Futebol em transe

Na sua mais longa edição, o Palmeiras conquistou seu segundo título na Taça dos Libertadores ( como dizem os portugueses) enfrentando o tradicionalíssimo Santos. Os dois times contavam com vários jogadores ” da base”. Mas com uma sutil e crucial diferença: o Santos o fazia por necessidade econômica e o Palmeiras por opção tática e técnica do interino Cebola e depois do técnico Abel Ferreira.

Poster Oficial. Fonte R7


O treinador português Abel Ferreira está em seu 3° ano como técnico e 4° time, mesmo assim conquistou o título mais importante da América Latina em sua primeira final disputada. Desde a chegada ao Brasil em fins de outubro mostrou-se um profissional estudioso, tanto do futebol quanto dos adversários. Humilde, reconheceu a péssima partida contra o River na semifinal, incluindo aí o fato de considerar-se inferior ao técnico argentino, algo impensável entre as “prima donnas” que povoam nosso futebol.

Abel Ferreira comemora o título. Fonte: Uol


Iniciou o jogo final mais recuado, oferecendo espaços ao Santos, para buscar os contra-ataques fulminantes. O time da Vila Belmiro não se arriscou muito. Foi jogo brigado, com muito respeito e marcação dos dois lados. No segundo tempo, o time de Cuca ( técnico do Santos) continuou igual, buscando lampejos do novo “craque” santista, o jogador Marinho. Nada. Até porque Marinho foi triturado por outro jovem, o Danilo palmeirense. O meia alviverde desarmou quase todas as jogadas tentadas pelo santista e sem jamais fazer falta. Mas os jornalistas brasileiros só comentam ” Marinho apagado”. Em verdade, ele foi anulado por um jovem jogador de defesa. A tradição de futebol ofensivo dificulta o reconhecimento de um atleta de defesa no Brasil. Marinho exagerou nas firulas como Robinho, caiu todas as vezes em que foi desarmado, como Neymar. Ao que tudo indica, os ex-ídolos santistas não deixaram boas lições.

Aos 35 minutos do segundo tempo ( contando os acréscimos foram mais 18 minutos de jogo), Abel Ferreira adiantou a marcação e começou a sufocar o Santos. O lance de Cuca tentando atrapalhar um contra-ataque palmeirense ( que terminou com sua justa expulsão, seguida de um desrespeito a regra ao pular aos ” braços do povo”) não foi algo inusitado, foi parte de uma estratégia de um time que apenas aguardava a prorrogação e talvez as penalidades. Vide o irritante goleiro John que levava uma eternidade para repor a bola toda vez que a mesma chegava na área. Talvez por isso o excelente árbitro argentino tenha dado 8 minutos de acréscimo. O corajoso técnico português ainda tirou um meia defensivo para colocar mais um atacante no Palmeiras. Um rapaz vindo da série B, alto e veloz. Logo após, num lançamento perfeito do ex-linchado por imprensa e torcedores, o artilheiro Rony, a bola encontrou Breno Lopes que antevendo todo o lance e o movimento necessário, cabeceou ” olhando a bola e o gol”. Golaço que lembrou os de antigo ídolo palmeirense dos anos 70, o atacante Leivinha. Vitória palmeirense há 2 minutos do final. Título para o time com melhor campanha no torneio, como adoram os jornalistas.

Abel Ferreira superou outro ícone do Palestra Itália. Felipão dirigiu o time na edição de 1999. Numa campanha regular, o time medroso do Palmeiras perdeu 4 e empatou 3 em 14 partidas ( Abel só perdeu para o River). O time de Felipão jogava para perder de pouco ou empatar fora de casa para depois tentar reverter o placar no jogo da volta. Marcos salvou contra o Corinthians. Na semifinal, se não fosse a noite genial de Alex, o time seria eliminado pelo…River ( as coincidências de 99 e 2020). Na final, contra um inferior Deportivo Cali, o time penou até o final da partida e prorrogação e só venceu por conta dos 2 pênaltis perdidos pelos colombianos. Felipão se arvora como super técnico. Ganhou a Copa de 2002 com um elenco de 5 jogadores espetaculares. Foi para o Chelsea e se recusou a aprender inglês. Não ficou nem uma edição da Premier League. Passou por Portugal e perdeu uma Eurocopa em casa. No ostracismo foi parar no Cazaquistão, depois encheu o bucho dirigindo um time chinês, algo semelhante a ser treinador de uma equipe de basquetebol de Hobbits. Em 2012, dirigindo o Palmeiras, abandonou o Brasileiro para conquistar a Copa do Brasil. Conquistada a Copa, quando tentou recuperar o time na competição nacional e viu que não conseguiria, pediu demissão faltando 5 rodadas. O time foi rebaixado por conta da “estratégia ” do admirador de Pinochet. Dois anos depois veio a maior humilhação de nosso futebol: o 7 a 1 para a Alemanha. Feito que até hoje o técnico mau caráter não assume como responsabilidade sua. Este ano, outro episódio da sem vergonhice do gaúcho: assinou um contrato de 2 anos e abandonou o Cruzeiro faltando 3 rodadas para o final, ao perceber que entraria para a história como o técnico do primeiro time grande brasileiro a não conseguir subir para a série A. Felipão é uma farsa.

Muitos andaram dizendo que Luxemburgo montou o time vitorioso do Palmeiras. Luxa tem qualidades como técnico, mas não tem humildade de aprender e reconhecer que todos nós devemos sempre nos atualizar. Luxa é Deus. Em várias entrevistas repete que ele criou o futebol moderno. Ele não montou o time, ao contrário, foi demitido exatamente por isso. Não usava a ” base”. Teve 4 meses para organizar o time, por conta da Pandemia e conseguiu a proeza de piorar o time. Um técnico cogitado pelo Palmeiras na demissão de Luxemburgo foi Fernando Diniz que vivia uma má fase no São Paulo em setembro. Ele organizou o time, teve uma sequência brilhante, massacrou o Flamengo duas vezes, triturou o Palmeiras e goleou o milionário Galo de Sampaoli. Demonstrou ser um jovem promissor. É necessário lhe dar tempo e elenco. Os títulos virão. Telê ganhou seu primeiro campeonato em 1971 e o segundo em 1992!! Entretanto acredito que a cultura da vitória sempre irá imperar, talvez ele não resista nem a publicação desse texto.

Fernando Diniz. Fonte Uol

Somos imediatistas no futebol. Ou se é campeão, ou o técnico cai fora. Muitas das vezes, uma sequência de derrotas é suficiente para derrubar um treinador. Pergunto: que empresa nacional ou estrangeira resistiria a trocas constantes no comando? Nenhuma, claro. E o futebol brasileiro, mesmo com migração permanente de jogadores. Hoje temos mais de 500 fora do país e destes, pelo menos uns 150 estão entre os melhores futebolistas do Brasil, na prática temos 12 times brasileiros jogando no exterior. Ainda assim temos um mundaréu de bons jogadores por aqui. Isto faz com que o Campeonato Brasileiro seja o mais disputado e difícil do mundo. Nos últimos 20 anos, por exemplo, 11 times diferentes foram campeões. Junte a esta lista o Atlético ( MG) e o Botafogo que vivem uma seca de títulos, mas em várias edições tem times competitivos. Em resumo, o Brasileirão sempre terá pelo menos 13 equipes brigando pela glória. Como desenvolver um trabalho a longo prazo pensando nisso? ” Olha senhor técnico, vamos assinar um contrato de 5 anos. Queremos 1 título importante nesses anos e a construção de um padrão tático “. Essa proposta seria tratada como piada no Brasil, ao que parece com a exceção do Grêmio que mantém Renato no comando do time há 4 anos. E o resultado é excelente. O Grêmio ganhou uma Libertadores, brigou pelos títulos do Brasileiro nos 4 anos, ganhou uma Copa do Brasil e dois gaúchos. Além disso, tem um estilo próprio e inconfundível de jogo.

Logotipo antigo e o polêmico novo da Juve. Fonte: Wikipedia

Comparemos com o exterior. Nas duas últimas décadas somente 4 times venceram o Campeonato Espanhol e mesmo assim, Barcelona e Real venceram 17 das 20 edições. Coisa mais chata. Parece torneio de casados e solteiros. Na Itália a Juventus venceu 12 campeonatos nas duas décadas, Só mais 3 equipes levantaram o título. Há 9 nove anos só a Juve é campeã. Não há campeonato. Somente um torneiozinho pra vender ingressos. A exceção é a Premier League, com 6 times diferentes em 20 anos. ( lembre que por aqui foram 11, quase o dobro). Em Portugal e França são 3 times sempre. Outro país em que não há mais campeonato é a Alemanha. O Bayern de Munique ganhou 15 títulos dos últimos 20. Sendo que os últimos 8 campeonatos foram na sequência. Aliás, o time da terra onde Hitler iniciou sua carreira política montou uma verdadeira seleção mundial. Na Bundesleague de 2019 venceu o torneio com 9 rodadas de antecedência. Faltavam 9 jogos dos 38, ou seja, o Bayern de Munique estava 28 pontos à frente do segundo colocado em 29 rodadas. Na prática era como se o time do melhor jogador do mundo, o polonês Levandowski, conquistasse um ponto a mais por rodada de cada time alemão. O predomínio é tão absurdo que o time venceu a Champions de 2020 com 11 vitórias e 44 gols, incluindo um massacrante 8 a 2 no poderoso Barcelona. É esta seleção mundial que os pobres e jovens meninos brasileiros enfrentarão no Mundial de clubes. Claro, se passarem pelo forte e perigoso Tigres do México. A participação do Palmeiras reconduz o time a um Mundial que lhe foi roubado ( o de 2001). Coincidência também que será exatos 70 anos após a conquista que o clube e os dirigentes da FIFA consideram como primeiro campeonato mundial, mas que por interesses comerciais jamais botaram nos dados oficiais do site. Na bolsa de apostas eu cravaria 11% de chance do Palmeiras vencer ( o Flamengo tinha 65% de vencer o Liverpool ano passado). O que pode ajudar o Palmeiras é o fato de ser 90% azarão, de ter uma molecada com fome querendo o estrelato e ter um Bayern de Munique sem motivação, primeiro porque o título pouco vale na Europa e segundo pelo prêmio ser irrisório ( $ 5,5 milhões de reais). Normal será a derrota do Palmeiras. Possível até com um placar elástico. Mas é óbvio que torcerei pelo Palmeiras e sei que uma Vitória seria fantástica para nossa auto-estima.

Propaganda do Bayern de Munique. Página oficial da Champions League

Duas coisas parecem dar um alento ao ultrapassado futebol brasileiro: um foi o resgate da ” base”. A aposta em jovens com identificação com o clube de formação para a conquista de títulos. A outra foi a chacoalhada que os técnicos estrangeiros deram em nossos profissionais. Jorge Jesus, Sampaoli, Abel Ferreira serviram como um contraponto à mediocridade reinante anteriormente a eles. Muitos técnicos brasileiros estão se atualizando, faltam agora nossos jornalistas esportivos e seus chavões e teimosias. Tão arcaicos quanto aqueles que eles acusam. A terra brasileira está em Transe.

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