A Mãezinha

LUCY ROCHA

A boneca Mãezinha foi lançada pela Estrela em 1971 e eu nasci dois anos depois. Em 1977, quando eu tinha 4 anos, ganhei uma Mãezinha de presente de minha mãe. Passava horas admirando minha Mãezinha enquanto ela fazia um movimento horizontal cheio de ternura para embalar sua criança. Que coisa mais linda que era!

Um dia, lá pelos 6 ou 7 anos, a corda da minha Mãezinha quebrou e ela parou de embalar seu bebê. Sem entender o porquê daquela mãe tão cuidadosa, de repente, não conseguir mais embalar seu bebê, chorava desconsolada, como quem pressente o fim de tudo que havia de mais belo nesse mundo. Sem saber mais como lidar com minha tristeza, minha mãe, na sua infinita sabedoria, pensou em algo criativo para me acalmar: prometeu levar minha Mãezinha ao “médico de bonecas”. E foi assim que minha mãe conseguiu levá-la de mim sem que eu me desesperasse.

No ano seguinte ingressei na escola primária e, sem esquecê-la, cheguei aos 9 anos cheia de esperanças de que um dia ela voltaria do hospital recuperada, embalando o seu bebê para o meu encantamento. Os anos de escola me engoliram, cresci e parei de esperar minha Mãezinha.

Coincidentemente, aos trinta e tantos anos, recebi para mim mesma o duro diagnóstico que minha mãe nunca teve coragem de me dar sobre minha Mãezinha. Ali descobri que algo na mãe que eu teria sido também se quebrou e que, como ela, jamais embalaria meu rebento. Enfim, concluí que médicos de bonecas não existiam.

Eu já passava dos quarenta quando um dia fui ver uma exposição de brinquedos antigos e reencontrei minha Mãezinha embalando seu bebê. Tenho certeza que era ela! Acho que depois de tantos anos havia, finalmente, se recuperado e, não me encontrando na casinha de minha infância, tinha ido morar na exposição, na esperança de que um dia eu passasse por ali.

E aconteceu. Então ela olhou para mim sorridente e piscou os olhinhos, me fazendo pensar: Puxa, talvez médicos de bonecas existam mesmo, mas pode ser que não existam para todas as mães. E tudo bem.

Fui embora sorrindo, tendo renovado minha crença na cura dos males, mas também na beleza da vida e em tudo que suas dores sem cura tem para nos ensinar.

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