Presidente Júlio Prestes

GERALDO BONADIO – As muitas tentativas de Donald Trump para negar legitimidade à vitória de seu sucessor Joe Biden, culminando com um ensaio de golpe, jogaram os brasileiros no túnel do tempo. Isso permitiu, àqueles com algum interesse em pesquisa histórica, vislumbrar como se faziam as eleições no Brasil, anteriormente à revolução de 1930, sem a existência de partidos nacionais, sem Justiça Eleitoral, com voto a descoberto e fraude eleitoral correndo solta.

A lambança então vigente gerava incerteza sobre todos os aspectos do processo. Torna difícil saber, ainda hoje, quantas vezes determinado líder político foi candidato à Presidência.

Vejamos o caso de Rui Barbosa. Menino ainda, aprendi – numa biografia escrita pelo sorocabano Renato Fleury, com que fui presenteado pela saudosa professora Helena Kalil, minha mestra no 3º ano primário do Baltasar Fernandes -, que o grande jurista concorreu duas vezes à Presidência. Em obra recente, o escritor Pedro Dória constata que, na verdade, ele foi candidato em muitas eleições presidenciais. Vale o mesmo para o paranaense sorocabano Ubaldino do Amaral.

E quando se ficava sabendo quem, afinal de contas, vencera? No momento em que o candidato, após muitas negociações – nem sempre honestas – na chamada Comissão de Reconhecimento de Poderes, constituída por congressistas que estavam encerrando seu mandato, reconhecia a vitória deste postulante sobre aquele. Com isso, o reconhecido adquiria status equivalente ao que tem hoje o presidente diplomado pela Justiça Eleitoral. Aí, na condição de presidente eleito, viajava ao exterior onde era recebido pelos chefes de Estados com os quais o Brasil mantinha relacionamento, enquanto aguardava o transcurso do demorado lapso de tempo que separava as datas de eleição e posse.

Tenho amigos em Itapetininga que, há muito, reclamam do nome de um dos mais ilustres filhos da terra – Júlio Prestes de Albuquerque -, na galeria dos Presidentes da República, argumentando, com acerto, que ele foi eleito e reconhecido pelos poderes competentes da República Velha, em 1930.

Analisada pelos critérios de hoje, a reivindicação soa absurda; examinada pelos parâmetros que vigiam à época, quando a eleição se realizou, é mais do que pertinente. Júlio teve sua vitória eleitoral proclamada e foi nessa condição que viajou à Europa e aos Estados Unidos, enquanto esperava o dia da posse.

Nesse ínterim, ocorreu a derrubada da República Velha, urdida pelo governador de Minas, Antonio Carlos e turbinada pela encenação política em que se converteu o enterro de João Pessoa. Vice na chapa de Getúlio Vargas, ele foi assassinado numa visita ao Recife, por conta de um feio episódio em que expôs e enxovalhou a vida íntima de seu adversário político, João Dantas. O incidente somou-se à insatisfação dos políticos com a ordem vigente, a dos “tenentes” que tentavam acabar com a República Velha desde 1922 e, a tardia adesão a ela de Getúlio Vargas desembocou na Revolução de 1930.

Uma análise profunda da questão alicerça, plenamente, a postulação de que Júlio Prestes – a quem Sorocaba muito deve – esteja onde deveria estar há muito: na galeria dos ex-presidentes da República. Existe até um precedente importante: eleito para um novo mandato como Presidente, Rodrigues Alves morreu sem tomar posse, mas ninguém cogita de excluir seu segundo mandato, jamais iniciado, daqueles que compuseram nossa primeira República.

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