São Paulo: mistério e paixão

CARLOS ARAÚJO (Blog Outro Olhar) – O lugar e a época do nascimento marcam o destino do homem. Eu nasci na Freguesia do Ó, zona norte de São Paulo, em 16 de março de 1961. São dados que acompanham todo indivíduo como se fossem códigos de um DNA existencial.

Penso nisso, claro, a propósito do aniversário de São Paulo comemorado nesta segunda-feira, 25 de janeiro. A cidade é tão gigantesca, múltipla, contrastante, que reduz a ideia de identidade a um estado de desconstrução total. E faz a gente se sentir pequeno demais na sua imensidão de ruas e avenidas, de pontes e viadutos, de rios e edifícios, de riqueza e de miséria em estado bruto.

Nascer em São Paulo significou para mim um choque de identifade. Eu poderia ser natural de Paulista, Pernambuco, porque quando nasci  fazia pouquíssimo tempo que meus pais tinham chegado à capital paulista em busca de emprego e vida melhor. Minhas referêncas familiares, históricas, culturais, eram todas pernambucanas e paraibanas. Meus heróis eram Lampião, Antonio Silvino, Luiz Gonzaga, graças às histórias contadas por meus pais e avós. Havia lá em casa toda uma cultura nordestina de tradição familiar. E eu me tornei paulistano de nascimento. Como conciliar a essência da tradição nordestina com a identidade paulistana?

Só resolvi esse choque de identidade quando, aos 11 anos, morei em Paulista por quatro meses e conheci a legião de familiares de meus pais entre Paulista, Abreu e Lima e Itamaracá. Foi como reencontrar códigos perdidos. Mas São Paulo estava dentro de mim. O lugar onde nasci já era uma referência muito forte, um labirinto a ser desbravado.

Aprendi a amar São Paulo na adolescência, época em que perambulava pelos bairros operários em busca de trabalho, nos tempos de desempregado, ou mesmo à toa, para fugir da solidão de uma casa muito pobre, sem atrativos. Dos bairros da Lapa ao Bom Retiro, do Brás à Liberdade, da Mooca ao Tatuapé, do Viaduto do Chá à Paulista, todas essas regiões eu percorri a pé em vários anos de andanças, como se estivesse procurando rumos.

Não há melhor forma de conhecer uma cidade do que percorrer a pé suas ruas, becos, praças, escadarias, avenidas. Você sente o cheiro do asfalto, se move em meio ao cinza da selva de pedra, se perde e se reencontra numa esquina qualquer.

Mais tarde, como repórter do “Estadão”, aprofundei o conhecimento das regiões desta metrópole, vivi e testemunhei muitas histórias, e isso produziu impressões também estranhas. A sensação é de que há várias cidades no conjunto de toda a capital. E não é para menos. Só a região de Santo Amaro, na zona sul, tem população três vezes superior à de Sorocaba.

Um dia, conversando com o amigo Moacir Assunção, também jornalista, a comparação mais imediata que lhe ocorreu foi de que certa vez, ao viajar para o Paraguai, ficou impressionado com o fato de a capital paulista ter população equivalente ao dobro dos habitantes daquele país. Já imaginou?

Em São Paulo a gente encontra muita coisa para curtir e apreciar, mas também se desencontra e se perde por causa do tamanho e da diversidade da capital. E o volume de ofertas existe para o bem, de um lado, e para o mal, de outro, igualmente relacionado à dimensão humana e geográfica. Se é farta e atraente a programação noturna, de restaurantes e diversões, também são grandes os riscos, as ameaças e armadilhas no caminho.

Se a paisagem vista da Marginal do Pinheiros, com a imagem dos prédios refletida na água, encanta por fazer recordar cenários futuristas, o casario típico da periferia nas zonas sul e leste, com moradias a perder de vista numa vastidão panorâmica árida, sem árvores, desnuda o contraste típico de um país desigual. A ponte João Dias, na Marginal do Pinheiros, é um divisor de águas entre dois mundos opostos da cidade.

Outro amigo dos tempos de “Estadão”, Cláudio Augusto, também disse um dia que as melhores coisas de São Paulo acontecem em ambientes específicos, determinados, previamente agendados. Em muitos casos o acesso é gratuito, mas em outros, é caro demais.

De fato, se orientar em São Paulo sem controle prévio do que se quer fazer é se render ao risco de não fazer nada e, na madrudaga, se surpreender na solidão de uma rua escura. Isso já aconteceu comigo várias vezes. Em outras ocasiões, São Paulo é um mistério, um desafio à capacidade da conquista. Com o perdão da metáfora, como se incorporasse os caprichos de uma mulher belíssima, a cidade só se deixa seduzir pelos admiradores que ela sente que estão verdadeiramente apaixonados, perdidos, encantados. Apesar de muitas vezes agir com ingratidão e distribuir castigos, a linda aniversariante merece todos os aplausos e todas as reverências.

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