Morre o último protagonista da batalha eleitoral de 1947

GERALDO BONADIO – A longa carreira de Milton Marinho Martins desenvolvida em diferentes unidades educacionais da cidade, entre elas o velho Seminário Diocesano, o Curso Ferroviário e, principalmente, o colégio Achilles de Almeida, que dirigiu durante décadas, deixou no esquecimento sua participação na mais renhida eleição de nossa cidade: aquela que, em 1947, elegeu nossa primeira Câmara Municipal desde 1935, bem como o primeiro prefeito da cidade escolhido por votação direta.

Falecido dia 8 de fevereiro, aos 99 anos, Milton era o último participante vivo daquela campanha, desenvolvida num clima fortemente ideologizado e que teve, como desmembramento pós eleitoral, um reenquadramento do Além Ponte na área urbana.

Ocorrida a Revolução de 1930, só seis anos mais tarde, sob a égide da recém promulgada Constituição de 1934, os municípios do Brasil – Sorocaba entre eles – voltaram a ter uma eleição local. Nela, os votantes elegeram os integrantes de suas respectivas câmaras municipais que, em seguida, escolheram um de seus integrantes para exercer o cargo de prefeito.

Em Sorocaba, o eleito pelos seus pares foi o comerciante Alcino Oliveira Rosa, que governou o município de julho daquele ano a julho de 1938.

Alcino revelou-se um governante operoso, definindo e levando a cabo duas obras estruturantes na área do abastecimento: construiu e inaugurou o Mercado Municipal, na praça Nicolau Scarpa, e, numa área da Terra Vermelha, próxima ao rio Sorocaba, o Matadouro. Esta unidade passou a responder pelo abate de bovinos e suínos, antes executado pelos marchantes, elevando o padrão higiênico no comércio de carnes verdes.

A Constituição de 1934 teve vida curta. Em 11 de novembro de 1937, Getúlio Vargas – que governava o país como presidente indiretamente eleito –, invocando uma suposta ameaça comunista, instituiu a ditadura do Estado Novo, que se prolongaria até 1945. Alcino foi mantido à frente da Prefeitura de Sorocaba, pelo novo regime, até 1938.

A eleição sorocabana de 1947 efetuou-se na vigência de uma nova Constituição – a de 1946 – que continha uma novidade: tornara o Poder Executivo independente da Câmara, instituindo eleições diretas para prefeito – sem vice, cargo criado somente mais tarde – e para as 31 cadeiras da Câmara.

Em princípio, ela prometia ser tranquila e apontava para a eleição, como primeiro prefeito do advogado Armando Pannunzio. Com 32 anos, ele há pouco havia retornado à cidade em que vivera sua infância e adolescência, após graduar-se pela Faculdade de Direito da USP.

Para manter-se na Capital e custear os estudos, lá exercera várias ocupações temporárias, a última das quais – que influenciaria toda a sua vida – foi a de estagiário no escritório do industrial e senador Roberto Simonsen.

Naquele momento, o Brasil vivia as agruras do pós-guerra. Sorocaba, a exemplo de muitos municípios, lutava com sérios problemas de abastecimento: os preços dos gêneros alimentícios, comercializados por pequenos estabelecimentos comerciais, eram altos e a oferta deles escassa. Escolhido por Simonsen, que acabara de estruturar o Serviço Social da Indústria (Sesi), Pannunzio recebeu a incumbência de aqui implantar uma rede de armazéns populares, para fornecer, aos trabalhadores da indústria, comida a preços compatíveis com os seus salários, tarefa da qual se desincumbiu com sucesso.

Ao início do processo eleitoral, emergiu como candidato favorito à Prefeitura, apoiado por uma coligação constituída por muitos partidos, contando ainda com o respaldo das lideranças do empresariado. Seu principal adversário deveria ser o médico Gualberto Moreira que, responsável pela assistência médica oferecida pelo Sindicato dos Têxteis aos seus associados, se tornara conhecido na cidade toda.

Em poucas semanas, o panorama mudou da água para o vinho, por causa do surgimento dos Candidatos de Prestes. Inscritos sob a legenda do Partido Social Trabalhista (PST), eles ocupavam, na política local, o vazio deixado pela cassação, pelo governo Dutra, do registro do Partido Comunista. Sua chapa de candidatos a vereador agregava lideranças operárias e populares de todos os matizes. Muitas, como o ex-prefeito Nelson da Costa Marques, tinham ligações com o Partidão, mas havia até lideranças católicas, como o prof. Antonio R. Figueiredo. O candidato a prefeito era o ferroviário Alonso Gomes, morador da Vila Santana, bairro em que residiam as principais lideranças do PCdoB, na maioria dos casos artífices respeitados das oficinas da Estrada de Ferro Sorocabana.

Um dos fatores de sucesso da campanha foi a ausência de referências doutrinárias. Os candidatos de Prestes escolheram como bandeiras antigas reivindicações dos trabalhadores da cidade – como a construção de uma passagem de nível sobre os trilhos da Sorocabana na rua Comendador Oeterer, onde o trânsito das pessoas ficava sujeito a longas demoras, em razão das manobras de trens – e temas sensíveis, como o racionamento de gêneros, criticado na seguinte palavra de ordem: Nós queremos carne e pão / açúcar sem cartão / abaixo a repressão.

Ante a perspectiva de uma vitória esquerdista, a candidatura Pannunzio foi esvaziada. Lideranças empresariais, a Igreja Católica e o eleitorado avesso aos comunistas cerraram fileira em torno do candidato Gualberto Moreira, que se elegeu por uma maioria apertada: pouco menos de 700 votos. Os candidatos de Prestes ganharam 14 das 31 cadeiras da Câmara, mas foram impedidos de tomar posse por decisão de última hora do Tribunal Superior Eleitoral. O jovem professor Milton Marinho Martins, que chegou à vereança pela coligação que, de início, apoiara Pannunzio, foi o 6º vereador mais votado.

Na Prefeitura, Gualberto Moreira cuidou de integrar o Além Ponte, povoado principalmente por migrantes espanhóis que, inicialmente, haviam sido lavradores em Brigadeiro Tobias, à área urbana. Para tanto, instalou, ali, o Pronto Socorro Municipal, construiu o Ginásio de Esportes e criou o primeiro ginásio municipal fora do centro, confiando sua instalação e direção ao jovem vereador Milton Marinho Martins que, por conta disso, desligou-se da coligação pela qual se elegera, filiando-se ao Partido Social Progressista, do governador Adhemar de Barros, à época aliado com o PTB de Gualberto.

A contenda eleitoral de 1947 fez do Além Ponte a condição de eixo da política municipal. Dali saíram os prefeitos que a cidade elegeria em 1951 e 1955, mais o vereador Armínio de Vasconcelos Leite, dono de farmácia na Coronel Nogueira Padilha que, quando Gualberto afastou-se do cargo para disputar, vitoriosamente, um mandato de deputado na Assembleia Legislativa estadual, o sucedeu.

Agente importante daquele processo, o prof. Milton se identificaria, nas décadas seguintes, com o futuro do ginásio cuja direção lhe foi confiada. As diretrizes disciplinares que definiu construíram, na décadas seguintes, sua imagem de educador.

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