombons Recheados de Cicuta (Paulicéia)
2000Grogotó! (Topbooks)
2002Araã! (Hedra)
2004Erefuê (Editora 34)
2005Zaratempô! (Editora 34)
2006Catrâmbias! (Editora 34)
2010Minha Mãe se Matou sem Dizer Adeus (Record)
2012O Mendigo que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Rotterdam (Record)
2014Os Piores Dias de Minha Vida Foram Todos (Record)
2016Não Tive Nenhum Prazer em Conhecê-los (Record)
2017Nunca Houve tanto Fim como Agora (Record)
2018Epigramas Recheados de Cicuta – com Juliano Garcia Pessanha ((Sesi Editora)
2019Moça Quase-viva Enrodilhada numa Amoreira Quase-morta (Editora Nós)
2019 – (Plaquetes) – Levaram Tudo dele, Inclusive Alguns Pressentimentos, Certos Seres Chuvosos não Facilitam a Própria Estiagem e Anatomia do Inimaginável.
2020Ontologias Mínimas (Editora Faria e Silva)
2021Rei Revés (Record)

Foto principal

As fotos que abrem este blog pertencem ao meu futuro livro, Ruínas. Passei um ano fotografando paredes carcomidas pelos becos, veredas, ruas do centro, e de alguns bairros paulistanos.

As imagens apresentam uma concretude pobre e miserável, de ruína mesmo, que na sua própria deterioração encontra rasgos inesperados de um refinado expressionismo abstrato – força das paredes arruinadas e das tintas expressivas do tempo. (Alcir Pécora)

Capa: Marcelo Girard

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