Brasil precisa de autonomia cooperativa

GERALDO BONADIO – O Brasil se descobre, neste momento especialmente dramático para sua população, como um país carente de autonomia e destituído de laços de cooperação sólidos com potências emergentes como China e Índia e com seus vizinhos da América Latina e da Europa e sem políticas autônomas públicas ou econômicas – coisas que somadas geram uma tempestade perfeita, com direito a raios, ventos fortes e inundações.

A história recente das desgraças brasileiras começa com a traição urdida por Michel Temer contra Dilma Rousseff. Conspirando com chefes do Exército por ela nomeados – os quais não hesitaram em cravar-lhe o punhal nas costas -, Temer, a quem o ex-presidente Lula, no mais desatinado de todos os seus gestos, incluiu na linha de sucessão, auxiliado pelo ex guerrilheiro Aloysio Nunes Ferreira Filho, dinamitou nossas pontes com a Venezuela, país com o qual temos nossa mais extensa fronteira terrestre, responsável por grande parte do suprimento de gás natural que utilizamos. Não contente com isso iniciou o desmonte do sistema Petrobras.

Para ficar num só exemplo: uma das unidades desativadas daquela petrolífera tinha condições de garantir o normal fornecimento de oxigênio aos nossos hospitais, oxigênio cuja falta mata por sufocamento contaminados pelo Covid 19 e ameaça bebês prematuros.

As falcatruas urdidas pelo ex-juiz Sérgio Moro, através da chamada Operação Lava Jato, viabilizaram a chega ao poder do ex-capitão Bolsonaro, acolitado por um ministro da Economia que é uma cópia muito piorada do Pacheco, que Eça de Queiroz retratou na Correspondência de Fradique Mendes, e um ministro das Relações Exteriores que nos isolou do mundo. Negando apoio à Índia e à África do Sul, numa operação que visava ampliar a quebra de patentes de fármacos – rompendo com uma linha de conduta antecipada pelo ex-ministro da Saúde Jamil Haddad e implementada, adiante, por José Serra, quando ocupou aquele cargo – o sinistro e tacanho Ernesto Araújo concedeu à Índia um excelente pretexto para excluir o Brasil da relação de Estados amigos e adiar o fornecimento de insumos essenciais para que a unidade industrial da Fiocruz aqui produza a chamada vacina de Oxford para o momento em que conseguir conciliar a imunização de sua população – cinco vezes maior que a nossa – e a dos países amigos.

O inominável Araújo também semeou minas terrestres nos caminhos, usualmente seguros, que ligavam, no plano internacional, o Brasil à China, gerando demoras nos insumos ali processados que poderiam iniciar a transferência de tecnologias necessárias a que Manguinhos e o Butantan produzam inteiramente no Brasil as vacinas de que hoje necessitamos.

Os critérios de definição das políticas públicas de produção de medicamentos populares são diferentes daqueles que regem a fabricação de remédios pelos laboratórios particulares. O Brasil tem se descuidado disso há algum tempo. Em consequência, não mais produzimos aqui os antibióticos essenciais a frear a rápida expansão, em nosso territórios, das doenças sexualmente transmissíveis que, em dado momento, havíamos conseguido controlar. O preço baixíssimo de tais produtos levou os laboratórios particulares a abandonarem sua fabricação e, também nessa matéria, dependemos da Índia.

Os governantes brasileiros – não os atuais, mas aqueles com alguma capacidade de aprendizagem – precisam entender que há situações em que a segurança logística não se mede por padrões exclusivamente contábeis. Ao mesmo tempo, é essencial que tenhamos boas relações com países de qualquer canto do mundo, concordemos ou não com os padrões políticos exercitados pelos seus respectivos governos. Ainda agora, o governo Maduro, da Venezuela, que, de modo algum, desejamos replicar aqui, estapeia na face o governo Bolsonaro, repassando ao Brasil o oxigênio que não obtivemos dos nossos “fraternos” amigos norte-americanos.

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