Das estrelas

Pelas ruas
vazias,
estreitas.
No fundo do meu olhar:
estrelas.
Solenes,
altivas,
eternas.
Se retornasse – penso —
depois de uma eternidade
(a que habita nos meus sonhos)
e revisse a Terra
e as coisas todas da Terra,
talvez ainda
os meus olhos não se quedassem mais
no oco das casas,
no vácuo das ruas,
no frio das pessoas,

senão nas estrelas
senão nas estrelas
senão nas estrelas

Do Sol

“Olha!”
Alguém aponta
um Sol de cartão postal.
As águas do lago, gelatina de morango,
eu sinto: poderia caminhar sobre elas,
brandamente,
sem sequer molhar meus sapatos.
A Terra se inclina, como de costume.
O Sol, silente, por cima do arvoredo,
despede-se:
“Até um dia, meu filho!”
Enquanto eu,
limpando a caspa de meu terno preto,
brilho.

Da Poesia

Olhos,
íris,
as nuvens cinza perscruto.
Íris,
olhos,
minutos…
Calma!
Branda-
-mente
espero: ainda esta noite,
palavras.
Íris,
íris,
espreito. Entre milhares,
uma chance
de tocá-las,
escolhê-las.
“Coração dos minutos, dance!
Sem jamais se importar com horários,
no meu peito
estala o meu…”
Burocratas das palavras
desfolham os seus dicionários,
mas nas páginas-palheiros
as palavras não espetam:
não têm pontas, tais agulhas.

Estrelas!
Estrelas aponta o poeta
e as debulha.

De noite o poeta é Deus.

Imagem: Noite Estrelada, de Vincent van Gogh (1888)

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