Traições encadernadas

GERALDO BONADIO – O ex-presidente Michel Temer conspirou e, por fim, derrubou da Presidência da República a presidenta Dilma Rousseff, da qual fora companheiro de chapa nas eleições de 2010 e 2014. Traiu a ela? Certamente, mas não ficou por aí. Acima de tudo, traiu a ordem constitucional, atropelando – a sangue frio – a Constituição, legitimadora do mandato de ambos.

Não o fez sozinho. Teve como parceiros, na sinistra empreitada, os então chefes do Exército e do Estado Maior daquela arma, generais Eduardo Villas Boas e Sérgio Etchegoyen, bem como todos os generais de Exército que integravam o Alto Comando daquela Força Armada.

Em graus maiores ou menores, o casaca e os fardados – para usar aqui os termos correntes à época em que a República foi proclamada – nos afastaram da estrada clara e luminosa através da qual transitam os povos empenhados na construção – incessante, permanente – do Estado Democrático de Direito. Somaram forças para empurrar a gente brasileira, cujas prerrogativas deveriam proteger, para a trilha tortuosa e envolta em trevas que desemboca no lodaçal do autoritarismo. Tributemos, pois, a todos eles, um quinhão do ódio e do nojo que, nas sábias palavras do Dr. Ulysses, temos e devemos ter sempre, pela ditadura.

O general Villas Boas, entretanto, não saciou sua vontade de trair apenas com o golpe contra Dilma. Deu mão forte a uma segunda empreitada do gênero quando, mobilizando ainda uma vez o Alto Comando, ameaçou o Supremo Tribunal Federal para que este não concedesse ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o habeas corpus que, impedindo-o de ser preso, em decorrência da grande farsa política chamada Lava Jato, permitiria que ele disputasse a eleição presidencial de 2018 e cortasse, antes que mais se aprofundassem, as raízes do golpe contra Dilma.

Temer e Villas Boas são pessoas esclarecidas. Sabem o mal que fizeram ao Brasil e aos brasileiros e, partilhando a intenção de fugir ao inevitável julgamento da Pátria e da História, estão buscando refúgio sob as lombadas de livros. Temer gravou entrevistas com o professor de filosofia – e guru da direita pensante – Denis Lerrer Rosenfield. Nelas, narra os muitos contatos que manteve com conspiradores fardados e de terno – Rodrigo Maia, entre eles – no livro “A Escolha. Como um Presidente Conseguiu Superar Grave Crise e Apresentar Uma Agenda Para o Brasil”. Haja imaginação e disposição para embalar excrementos num pacote bonito para tentar vendê-lo como se fosse perfume…

Seu exemplo acaba de ser seguido pelo bom do nosso Villas Bôas que, com seu peito coberto de medalhas, narrou, em entrevista ao historiador Celso Castro, a conspirata que impediu Lula de se candidatar no livro “General Villas Bôas: Conversa com o comandante”, ora editado pela FGV.

O triste nessa história é que milhões de brasileiros mal informados acreditam que Temer melhorou, com sua traição descarada, a vida de nossos patrícios, fechando os olhos para o acelerado processo de subtração de direitos da classe trabalhadora que, a contar de sua posse na Presidência, se desencadeou.

Nem falta quem se mostre grato a Villas Boas pela presteza com que, prontamente, se esqueceu dos interesses da nação e acolheu o dos “empresários” que clamavam por uma ditadura escancarada.

Quem, com estômago forte, se dispõe a remexer o lamaçal sabe que a verdade não é essa. A Lava Jato, articulada a partir do Departamento de Justiça da Casa Branca, ainda no governo Obama, atendeu apenas e tão somente aos interesses do capital norte-americano em quebrar as pernas das estruturas econômicas viabilizadoras da autonomia do Brasil no concerto mundial. Não por outro motivo, Moro, Dallagnol et caterva, a pretexto de combater a corrupção, destruíram nossas grandes empreiteiras, num processo que tem sequência com o assassinato da Petrobras, ora em franco andamento.

Por todas essas razões, a maior contribuição que o Exército Brasileiro pode dar a nação é se recolher aos quartéis, apoiar o necessário expurgo de quase 10 mil militares, da reserva e da ativa, hoje enquistados em cargos civis e cuidar, afinal, daquilo para o que existe: prover o país, de tradição essencialmente pacifista, de uma Força Armada de terra competente, atualizada e bem equipada, de que hoje não dispõe, colocando-o, pela via da dissuasão, a salvo de eventuais tentativas de intervenção externa.

De quebra, deveria esquecer elucubrações geopolíticas defasadas, desatentas ao mundo contemporâneo. Um exemplo: o melhor trabalho do general Meira Mattos, “Uma Geografia Panamazônica”, padece do insanável defeito de defender a retaliação dos territórios indígenas, alicerçando, por tabela, um absurdo etnocídio.

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