Consumido no Brasil desde 1890, quando era vendido em drogarias, o leite condensado volta à berlinda em meio ao festim de gastos do governo federal

MARCO MERGUIZZO – Revelada nesta semana pelo portal da transparência, que por sinal foi tirado do ar pelo governo federal, e amplamente repercutida pela mídia e redes sociais (confira no final deste post uma seleção para lá de divertida de charges e memes), a escandalosa gastança perpetrada por ministérios abrigados na órbita da influência direta do atual ocupante do Palácio do Planalto, na capital federal, numa espécie de ilha da fantasia e bolha distópica, voraz e alheia aos problemas do país. Uma desavergonhada farra à mesa de corar qualquer brasileiro decente. Sobretudo neste momento de grave crise econômica e social, com o desemprego batendo na casa dos 14 milhões de brasileiros, agravados em boa medida pelo cenário global do primeiro ano da pandemia.

Nas redes sociais, um tsunami de memes anônimos: hilário

Itens como leite condensado, chiclete e, piada pronta e pura ironia, alfafa (vale diferenciar aqui e não confundir que é aquele broto que se coloca na salada e não a ração animal) compuseram o carrinho de compras, ao longo do ano de 2020, totalizando absurdos R$ 1,8 bilhão só com alimentação do Executivo e sua entourage de áulicos formada por exatos 4.133 privilegiados funcionários, representa um gasto diário de 1.193,20 reais por pessoa. Sairia mais barato se todo mundo fosse comer no luxuoso e proibitivo Fasano, em São Paulo (não, não vou dar essa ideia, taoquey?)

E o grande escândalo é que aumentou-se tais gastos em 20% em relação a 2019. Isso considerando que, em 2020, houve menos recepções e muita gente fez home office. Sem contar ainda que boa parte saiu de férias ou tirou folga.

Uma vez mais chamou atenção os preços superfaturados desses produtos, uma história recorrente na triste história desse pobre país. É intrigante e inexplicável que exista no relatório, por exemplo, o valor de R$ 1.042.974,22 destinado à compra de alfafa, tal broto que muitos veganos e naturebas apreciam e gostam de botar em salada. Num país que está na pindaíba, o governo federal consome, por dia, na média, R$ 2.857 com alfafa. Só de chicletes foram consumidos R$ 2.203.681,89. Com esse dinheiro, é possível comprar 4.429.509 tabletes do popular Trident ao preço de R$ 1,99 — média de consumo diário de 12.135 tabletes. Ou seja, haja dentista no DF para dar conta de tantas restaurações e correções ortodônticas.

Sim, é muita, muita grana mesmo, um montanha, um Pico da Neblina de dinheiro público! Desses desembolsos com a comilança chamaram especialmente atenção da opinião pública, claro, o leite condensado, um “item de luxo”, digamos, para boa parte da população brasileira. O governo, essa entidade perdulária e sem rosto que busca manter estilo de vida e mordomias palacianas, independentemente de suas cores partidárias, consumiu 3,1 milhões de latas de condensado, desembolsando a bagatela de R$ 15 milhões.

Ou seja, enquanto gastamos 5 reais no supermercado por uma lata de Leite Moça, “setor de compras” do Brasil S.A. pagou 162 reais ou 32 vezes mais caro. Essa conta melada da farra do supermercado- ou melhor, salgadíssima – é de causar uma crise hiperglicêmica e de moral – e não só a diabéticos.

Noves fora polêmicas e escândalos governamentais, sabe-se que o cultuadíssimo leite condensado – matéria-prima basilar do nosso festejado brigadeiro – é um item presente à mesa nos lares brasileiros desde a segunda metade do século 19. Vendido no Brasil, nos seus primórdios, curiosamente em drogarias, existem registros de que este produto de origem francesa mas desenvolvido comercialmente pelos americanos já era encontrado por aqui, em 1871, como atesta um anúncio à época publicado no “Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial da Corte e da Província do Rio de Janeiro”.

Com a lata na cabeça, o leite da moça campesina

Segundo registros bibliográficos, a primeira técnica para se produzir leite condensado que se tem notícia teria surgido em 1827, no interior da França, de modo artesanal. O produto originalmente gaulês só passou a ser fabricado em escala industrial, três décadas mais tarde, graças ao norte-americano Gail Borden Jr., que patenteou o processo em 1867.

A intenção era utilizar a evaporação para reduzir o volume do leite e aumentar a sua durabilidade, pois naquela época — sem geladeiras nem processo de pasteurização — era comum que esse alimento estragasse antes de chegar aos consumidores.

No entanto, o leite condensado só foi ficar famoso mesmo durante a Guerra de Secessão nos EUA — que ocorreu entre 1861 e 1865 —, depois de se tornar um dos alimentos fornecidos aos soldados. As latas eram práticas e fáceis de transportar e representavam uma excelente fonte de energia, já que cada porção contava com 1.300 calorias.

Rótulo (em inglês) de leite condensado: desde os inícios, a icônica mocinha com a lata de leite na cabeça virou marca registrada

Transportando leite em pó e leite condensado para as tropas – e depois colocando esses produtos no mercado, Borden ficou rico. Mas foi somente alguns anos mais trade, em 1867, que surgiu a primeira indústria criada especialmente para a produção comercial do leite condensado.

Foi quando o americano George H. Page, proprietário da empresa Anglo Swiss Condensed Milk iniciou na cidade suíça de Cham a fabricação de leite condensado, utilizando o leite abundante e de boa qualidade produzido no país. Rapidamente o produto fez sucesso na Europa, principalmente entre as mulheres, que reforçavam a alimentação de seus filhos dando-lhes o energético e açucarado leite condensado.

De ração militar a alimento de toda a família
Leite Moça: panaceia nutricional e gastronômica

A Sociedade Nestlé, por sua vez, iniciou a fabricação de leite condensado logo a seguir. Essa concorrência entre as duas empresas terminaria em 1905 numa fusão que deu origem a Nestlé & Anglo Swiss Condensed Milk Co.

A jovem com trajes típicos que aparecia nos rótulos das embalagens do produto era uma camponesa suíça do século XIX. Naquela época, o leite condensado mais popular da Suíça tinha a marca La Laitière, que significa “vendedora de leite”.

Propagandas dos anos 1940 e 50 (Bancos digitais gratuitos)

Quando esse leite foi exportado para outros países, procurou-se um nome equivalente na língua de cada região para onde o produto foi levado, nome este sempre associado à figura da camponesa típica com seus baldes de leite. Em espanhol, por exemplo, foi adotada a marca La Lechera e, na língua inglesa, o seu sucedâneo Milkmaid.

Leite Moça: vendido, nos seus inícios, em drogarias de todo o país

Os primeiros carregamentos de leite condensado chegaram ao Brasil em 1890 como uma alternativa ao leite fresco, cujo abastecimento era problemático. O produto era vendido nas drogarias e, inicialmente, comercializado com o nome de Milkmaid, chamado assim pela falta de uma palavra equivalente em português. Mas os brasileiros tinham dificuldade para pronunciar o nome inglês e passaram a chamar o produto de o “leite da moça”, referindo-se à ilustração da camponesa no rótulo. Assim nasceria o Leite Moça.

Com o fim dos conflitos, a “felicidade enlatada”, como ficou conhecido o leite condensado, acabou saindo dos campos de batalha e chegando aos mercados – e foi apenas uma questão de tempo até o produto conquistar o mundo inteiro, incluindo o Brasil.

Sabe-se que ele foi inventado para esterilizar a pré-refrigeração do leite e tornou-se indispensável em tempos de guerra, em especial durante a Guerra da Secessão americana e nas Primeira e Segunda GGs Mundiais. Sobretudo nesta última, criou-se um déficit de importações de produtos essenciais, como frutas e castanhas, daí os doces passaram a ser feitos com o que havia disponível.

No Brasil, o leite condensado integrou a dieta dos pracinhas da Revolução Constitucionalista de 1932 (veja, acima, uma propaganda histórica do Leite Moça veiculada naquela época). A produção era oriunda de uma fábrica da Nestlé – a primeira do país -, construída no início da década de 1920, em Araras, no interior paulista.

Linha do tempo

Um século e meio de gostosuras

Embora existam inúmeras marcas e mais baratas hoje nas gôndolas, o Leite Moça – uma espécie de highlander culinário, cujo rótulo mudou muito pouco em 151 – continua sendo o campeão das preferências das donas de casa, mamães, vovós, confeiteiros profissionais e amadores, doceiros e doceiras de plantão

De clássico caseiro a surfista da onda gourmetizante
Brigadeiro, o original: gosto e afeto inconfundíveis de mãe e de avó

Feito de leite condensado, chocolate em pó e manteiga para ser moldado com as mãos sob a forma de uma bolota salpicada de chocolate granulado – o brigadeiro se popularizou na década de 1940, quando o racionamento tornou o leite condensado um substituto comum para sobremesas.

Ou seja: lá se vão quase 80 anos em que essa tentação ultrapopular é festejada por pessoas de todas as idades e classes sociais. Clássico desde então da doçaria caseira brasileira, essa unanimidade à mesa ganhou, nos últimos anos, uma série de reinterpretações.

Pior, porém: na tentativa de sofisticá-lo e por puro modismo, o caseiríssimo doce começou a surfar em inúmeras e por vezes bizarras ondas de releitura gourmetizadora, descaracterizando a sua originalidade, que, afinal, é, em sua essência, o de encantar o paladar e, de quebra, confortar a nossa alma.

Base do brasileiríssimo brigadeiro, o leite condensado é uma deliciosa e doce invenção de duros tempos de escassez

Nada elitista, porém, em seus primórdios, as mulheres vendiam essa irresistível tentação, que tinha gosto e afeto de mãe e de avó, para turbinar a campanha do candidato à presidência, o brigadeiro Eduardo Gomes, na primeira eleição nacional na qual o voto feminino começou a valer.

Como se sabe, as mulheres começaram a se unir pela igualdade ainda no século 19. Os esforços de entidades sufragistas, como a Federação Brasileira Pelo Progresso Feminino, liderada pela cientista, política e delegada da ONU, Bertha Lutz, ganharam força quando as mulheres conquistaram o direito ao voto na Europa e nos Estados Unidos. Após décadas de luta, as brasileiras enfim a obtiveram em 1932.

Fotos: Bancos digitais gratuitos

No entanto, havia restrições: apenas as casadas tinham permissão de seus maridos para votar bem como as viúvas. Isso afetou a participação política das mulheres, já que a extensão do voto às mulheres no Brasil era também uma maneira de incluí-las na esfera pública, garantindo à iniciativa privada não sofrer nenhuma perda. Graças aos esforços contínuos na luta pela igualdade, o voto tornou-se obrigatório a todos os brasileiros, independentemente do sexo, entre 1945 e 1946.

De militar galã a postulante do Planalto

Não fosse o ingresso do brigadeiro Eduardo Gomes (1896-1981) na política, a guloseima-símbolo de toda festa de aniversário de criança que se preze não existiria. Eduardo Gomes era um militar da Força Aérea do tipo galã. Tinha musculatura trabalhada pela educação física, boca pequena, rosto oval e nariz aquilino. Assim, relata-se, foi cortejado pelas garotas de Petrópolis, a cidade serrana do interior fluminense onde nasceu e viveu namoros furtivos.

À mesa e nas urnas: “Vote no Brigadeiro. Além de bonito, é solteiro.”

Sabe-se que Eduardo Gomes entrou na política, unindo-se contra o populismo e se tornou o rosto de um movimento destinado a desmantelá-lo. Em 1945, enquanto concorria à presidência, também demonstrava que não estava comprometido. Um dos slogans de campanha era: “Vote no brigadeiro, que é bonito e solteiro”. 

Entre as ações heroicas do brigadeiro – ele participou da Revolução de 1924, em São Paulo, e lutou contra a Intentona Comunista, em 1935 –, está a sua ação na Revolta dos 18 do Forte de Copacabana em 1922. Empunhando uma espingarda e um pedaço da bandeira nacional, ele e alguns poucos militares marcharam pela orla carioca em direção aos 3.000 soldados do governo de Epitácio Pessoa, que se opunha ao ideal democrático desejado por setores de baixa patente das Forças Armadas.

À mesma época, nascia a União Democrática Nacional (UDN), partido político conservador que se opunha ao regime populista de Getúlio Vargas, no final do Estado Novo. O primeiro candidato à presidência do novo partido foi Eduardo Gomes. Antes de sua candidatura, o militar já era famoso no Brasil.

Conhecido como “o Brigadeiro”, ele participou de um movimento liderado por tenentes que defendiam reformas sociais. Em julho de 1922, um grupo liderou uma revolta no Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro. Quase todos foram mortos a tiros na praia, exceto Gomes e Antônio de Siqueira Campos.

Alvejado por um tiro de fuzil, Eduardo Gomes foi internado, preso e excluído da carreira militar (que seria retomada anos depois). Após o seu retorno, o revolucionário exercitou a sua porção democrática até o fim. Ele foi duas vezes ministro da Aeronáutica, implantou o Correio Aéreo Nacional, um dos fatores de integração do País, e se tornou o patrono da Força Aérea Brasileira (FAB).

Já cinquentão, em sua primeira campanha presidencial, um grupo de cariocas criou especialmente para ele um doce feito de chocolate e leite condensado e passou a vendê-los nos comícios para levantar fundos para a sua eleição. Não por acaso, a iguaria recebeu o nome de sua patente: brigadeiro. Suas admiradoras ainda assinariam um marcante slogan: “Vote no Brigadeiro. Além de bonito, é solteiro.”

Seja como for, pode até ser que o brigadeiro tenha sido inventado antes até dos anos 1940, mas a Nestlé só passou a comercializar o chocolate em pó no Brasil naquela década. Juntamente com a candidatura de Eduardo Gomes, os anúncios publicitários da empresa ajudaram a novidade a decolar.

Embora os apoiadores de Gomes tenham consagrado o doce, os votos para o Brigadeiro Eduardo Gomes não foram suficientes para ele vestir a faixa presidencial, já que ele perderia a eleição para Eurico Gaspar Dutra (1883-1974). Mas a devoção pelo leite condensado e a reverência pelo cobiçado brigadeiro eternizaram-se e duram até os dias de hoje. 

Galeria de Humor

Uma seleção das melhores charges e memes que circularam na Imprensa e redes sociais nesta semana
Charge / Crédito: Luiz Carlos Fernandes
Charge / Crédito: Gilmar Machado
Charge / Crédito: Renato Aroeira
Charge / Crédito: Luiz Carlos Fernandes

Charge / Crédito: Jota Camelo
Charge / Crédito: Gilmal – Cartunistas pela Democracia
Charge / Crédito: Kleber Sales

Charge / Crédito: Marcio Vaccari
Charge / Crédito: Marcio Vaccari
Charge / Crédito: Guto Respi
Charge / Crédito: Sensacionalista

(Meme / Crédito: Anônimo)

MARCO MERGUIZZO 
é jornalista profissional 
especializado em gastronomia, 
vinhos, viagens e outras 
coisas boas da vida. 
Escreve neste coletivo 
todo domingo. 
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