Os pãezinhos do Seu João Padeiro

Lucy Rocha

Devia ter uns 5 ou 6 anos quando vi meu pai fazendo pãozinho pela primeira vez. Ele trabalhava na madrugada, mas era danado, saia do trabalho e algumas vezes parava no boteco ao invés de vir direto para casa descansar. Quando minha mãe achava que não tinha dormido o bastante e podia cochilar no serviço, acabando por queimar o pão, mandava um de nós para vigiar.

Meu pai era mestre, fazia pão do zero. Lembro com riqueza de detalhes cada passo daquele processo. Trigo, água, sal e fermento na masseira. Depois, a pesagem de cada porção de massa porque, como à época eram vendidos por unidade, por lei, um pãozinho nunca podia pesar menos de 50 gramas. Pesadas, as porçõezinhas passavam por um cilindro e saíam do outro lado em rolinhos que ele ia enfileirando, um a um, sobre uma longa régua de pouca largura. Enfileirados, passava rapidamente a navalha em cada um deixando aquele corte característico. Então, com uma maestria absurda, os equilibrava para dentro do forno a lenha, puxando a régua num movimento tão rápido que os pãezinhos continuavam enfileirados lá dentro. Como por encanto, os caracoizinhos brancos cresciam, douravam e saíam do forno estalejando de tão crocantes, enquanto o cheiro que escapava pela chaminé da padaria acordava o bairro às 6 da manhã como um despertador generoso.


Como um mago desajeitado, meu pai fazia aquela alquimia toda e eu, pequenininha como era, achava que ele era um gigante que sabia segredos mágicos sobre farinha de trigo. Refletindo, acho que foi dali que peguei minha paixão por assar bolos.

Quatro décadas se passaram e me dou conta de que ele devia ter mais ou menos a idade que tenho agora e, portanto, era ainda um menino. Talvez por isso precisasse tanto da atenção constante da minha mãe, adulta desde criança.

Hoje, saudosa de meu pai coberto de farinha e de seus pãezinhos crocantes e quentinhos que pesavam precisamente 50 gramas, parei na padaria para comprar pão, mas, na era dos pães pré-fabricados, tive que levá-lo ao forno em casa na tentativa de aproximá-lo minimamente da obra de arte que era o pãozinho do Seu João Padeiro. Comi pensando: se o céu é realmente um lugar melhor do que aqui, com certeza as padarias são como aquelas da minha infância e o padeiro é, sem dúvidas, o meu pai.

2 comentários em “Os pãezinhos do Seu João Padeiro

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