Muito mais do que um ex vereador

GERALDO BONADIO – Nascido em Araçatuba, Osvaldo Francisco Noce, falecido aos 79 anos, na madrugada do dia 14, exerceu três profícuos mandatos consecutivos de vereador na Câmara de Sorocaba, entre 1983 e 1996. No entanto, sua atuação política não se limitou, de modo algum, à atividade parlamentar. Começou, sim, no movimento estudantil, quando este era severamente vigiado e duramente reprimido pela ditadura militar; passando por organizações ligadas à luta armada urbana, como Ação Popular Marxista Leninista e a organização do campesinato.

Exerceu atuação destacada no embate das lideranças ambientais quando estas cobravam, do Ministério da Marinha, que a instalação do núcleo de pesquisas nucleares (Aramar), em Iperó, se fizesse com respeito às normas de Direito Ambiental inscritas na Constituição de 1988 e não na legislação de Segurança Nacional, como efetivamente ocorreu.

Levou consigo, para o túmulo, os detalhes do período em que viveu na clandestinidade, entre a sua prisão, aos 20 anos, no 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes, em Ibiúna, do qual participava como estudante do curso de Biologia, da USP, e o seu posterior ingresso em curso semelhante da Unesp, em Botucatu, pela qual se graduou biólogo. Tal graduação viabilizou seu ingresso, por concurso, no Instituto Adolfo Lutz, lotado na regional de Sorocaba, antes e depois de sua eleição à Câmara de Sorocaba, integrando a bancada do então nascente Partido dos Trabalhadores.

Seu ingresso na política estudantil deu-se quando a Ação Popular, nascida da antiga Juventude Universitária Católica, ao cabo de uma crise que se arrastava desde antes do golpe de 1964, deixou de lado suas raízes, optou pela ideologia marxista-leninista e se jogou na luta armada, num processo analisado em vários estudos acadêmicos.

Isso o colocou em Ibiúna, na menos clandestina das ações dos estudantes contra a ditadura militar, que resultou na prisão, sem qualquer ação mais violenta, de quase seiscentos estudantes com idade inferior ou pouco superior aos 20 anos, por uma tropa da Polícia Militar que partira de Sorocaba sob o comando do Coronel Divo Barsotti. A violência, física ou psicológica, veio depois da entrega dos aprisionados à Polícia Civil de São Paulo.

Por conta das ações a ele imputadas, pessoalmente, ou de referências à sua pessoa em processos correlatos, dele existem, nos arquivos do antigo Deops paulista, hoje confiados ao Arquivo do Estado, nada menos que que nove fichas.

Durante a luta para cobrar, da Marinha, transparência e, mais adiante, salvaguarda, com a definição de um plano – até hoje inexistente – de evacuação civil da população sorocabana em caso de algum acidente com os equipamentos nucleares de Aramar, reuni-me, múltiplas ocasiões, em minha residência, com ele e com o Rodrigues, seu antigo companheiro da luta estudantil e da clandestinidade, período em relação ao qual ambos mantiveram, sempre, absoluto silêncio.Por todas essas razões, Noce, que o mal de Alzheimer afastou, em definitivo, da luta política no seu sentido mais amplo, merece ser reverenciado como um brasileiro corajoso e firme, sempre pautado por um civismo atuante e desprendido de interesses pessoais que foi, também, mas não apenas, vereador à Câmara de Sorocaba.

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