Escuta Zé Ninguém e a função do orgasmo

Frederico Moriarty

Vocè é um “zé-ninguém”, um “homem comum”. Reflita sobre o duplo sentido dos termos “pequeno” e “comum”. Não fuja! Tenha a coragem de olhar para si mesmo! “Que direito você tem de me passares sermão?”, é a pergunta que vejo nos seus olhos assustados. É a pergunta que ouço na sua língua insolente, zé-ninguém. Você tem medo de olhar para si mesmo, zé-ninguém, tem medo das críticas e tem medo do poder que lhe está prometido. Que uso irá fazer desse poder? Você não sabe. Tem medo de pensar que você mesmo – o homem que você sente que é – possa um dia ser diferente do que é agora: livre em vez de intimidado, sincero em vez de manipulador, capaz de amar, não como um ladrão no meio da noite, mas em plena luz do dia. Você se despreza, zé-ninguém. Você diz: “Quem sou eu para ter opinião própria, governar minha vida e achar que o mundo é meu?” Tem razão: quem é você para reivindicar sua própria vida? Vou lhe dizer quem você é. Você difere de um grande homem sob apenas um aspecto: o grande homem foi um dia um zé-ninguém, mas desenvolveu uma única qualidade importante. Reconheceu a pequenez e a estreiteza dos seus atos e pensamentos. Sob a pressão de alguma tarefa à qual atribuía grande significado, aprendeu a ver como sua pequenez, sua insignificância, punha em risco sua felicidade. Em outras palavras, um grande homem sabe quando e de que forma ele é um zé-ninguém. Um ninguém não sabe que é pequeno e tem medo de saber. Esconde sua insignificância e estreiteza por trás de ilusões de força e grandeza, da força e da grandeza de alguma outra pessoa. Sente orgulho dos seus grandes generais, mas não de si mesmo…

Capa do livro

O trecho acima pertence ao livro Escuta, Zé-Ninguém!, do psiquiatra Wilhelm Reich. Aluno de Freud nos anos 20, o médico alemão terminou por discordar do mestre e levar além a questão da sexualidade e do sexo. Suas posições políticas – Reich era comunista – também o afastaram do fundador da psicanálise. Freud relacionou a neurose à sexualidade reprimida. Consciente, a contenção do prazer poderia ser ligada a uma vitória do Ego, impondo sua rigidez de caráter à personalidade do indivíduo. Outra forma seria a pulsão pela morte. Teríamos um impulso autodestrutivo que nos levaria dos extremos de prazer ao esgotamento do corpo e à morte, representada pela figura do Deus grego Tanathos. É o oposto do Deus Eros.

Freud era pessimista, acreditava que as neuroses sempre existiriam. O segredo estaria em reduzi-las ao máximo e aí entraria a psicanálise, como a ciência da “cura” ao permitir que reordenássemos nosso mundo e entendêssemos nossos processos internos e nossos desejos inconscientes. Um eterno equilíbrio entre as ladeiras e aclives da vida. O desequilíbrio pode levar à morte, como retratado no filme O Império dos Sentidos. Nagisa Oshima conta a história de uma ex-prostituta que inicia um encontro casual com o senhorio onde trabalha. Aos poucos, a atração sexual vai consumindo os dois que abandonam tudo em nome do prazer. Mas, à medida que o sexo os consome, o prazer se torna mais difícil, o casal passa por sadismo, masoquismo, imolações, até chegar ao duplo homicídio. De Eros a Tanathos.

O casal de Império dos Sentidos (1976)

Reich decidiu negar o tutor. Sexo é bom. Orgasmo melhor ainda. Em verdade, os orgasmos podem ser o melhor remédio contra as neuroses. Freud abriu as portas do inferno, ou o inconsciente humano. Reich decidiu se esbaldar nas labaredas e fogo das profundezas. Com ele desenvolveu-se a tese da natureza do orgasmo. De natureza dupla: psíquica e biológica. Foi o primeiro estudo científico do orgasmo, aceitem-se ou não suas teses. Segundo o alemão, o orgasmo é uma somatória de impulsos elétricos e mecânicos, com uma diversidade de consequências biológicas como a liberação de energias negativas do corpo, das tensões, das neuroses, das endorfinas, além da melhoria da respiração, da irrigação sanguínea e da oxigenação do cérebro.

Sem distinção dos diversos gêneros, todos podemos gozar. E a questão psíquica? Está na origem e no final. Os dois seres (ou mais) em relacionamento sexual precisam estar livres de amarras, desligarem seus egos, mandarem seus superegos à putaqueospariu, para aflorarem em desejo e assim bombearem sangue pelo corpo todo, ficarem eretos, úmidos, sensíveis, na prática: com tesão! Está aí o princípio do movimento biológico. Na explosão final, quando soltamos o grito primal de prazer (claro, quando o sexo foi prazeroso), nosso corpo se despedaça, se desfaz feito água, se derrete com o calor e a energia, como dizia Reich.

Reich e sua máquina de tratamento, o Orgonon. Fonte: G1

Morremos sem precisar nos matar. Tanathos não é o oposto de Eros, é a consequência de levarmos nosso prazer ao limite. Reich chegou a calcular nossa capacidade orgástica como algo entre 15 a 30 mil em toda vida. Ou seja, um ser humano com vida sexual ativa teria de transar todo dia com orgasmos por no mínimo 65 anos seguidos. Quase impossível. Sorte das mulheres que têm orgasmos múltiplos. No fim da vida, ele criou uma máquina acumuladora dessa energia sexual reprimida, o Orgonon. Talvez seja a maior crítica a sua obra, pois jamais se provou a eficácia da máquina. Os beatniks Jack Kerouac e Willian Burroughs fizeram grandes elogios ao Orgonon, mas o tratavam como uma espécie de ayahuasca. No filme Sleepers (1976), Woody Allen é congelado e acorda em 2176. Numa cena, ele foge com Mia Farrow e acabam dentro de uma máquina de orgasmo do futuro. Uma clara homenagem a Reich.

Porém, se limita apenas ao aspecto mais conhecido e polêmico da máquina/ caixa Orgonon, a liberação da energia sexual. Mas o Orgonon era mais do que isso, era um acumulador do orgone. Este é o princípio vital contido em todas as coisas vivas, não apenas no sexo. O orgone seria a energia pulsante do universo, presente em tudo e todos. Reich foi difamado como cientista, seu Orgonon tratado cruelmente como se fosse um apetrecho de sex shop. Sim, a humanidade precisa continuar cega para viver. A verdade é dolorida, como nos alertava Platão no Mito da Caverna. Quando o homem se liberta dos grilhões e volta à caverna contar o que é o mundo real, ele é morto pelos irmãos. Preferimos o mundo das Sombras.

Premonitório? Allen passeia em frente uma lanchonete em 2176. Fonte: Sleepers, United Artists.

Reich caiu no ostracismo e desespero no fim da carreira em 1957 (aos 60 anos). Mas suas teses e obras ficaram e foram essenciais para a revolução sexual que viria depois, para a libertação feminina, para as necessidades das minorias excluídas por sua opção, orientação, desejos e prazeres. Sexo livre, amor livre, a pauta de gêneros, sexo tântrico, poliamor e muito mais, são devedores do titio Wilhelm. Sua visão de orgasmo, de suas múltiplas funções e possibilidades, é incontestável. E ainda hoje difícil de aceitar, como vemos nas falas da ministra Damares e de milhões de pessoas no mundo. Sexo pra eles só depois do casamento, papaiemamãe, azul e rosinha e tudo de roupinha.

Desenho de Reich sobre o orgasmo. A sinuosidade esta presente

E o Zé-Ninguém?, você deve estar se perguntando. Foi outro problema de Reich, o comunismo. À medida que suas teorias avançavam, o partido comunista começava a lhe tecer críticas. Reich era pequeno-burguês! Sua libertação não era a dos povos oprimidos, mas apenas de caráter individualista e até depravado. Ou seja, à direita ou à esquerda, o problema era o mesmo: sexo. A incapacidade do ser humano em lidar com seu inconsciente, de trabalhar suas neuroses, de gozar sem pudor, coloca ao mesmo lado os opostos políticos.

Escuta, Zé-Ninguém! é um manifesto de 60 páginas, um grito de libertação de um cientista incomodado pela caretice de duas faces (a fascista e a comunista). Ele não critica a “massa” de trabalhadores”, o “povinho” pobre e excluído, nem somente a classe média ou a elite. Reich foi mais fundo, captou um desejo inconsciente de criarmos as nossas próprias prisões.

Somos aprisionados ao trabalho, ao patrão, ao salário, às mercadorias que consumimos. Somos escravos de uma educação e pedagogia falhas e excludentes e a reproduzimos em nossos filhos. Criamos correntes para nos manter firmes em famílias destroçadas, egoístas e pérfidas. Não deixamos de lado nossa fé, nossa igreja, nosso(s) Deus(es). Metemos uma bola de ferro nas pernas pra nos impedir de mudar de ideia, de conhecer o novo, de experimentar os gozos e prazeres. Queremos sempre ter a certeza, queremos sempre não nos arriscar, a não ser nessas viagens de turismo pra escalar o Himalaia. Sexo livre? Só em novelas ou nas alcovas subterrâneas e de preferência com identidade falsa.

Abandonamos o sonho de ser escritor para ser um executivo. Deixamos de ser artistas para sermos o bom moço da vizinhança. Somos o homem e a mulher média que só faz aquilo que deles se espera. Para apagar a dor dessa existência sem vida, nos drogamos. Nunca se bebeu tanto vinho, uísque, cerveja quanto nessas três últimas gerações. Existem drogas pra ter dor, passar a dor, passar a depressão, subir o pau, relaxar a vagina. Remédios pra todo tipo de doença de caráter e origem claramente psicológicos.

Vocês já perceberam a quantidade de farmácias (ou drogarias) que existem perto de suas casas? E como elas são parecidas com aquelas lojas gigantes de doces do passado? Fileiras e fileiras com caixas coloridas para todos os tamanhos, gostos e desejos de ficar “são” sem precisarmos de horas de terapia. O mundo tem pressa. Pandemia? Tasca logo cloroquina, ivermectina, vermífugo. As velhas drogas proibidas continuam proibidas. Até quando vai durar essa incoerência? Ah, nada com um bom vinho no almoço, um Prozac à tarde e um Viagra antes de deitar. Prazer químico. Só dessa forma podemos apagar nossa incapacidade em sermos livres, em gozarmos 30 mil vezes como queria Reich.

Escravos da vontade dos outros. Toca Raul!

E qual o perigo dessa sociedade de fake news? Qual o medo de sermos na grande maioria os Zé-Ninguéns? Não está apenas em sermos neuróticos, em sermos agressivos, egoístas no dia a dia, em não demonstrarmos empatia, em ver tanta gente comemorando a Quarentena pois ela permitiu que ficássemos excluídos do convívio social, hoje algo doentio e pérfido.

Os fascismos de novas e velhas caras nos dominam, pois somos escravos que nos entregamos à prisão por vontade própria. Vamos sempre usar o sapato errado imposto pelos nossos pais, como cantava Raul Seixas. Esse mundo tão caótico e distópico nos levará a uma sociedade que só terá orgasmos nos Orgonon. O ser social de Reich não se desprende do ser psíquico. A repressão política e econômica é parte inerente de nossas neuroses. Não se liberta quem prefere viver em escravidão.

(A imagem que abre este texto é de Debret. Nela vemos como é terrível ser escravo contra nossa vontade. A atrocidade dos 350 anos de escravidão jamais será apagada. A história de luta e resistência negra é maravilhosa, mas pouco lembrada. Infelizmente, preferimos contar a história dos Zé-Ninguém, os tumbeiros de si-próprios.)

2 comentários em “Escuta Zé Ninguém e a função do orgasmo

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