Alegre, solar e repleto de frescor, o vinho verde é o mais carnavalesco e tropical dos vinhos de Portugal e faz bonito com a gastronomia brasileira

MARCO MERGUIZZO – Uma quarta-feira de cinzas diferentona. Após a “não ressaca” da festa ecumênica dos deuses foliões do Olimpo pagão e cristão, a raiz de onde brotou originalmente a tradição secular do Carnaval, a não realização do evento deste ano – uma instituição cultural brasileira ultraconhecida e de enorme projeção mundial – já entrou para a história pelo ineditismo.

Por conta da transmissão da covid-19, ela foi proibida em todo o território brasileiro (pelo menos oficialmente) e não pôde acontecer seja nos sambódromos, ruas e salões de clubes, a não ser para aqueles foliões que, sem consciência social e coletiva, ousaram desfrutar do feriadão do carnis levale (o nome original, em latim, do termo carnaval) aglomerando-se e lotando as praias e as cidades litorâneas de norte a sul do país.

Tudo bem que nestes estranhíssimos primeiros dois meses de 2021, de temperaturas amenas e até de um certo friozinho em algumas cidades da região, como São Roque, onde eu moro, a estação mais quente do ano pouco deu as caras, passando longe da região metropolitana de Sorocaba.

Exceção feita a esta semana de carnaval atípico (ou seria de “descarnaval”), já que a festa momesca foi suspensa oficialmente nos 26 estados brasileiros pela primeira vez na história do país. E isso por conta da transmissão do coronavírus, que tem feito centenas de milhares de vítimas todos os dias. Nesta quarta (17/2), foram registrados oficialmente 242 mil brasileiros mortos até agora – uma tragédia humana sem precedentes.

Noves fora as aglomerações, a negligência de alguns e o total descaso das autoridades do país em relação ao atraso do cronograma de vacinação, o certo mesmo é ter ficado em casa nestes dias, mantendo o isolamento social. Por todas estas razões, este blogueiro resolveu manter-se afastado de tudo, entregar-se à leitura, às pedaladas diárias e, como ninguém é de ferro, aos prazeres hedonistas, organizando um “Carnaval particular” na própria adega.

Após colocar o bloco na rua, digo, o vinho na taça, brilharam os instigantes vinhos verdes de Portugal. Leves, frutados, alegres e descomplicados, estas garrafas solares são ainda, infelizmente, pouco valorizadas por aquele consumidor mais esnobe e afeito a beber vinhos só pelo rótulo.

Produzidos exclusivamente na verdejante e belíssima região do Minho, no Norte de Portugal, cuja geografia e atmosfera bucólica lembra em muito a cidade de São Roque, essa categoria única e inconfundível de vinhos lusitanos são a escolha perfeita para aqueles dias de calor senegalesco, bem como em todas as estações do ano. Já que, além de refrescar o paladar, faz par perfeito com a gastronomia brasileira, atuando na taça como um curinga para saladas, peixes, pratos de massa e, até, o festejado churrasco de fim de semana.

Vinho verde: uma metamorfose salivante

Por livre associação e experiência pessoal no mundo de Baco, afirmo que o vinho verde é, por sua personalidade “tropical” e demais predicados que o caracterizam no paladar o que mais tem a cara a e alma do verão brasileiro – bem como de todas as estações. Um dos mais tradicionais e populares de Portugal, os verdes são também os mais exportados do país, ao contrário do que muita gente imagina, pensando desavisadamente que o vinho do Porto – outro best seller portuga mas bem mais caro -, seja o mais vendido e cobiçado pelos fãs de vinho mundo afora.

Sem passagem por barrica de madeira, a acidez salivante, a fruta e o frescor exuberantes são a marca registrada desta categoria especialíssima de vinhos do país do poeta Fernando Pessoa. E, ao contrário dos rótulos de guarda, o verde é um vinho jovem, descomplicado e “fácil de entender”. E perfeito, portanto, para ser consumido no dia o dia. Sem contar que seus preços não costumam doer tanto no bolso, se comparados a outros vinhos portugueses e de outros países, mesmo nestes tempos com o dólar e o euro nas alturas.

Mas esqueça o paladar fresco e ligeiro, a alta acidez e aquela “agulha” (ou frisante) final na língua dos vinhos verdes de outrora, como Casal Garcia, produtor bastante conhecido no Brasil. Nas últimas décadas, as safras deste tipo particular de vinho estão mudando e incorporando novos estilos à sua antiga e conhecida personalidade. Melhor: mais estruturados e com perfil mais gastronômico e, portanto, menos previsíveis e monocórdios ao paladar, eles têm surpreendido positivamente e conquistado cada vez mais a preferência de críticos e consumidores.

Conheci de perto a região há quase uma década numa das minhas visitas mais bacanas à Terrinha. Foi um mergulho e tanto nessa bucólica região lusitana e incluiu uma participação inesquecível no júri internacional da edição 2010 do Best of Vinho Verde. Único brasileiro da bancada, atuava à época como editor especial da revista Wine Style, publicação elaborada pela Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-SP), cuja versão impressa deixou desafortunadamente de circular já há alguns anos.

Desde então, passei a ser fã deste estilo único de vinho. Além de ser fácil e descomplicado de beber, ele é perfeito no dia a dia e extremamente gastronômico por sua deliciosa acidez e frescor, combinando com o nosso clima e com uma série de pratos, desde saladas mais leves a pescados, risotos, comida japonesa e até churrasco.

“Essa evolução começou há pouco quase duas décadas. Ou seja, desde então, não há apenas um único estilo de vinho verde, o que é muito bom tanto para a região quanto para o consumidor”, avalia o crítico português Luis Lopes, diretor da conceituada Revista de Vinhos.

De fato, quando se pensa em um vinho branco leve e refrescante, invariavelmente um dos primeiros que vem à mente é o vinho verde de Portugal. Mas, ao contrário do que se possa supor, esse nome nada tem a ver com a colheita das uvas, feita precocemente, antes do tempo do seu completo amadurecimento. Embora não haja uma versão oficial a respeito, a origem da denominação do termo “verde” teria duas prováveis vertentes: uma histórico-geográfica e, outra, por conta do tempo que se deve consumir esse estilo de vinho.

Casal Garcia: um velho conhecido do brasileiro

A expressão, empregada desde o século XVI, remete à paisagem verdejante e cenográfica da região do Minho, cuja área atual, de cerca de 7.000 km2 de extensão e 34.000 hectares de vinhedos, é cortada por muitos rios, dentre eles o Douro e o Minho, que correm para o Atlântico, formando vales férteis.

A segunda explicação se credita ao fato de os vinhos provenientes dessa região lusa serem tradicionalmente elaborados para consumo imediato, de preferência no próprio ano da produção, em oposição aos rótulos “maduros”, que devem ser envelhecidos na garrafa antes de serem degustados.

O vinho verde clássico é um branco fresco que ostenta acidez marcante e pouco álcool, em geral, abaixo de 11,5%. Além de levemente frisante, uma de suas principais marcas registradas, ele costuma ter um pouco de açúcar residual, para compensar a acidez e deixá-lo mais macio em boca.

Um dos maiores representantes desse estilo é, por exemplo, o Casal Garcia, da Quinta da Aveleda (www.aveleda.pt; importadora Interfood), velho conhecido dos consumidores brasileiros e, provavelmente, o mais vendido no mundo.

Nessa categoria entram também os rótulos da Adega de Monção (www.adegademoncao.pt), grande cooperativa fundada em 1958, detentora do best-seller Muralhas de Monção e de outros rótulos de grande volume, que reúne atualmente cerca de 1.600 produtores.

Metamorfose na taça: varietais de uvas autóctones típicas da região do Minho, de perfil moderno e gastronômico, são a nova tendência entre os vinhos verdes, cativando consumidores no mundo inteiro

Mas, embora seja uma região tradicionalmente de brancos, alguns produtores minhotos também buscam revalorizar o vinho verde tinto – uma bebida peculiar, com acidez elevada, sem passagem em barrica (em tempo: alguns já fazem ensaios em madeira, como o biodinâmico Afros (www.afros-wine.com), feita principalmente com a uva Vinhão, que, no vizinho Douro, recebe o nome de Sousão. Classificado como vinho “étnico” e gastronômico, ele é feito para harmonizar com algumas receitas da vigorosa culinária local, como o substancioso arroz de sarrabulho com rojões, que leva carne de porco, tripas e miúdos.

O que já tem dado frutos, porém, tanto em termos de qualidade como comercialmente, apontando um caminho promissor a seguir, é a elaboração de espumantes (brancos e tintos) e de vinhos monovarietais de uvas autóctones como a Loureiro, a mais cultivada na região, a Azal e a Arinto. Muitas delas, inclusive, eram pouco valorizadas e estavam em vias de extinção. Casos da Avesso, da Padeiro e da Batoca, dentre outras uvas de nomes para lá de curiosos.

Denominação de origem

Além disso, há em curso atualmente, na região do Minho, uma série de investimentos e mudanças, seja no campo, seja no interior da adega. Como se verifica em outras regiões do país, o plantio em latada (ou “ramada” em Portugal) vem sendo substituído, de forma progressiva, pelo cultivo em espaldeira, o que diminui a produção, mas aumenta a qualidade das uvas.

A mesma preocupação com a qualidade está presente no cuidado em plantar as variedades autorizadas pela denominação que melhor se adaptam a cada sub-região. Hoje, já não é tão raro encontrar vinhos monovarietais, e que passam por estágio em barricas de carvalho. Muitos produtores têm investido igualmente e cada vez mais na modernização de suas vinícolas e vinhedos.

Desde as grandes vinícolas, a exemplo da Quinta da Aveleda, cuja colheita é totalmente mecanizada e conta com adega moderníssima, às menores, caso da “pequena grande notável” Quinta de Gomariz (quintadegomariz,com; importadora Decanter) (veja box no final deste post). Mas o esforço das vinícolas, de porte médio, também deve ser reconhecido.

É o caso da Quinta da Lixa (quintadalixa.pt; Barrinhas) quepossui uma área de 47 hectares de vinhedos próprios, que fornecem cerca de 40% das uvas utilizadas na elaboração de suas três milhões de garrafas de vinho produzidas anualmente. E da Provam (www.provam.com; importadoras Casa Flora e Porto a Porto), que, desde 1992, reúne um grupo de dez vitivinicultores-cotistas da região de Monção e Melgaço. Antes, ela vendia suas uvas para a cooperativa local, mas resolveu apostar suas fichas em sua própria vinícola.

Hoje, com produção atual de 700 mil litros/ano, a empresa conta com 30% de vinhedos próprios e moderna tecnologia, que permite potencializar a qualidade das uvas. Ela começa com a marcação das vindimas vinha a vinha, passa pela colheita (feita exclusivamente em caixas de 20 kg), e chega à prensagem suave, com opção de maceração pelicular, arrefecimento de mosto e temperatura de fermentação controlada. Com cinco rótulos em seu portfólio, o destaque fica por conta de seu Portal do Fidalgo, do Vinha Antiga (vinhas acima de 15 anos, 6 meses em barricas francesas novas e velhas) e do espumante charmat Côto de Mamoelas, ambos elaborados com 100% da uva.

Alvarinho tem Denominação de Origem e Controlada (D.O.C.) exclusiva

Considerada “rainha das uvas brancas da península ibérica”, a Alvarinho é tão importante em Portugal, a ponto de constituir uma DOC separada. Irmã-gêmea da espanhola Albariño, esta cepa lusa também é a mais valorizada e prestigiada das castas brancas da região do Minho. Protagonista ou dominante nos vinhos verdes, os exemplares que são produzidos distinguem-se dos demais monocastas verdes em vários aspectos.

São, em geral, brancos mais alcoólicos, mais encorpados e com bom potencial de envelhecimento, adquirindo características que fazem lembrar um bom Riesling. Sem passagem por barricas, são vinhos íntegros, com notas evoluídas (de minerais, pão, tostados) e boa acidez, demonstrando a estrutura longeva e a complexidade dessa cepa.


Anselmo Mendes, o Mister Alvarinho

A Região dos Vinhos Verdes está localizada no extremo norte, à noroeste de Portugal, e compreende a maior área cultivada, de cerca de 31 mil hectares, além de uma das mais famosas demarcações vinícolas do país, oficializada em 1908. As sub-regiões de Amarante, Ave, Baião, Basto, Cávado, Lima, Monção e Melgaço (berço da Alvarinho), Paiva e Sousa têm por característica comum o clima chuvoso e solos graníticos com camadas superiores arenosas e ácidas. A partir desse terroir produz-se as uvas brancas Alvarinho, Loureiro, Trajadura, Arinto ou Pedernã, Avesso e também as tintas Vinhão, Alvarelhão, Pedral, Cainho, Rabo de Ovelha, entre outras.

É nesse território verdejante, cercado de vinhedos por todos os lados, que o produtor Anselmo Mendes, mais conhecido como “Sr. Alvarinho” por sua contribuição ao desenvolvimento e divulgação da casta pelo país, se destaca com um dos principais expoentes da vinicultura portuguesa. Formado em Agronomia e Enologia. Anselmo nasceu e foi criado em Monção, reduto de vinhateiros com quem convive desde a infância.

Por volta dos meros seis de idade, circulava diariamente entre a sua casa e a dos avós agricultores. Gastava umas 4 horas no pequeno trajeto fazendo a medição das plantinhas a cada passo, com uma régua que trazia consigo. Desde cedo, um verdadeiro apaixonado pela videira.

Grande produtor de vinhos verdes, Anselmo desmistifica a lenda que foi construído um entreposto em Monção, em 1.356, antes mesmo ao do Porto, para transportar vinhos para Inglaterra. Os ingleses encontraram ali vinhos substitutos para os Borgonhas, período no qual o Reino Unido e a França haviam rompido relações. Nessa época, a palavra verde nem existia, além do que os vinhos exportados eram tintos, viajavam muito bem e eram chamados de parduscos. O próprio Anselmo elabora um tinto com esse nome, que é um excelente exemplar de vinho verde tinto.

O premiado produtor afirma que só em 1.700 os vinhateiros da região iniciaram um cultivo chamado uveira, conhecido mundialmente como enforcados. A videira era plantada junto às árvores e crescia livremente entrelaçando-se aos ramos. As vinhas atingiam enormes proporções, todavia não amadureciam e os vinhos eram de baixa qualidade devido a pouca maturação.

Nasciam assim os vinhos verdes, feitos de uvas verdes e muito ácidas. Atualmente isso já não ocorre, e as vinhas são colhidas com maturidade ideal para proporcionar sabor e frescor aos famosos vinhos verdes.

“Mister Alvarinho” se dedica a esta casta produzindo vinhos de extrema personalidade. Utiliza vários métodos, tal como a fermentação em barricas de carvalho francês de 400 litros ou a maceração com as cascas das uvas, como nos vinhos laranja, já descritos nessa coluna. Ainda, chega a deixar que o vinho estagie sobre os sedimentos da fermentação, sur lies, por longos períodos.

Anselmo destaca que os vinhos verdes brancos são secos e de alta acidez, contudo, se em alguns casos apresentar excesso de pétillant ou gás carbônico realmente é algo a se constatar, não é natural. Já degustei muitos vinhos verdes assi.”, diz. “Nos meus vinhedos utilizo métodos agrícolas sustentáveis. Não optamos por orgânicos, afinal é sabido que na Europa não há fiscalização eficiente para atestar autenticidade do produto”, conclui.

Muros Antigos, Muros de Melgaço, Parcela Única, Contato, Expressões e Curtimenta são seus rótulos de Alvarinho. Compõem seu portfólio vinhos de Loureiro e Avesso, além dos tintos de Alvarelhão e de Vinhão. Sigo envolvida pela complexidade e mineralidade de seus vinhos que são importados com exclusividade pela Mistral (www.mistral.com.br).

Aqui, no Brasil, Anselmo Mendes presta consultoria à Quinta da Neve (SC) e à Vinícola Hermann (RS). Um exemplo marcante de seu trabalho precioso é o espumante premiado Lírica, um chamopenoise sem filtração das borras. Um show de espumante. Cheers, ou melhor, saúde ao Mister ou Sr. Alvarinho!


Quinta da Gomariz: uma “pequena grande” notável

Elaborados para atrair e conquistar paladares dentro e fora do país (cerca de 70% de sua produção é exportada, em especial, para o Brasil e para os Estados Unidos) – e por que, não? – ganhar concursos internacionais –, os modernos vinhos verdes da jovem vinícola Quinta de Gomariz, de inconfundível personalidade, impressionam pela expressão da fruta, resultado de um trabalho técnico apurado, não só no campo, mas também com os mostos e leveduras, na cantina. Não é por acaso que esta pequena grande notável do Minho é uma das estrelas da nova geração de vinícolas minhotas.

São rótulos como o Loureiro, um branco que une tons cítricos (mexerica, limão-siciliano) aos de frutas como pitanga e maracujá, num paladar vivaz e muito persistente; ou o Espadeiro, um rosado com características similares somadas a um leve perfume de frutas vermelhas. Ou, ainda, o elogiado Avesso, de aromas e paladar deliciosamente cítricos, todos eles com boa estrutura para serem degustados tanto sozinhos quanto na companhia de pratos.

Com pouco mais de dezesseis anos de existência, a vinícola conta com 17 hectares de vinhedos próprios, localizados na região do Baixo Minho, mais precisamente no conselho de Santo Tirso, região do Ave Largo, área composta de pequenas colinas e vales, e cujos vinhedos disputam espaço com empresas e indústrias.

Seu proprietário, um debutante em matéria de vinho, mas um bem-sucedido empresário do ramo metal-mecânica, é Manuel Sá, de 52 anos. Minhoto de berço e alma, não hesitou em investir em uma moderna cantina em Sequeirô, para criar seus próprios vinhos; e na contratação do jovem mas já tarimbado enólogo António Sousa, de 33 anos, formado pela UTAD, que está com ele desde os inícios da vinícola, em 2005. (Em tempo: Sousa também é o enólogo responsável pelos rótulos da Quinta de Linhares (www.agri-roncao.pt).

A quinta adquirida por Sá, à época estava ocupada por vinhas em latada de castas tintas e marcadas pela alta produtividade, que cederam espaço a vinhedos em espaldeira e predominância de cepas brancas. Hoje, a produção média é de 10 mil litros por hectare. Já foram tentadas produções ainda mais baixas, conta Sousa, mas o equilíbrio do mosto sofreu com a vindima em verde, trazendo desequilíbrio, por conta das maturações repentinas das uvas. Mesmo assim, bem abaixo das médias de produtividade da região.

Trajadura, Avesso, Fernão Dias, Alvarinho e Loureiro são as principais castas brancas que originam vinhos frescos, de cores citrinas e aromas marcados de frutas. A Avesso, considerada a “Chardonnay lusa”, é a mais precoce das uvas brancas na maturação (de uma semana a 11 dias antes da outras), mas amadurece quase de um dia para outro e pode ganhar 2,5% de volume numa semana. Daí não gostar muito de umidade e se adaptar melhor em áreas mais altas.

“Em termos de qualidade, está no mesmo nível da Alvarinho”, afirma Sousa. Já a Loureiro, também ganhadora de medalha de ouro do Best of Vinho Verde, é a campeã de produção. Há anos que ultrapassa as 25 toneladas por hectare, enquanto a Alvarinho não passa de 12 toneladas. Mesmo assim, o vinho da QdeG feito com esta casta consegue manter o nível de qualidade.

No caso das cepas rubras, além da Padeiro e da Vinhão, que originam os dois únicos rótulos tintos da casa, a Espadeiro é usada exclusivamente para os aromáticos e frutados rosados da vinícola, também medalhado na competição. Com produção anual de 20 toneladas/ano, é ainda curiosamente a única cepa plantada no velho sistema de latada.

Mas um dos principais trunfos da vinícola é a sua moderna e bem-equipada adega. Pensada para operar todo tipo de manobra enológica, nela tudo é organizado em castas, parcelas e prensagens. O dióxido de enxofre, por exemplo, fundamental para a realização da fermentação malolática do vinho, é usado com parcimônia, muito aquém dos limites permitidos.

A “agulha”, típica dos vinhos verdes, ali é originada pela fermentação natural remanescente que ocorre nas cubas, e não pela injeção de gás carbônico.  Há, ainda, uma área reservada dotada de uma bateria de cubas, com capacidade para 80 mil litros, destinada a novos ensaios da vinícola. “Aqui, temos a liberdade para fazer tudo o que se imagina”, diz António Sousa.

Não por acaso, a QdeG busca surpreender a cada ano, apostando em novos projetos de rótulos. “Nossa filosofia é de nos superarmos a cada vindima. Para isso, buscamos apresentar sempre novidades. Mas cada passo é pensado e planejado bem antes. É o caso do Avesso, nosso mais novo monocasta, cuja uva era pouco valorizada e estava quase em extinção por aqui”, diz Manuel Sá. Os consumidores de vinho verde e a região do Minho agradecem.


Carnis levale: a origem do Carnaval que remete à renúncia da boa mesa e ao pecado da gula

O Carnaval é uma tradicional festa popular realizada diferentes locais do mundo, sendo a mais celebrada no Brasil. Apesar do forte secularismo presente no Carnaval, a festa é tradicionalmente ligada ao catolicismo, uma vez que sua celebração antecede a Quaresma. O Carnaval não é uma invenção brasileira, pois sua origem remonta à Antiguidade. A palavra Carnaval é originária do latim, carnis levale, cujo significado é “retirar a carne”. Esse sentido está relacionado ao jejum que deveria ser realizado durante a Quaresma e também ao controle dos prazeres mundanos. Isso demonstra uma tentativa da Igreja Católica de controlar os desejos dos fiéis, dentre outros, o pecado da gula.

Alguns estudiosos entendem o Carnaval como uma festa cristã, pois sua origem, na forma como entendemos a festa atualmente, tem relação direta com o jejum quaresmal. Isso não impede que sejam traçadas as origens históricas que nos mostram a influência que o Carnaval sofreu de outras festas que existiam na Antiguidade. Na Babilônia, duas festas possivelmente originaram o que conhecemos como Carnaval. As Sacéias eram uma celebração em que um prisioneiro assumia, durante alguns dias, a figura do rei, vestindo-se como ele, alimentando-se da mesma forma e dormindo com suas esposas. Ao final, o prisioneiro era chicoteado e depois enforcado ou empalado.

Outro rito era realizado pelo rei no período próximo ao equinócio da primavera, um momento de comemoração do ano novo na Mesopotâmia. O ritual ocorria no templo de Marduk (um dos primeiros deuses mesopotâmicos), onde o rei perdia seus emblemas de poder e era surrado na frente da estátua de Marduk. Essa humilhação servia para demonstrar a submissão do rei à divindade. Em seguida, ele novamente assumia o trono. O que havia de comum nas duas festas e que está ligado ao Carnaval era o caráter de subversão de papéis sociais: a transformação temporária do prisioneiro em rei e a humilhação do rei frente ao seu deus. Possivelmente a subversão de papéis sociais no Carnaval, como os homens vestirem-se de mulheres e outras práticas semelhantes, é associável a essa tradição mesopotâmica.

A associação entre o Carnaval e as orgias pode ainda relacionar-se com as festas de origem greco-romana, como os bacanais (festas dionisíacas, para os gregos). Seriam eles dedicados ao deus do vinho, Baco (ou Dionísio, para os gregos), marcados pela embriaguez e pela entrega aos prazeres da carne. Havia ainda, em Roma, a Saturnália e a Lupercália. A primeira ocorria no solstício de inverno, em dezembro, e a segunda, em fevereiro, que seria o mês das divindades infernais, mas também das purificações. Tais festas duravam dias, com comidas, bebidas e danças. Os papéis sociais também eram invertidos temporariamente, com os escravos colocando-se nos locais de seus senhores, e estes colocando-se no papel de escravos.

Cristianismo e Carnaval

As festas citadas eram, naturalmente, celebrações pagãs e eram extremamente populares. Com o fortalecimento de seu poder, a Igreja não via com bons olhos essas celebrações nas quais as pessoas entregavam-se aos prazeres mundanos. Nessa concepção do cristianismo, havia a crítica da inversão das posições sociais, pois, para a Igreja, ao inverter os papéis de cada um na sociedade, invertia-se também a relação entre Deus e o demônio.

A Igreja Católica, então, procurou ressignificá-las dando-lhes um senso mais cristão. Durante a Alta Idade Média, foi criada a Quaresma — período de 40 dias antes da Páscoa caracterizado pelo jejum. Tempos depois, as festividades realizadas pelo povo foram concentradas nesse período e nomeadas carnis levale. A Igreja pretendia, dessa forma, manter uma data para as pessoas cometerem seus excessos, antes do período da severidade religiosa. Nesse momento, o Carnaval estendia-se durante várias semanas, entre o Natal e a Páscoa.

Na Idade Média do Velho Continente

O Carnaval medieval era marcado por festas, banquetes e muitas brincadeiras. Durante os carnavais medievais, por volta do século XI, no período fértil para a agricultura, homens jovens que se fantasiavam de mulheres saíam às ruas e aos campos durante algumas noites. Diziam-se habitantes da fronteira do mundo dos vivos e dos mortos e invadiam os domicílios, com a aceitação dos que lá habitavam, fartando-se com comidas e bebidas, e também com os beijos das jovens das casas.

Durante o Renascimento, nas cidades italianas, surgia a commedia dell’arte, teatros improvisados cuja popularidade ocorreu até o século XVIII. Em Florença, canções foram criadas para acompanhar os desfiles, que contavam ainda com carros decorados, os trionfi. Em Roma e Veneza, os participantes usavam a bauta, uma capa com capuz negro que encobria ombros e cabeça, além de chapéus de três pontas e uma máscara branca.

Era comum na Itália renascentista a realização de bailes de máscara durante o Carnaval. A lógica que regia as festas da Antiguidade era a mesma para o Carnaval na Europa da Idade Média e Moderna: o mundo de cabeça para baixo. Sendo assim, tratava-se de um período de inversão proposital da ordem, portanto, as restrições das vidas das pessoas eram abolidas, e os papéis que existiam naquela sociedade, invertidos.

A partir do século XVI, houve iniciativas de impor o controle sobre as festas carnavalescas no continente. Essa tentativa de silenciamento foi uma reação aos conflitos religiosos que atingiam a Europa naquele período, mas também pode ser explicada como forma de impor controle social. Outra explicação pode ser o conservadorismo vigente que buscava demonizar as festas populares.

O Carnaval no Brasil

O Carnaval chegou ao Brasil durante a colonização e transformou-se na maior festa popular do país. Uma das primeiras manifestações carnavalescas foi o entrudo, uma brincadeira de origem portuguesa que, na colônia, era praticada pelos escravos. Nela, as pessoas saíam às ruas sujando umas às outras jogando lama, urina etc. O entrudo foi proibido em 1841, mas continuou até meados do século XX.

Depois surgiram os cordões e ranchos, as festas de salão, os corsos e as escolas de samba. Afoxés, frevos e maracatus também passaram a fazer parte da tradição cultural carnavalesca brasileira. Marchinhas, sambas e outros gêneros musicais foram incorporados à nossa maior e mais popular manifestação cultural.

MARCO MERGUIZZO 
é jornalista profissional 
especializado em gastronomia, 
vinhos, viagens e outras 
coisas boas da vida. 
Escreve neste Coletivo 
todo domingo e quando lhe dá na veneta. 
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