O destino mais distante

LUCY ROCHA

Organizando gavetas, faço uma longa pausa ao examinar as folhas de meus velhos passaportes e reflito: quem, diante de uma perda, seja ela financeira ou pessoal, de um amor acabado, um projeto frustrado, um sonho que se tornou pesadelo, uma estrada mal escolhida, um luto implacável ou uma mera insatisfação pessoal, nunca pensou em largar tudo e viajar pelo mundo, na tentativa de encontrar respostas, num esforço homérico para aliviar a dor ou simplesmente na esperança de encontrar a si mesmo depois de tudo?

Foi durante essas buscas, um dia numa, outro noutra ou todas juntas e misturadas, que perdi as contas de quantas vezes já coloquei uma dúzia de peças de roupas na mala e caí no mundão. Meu luto viajava comigo e, entre uma decolagem e outra ou ao subir num trem que me daria uma noite inteira de reflexão até adentrar mais uma fronteira, certamente, encontrei respostas surpreendentes dentro de mim. Muitas delas carregadas da doçura da vida, outras de seu gosto amargo, algumas assustadoras e dolorosas, mas quase sempre libertadoras.

Descobri rápido que andar pelo mundo sem hora para voltar é realmente uma experiência extraordinária e, é claro, minha natureza nômade e esta busca incessante por respostas que me persegue desde a infância, me pedem, constantemente, o levantar de novos voos. Quem tem visto meus pés nos últimos anos, enterrados no chão, na verdade não sabe que escondem longas e ávidas asas que batem em retirada ao primeiro sinal de que “o ninho” de agora já não me cabe mais.

Ocorre que tenho me perguntado, com frequência, se uma viagem é mesmo capaz de realizar a proeza de trazer as respostas que desvendariam, finalmente, os mistérios da vida, das emoções e de quem realmente somos, ou se seria possível chegar a elas, igualmente, na paz da minha casa. Me pergunto se não estamos dispostos a fazer a volta ao mundo apenas porque não queremos encarar o mais distante dos destinos: a viagem para dentro de nós mesmos.

Tomada por esse pensamento, por coincidência ou vibração, encontro um livro surrado do escritor italiano Tiziano Terzani e, acidentalmente, o abro numa frase que me dá a resposta na justa medida de minhas inquietações:

“O que está fora, também está dentro. O que não está dentro, não está em lugar nenhum. Viajar não adianta. Se uma pessoa não tem nada dentro, nunca encontrará nada fora. É inútil ir procurar no mundo o que não consegue encontrar dentro de si.”

Então, para você que, como eu, busca respostas, saiba que o mundo é lindo e que vale a pena o deslumbre de conhecê-lo, mas que não importa se você está aqui ou em Marrakesh, as respostas que possibilitam a existência plena que tanto almejamos e cuja busca nos mantém despertos nas noites de insônia, devem ser encontradas, invariavelmente, dentro de cada um de nós.

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