Memórias póstumas de mim mesmo

José Carlos Fineis

A vida toda me incomodou a morte. Não a morte como destino inexorável dos vivos. Perdoem-me o egoísmo e a sinceridade. Incomodou-me de forma perene, angustiante, desconfortável, não a morte deste, não a daquele outro. Sem prejuízo de sentir as mortes alheias, em diferentes graus de intensidade, o que me comoveu mesmo, de forma inconsolável, foi a perspectiva da minha morte em particular. Mal eu sabia que de todas as mortes possíveis, presenciadas e sabidas, veladas, choradas e sentidas, justamente a minha seria a que me causaria menos estranheza, lamentos de mim para comigo, tristeza ou desolação.

Morri sem perceber. Morri como quem tira um cochilo depois do almoço. Morri como quem atravessa a rua. Ah, se soubesse que era tão fácil e leve e relaxante morrer, teria me ocupado unicamente com a vida. Não teria carregado a morte nos ombros como aquele pescador arcado sob o peso de um enorme peixe, no rótulo do óleo de fígado de bacalhau.

Desde muito cedo nos ensinam que a morte faz parte da vida. Seria tão mais libertador se nos ensinassem a verdade! Se percebêssemos que vida é vida, e que morte não tem nada a ver com isso! Que para morrer não é preciso preparo ou ensaio. Que não vale a pena perder sequer um minuto de vida pensando na própria morte, e menos ainda temendo-a ou ruminando sobre como ou quando será!

Os vivos não deveriam se ocupar com a morte — a morte que se sobrepõe às tentativas de evitá-la, entenda-se bem — a não ser no essencial: botar os mortos para baixo da terra; dar-lhes umas flores, orações (quando fosse o caso) e a consideração merecida. Memória, respeito e gratidão. Ou esquecimento, de acordo com a biografia do finado. Nunca a morte deveria ocupar um vivo para além dos deveres sanitários, éticos e de solidariedade humana.

Ah, como somos tolos! Passamos a vida a levar flores amarelas de medo para nossos próprios mausoléus imaginários. E só quando morremos é que percebemos o quanto fomos idiotas, gastando nosso tempo nesses féretros interiores em que somos, ao mesmo tempo, o defunto, o que discursa sobre as qualidades do morto, os que choram, os que cavocam a terra e os que carregam o caixão.

Escute, amigo; ouça-me, amiga que ainda não morreram. Cuidem de viver em paz, com alegria. Vivam sem receio. É um morto que lhes assegura: não há nada mais estúpido do que trazer a morte para dentro da vida. A nossa morte, desculpem se parece um trocadilho, deveria ser a última, literalmente a última coisa na qual pensamos enquanto estamos vivos.

Parece óbvio, mas não é. Foi preciso morrer para descobrir essa verdade tão simples. O tempo de morrer já está reservado. O tempo da vida é de viver.

Imagem principal: djedj – Pixabay
Flor amarela: Ioachim Marcu do Pixabay

3 comentários em “Memórias póstumas de mim mesmo

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