Era uma vez a cidade dos poetas

CARLOS ARAÚJO (Blog Outro Olhar) – Houve um tempo em que os poetas de todo o mundo se reuniram e tomaram a inédita decisão de construir uma cidade só para eles. O nome do lugar era Poesia. Morar ali era permitido somente para quem se dedicasse à linguagem poética como vocação e sentido para a vida.
O lugar de difícil acesso, encravado no norte do continente, era abençoado pelo clima quente e úmido. Os habitantes se sustentavam da caça e pesca em rios e florestas. As casas e outras construções eram de pedra rústica. Como viviam em comunidade, distribuíam de forma igual tudo o que produziam coletivamente. Creditavam à prática da poesia o humanismo que os identificava e não viam outra forma de vida melhor do que essa. E resolviam as divergências em versos que descreviam verdadeiras epopeias da existência.
As ruas estreitas e os edifícios públicos tinham nomes em homenagem aos grandes poetas: William Blake, Allen Ginsberg, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Paulo Leminski, Mário Quintana, Pablo Neruda, Ciro dos Anjos, Chico Buarque, Caetano Veloso, entre outros gênios marcantes da poesia.
Todos os ocupantes de cargos de direção na administração da cidade também se ocupavam com a poesia. A população em geral, de servidores da limpeza aos graduados chefes de grupos, todos empregavam talento e criatividade na arte de traduzir a existência em versos, rimas, estrofes.
Quem não quisesse ou não se adaptasse a essa nova forma de ser e de viver, tinha a livre escolha de sair da cidade. E muitos foram embora. Entre estes, o argumento era de que a poesia não dava dinheiro, não gerava riqueza, não valia a pena para espíritos calculistas, ambiciosos, individualistas.
Em contrapartida, a cidade de Poesia não tinha crimes. Não havia homicídios, não havia registro de brutalidade. O lugar não castigava os seus habitantes. Como num pacto coletivo, as pessoas que podiam roubar e matar não tinham incentivo para isso porque estavam o tempo todo ocupadas com as tarefas de manutenção e sustentação coletiva da sociedade local e com a produção de poemas.
Os versos eram declamados nas varandas, nos quintais, nas ruas, em praças públicas. As apresentações começavam nos fins de tarde e entravam pela noite. Eram verdadeiros saraus com grande animação e clima de espetáculos. E tudo era inspiração para a poesia: o sol, o horizonte, o rio de águas limpas que abastecia os moradores, a estrada que ligava a cidade a outras regiões.
A poesia levava as pessoas à condição de estado de graça. Isso acontecia até mesmo quando as declamações falavam de coisas tristes vividas por diferentes povos em outras localidades. Coisas tristes como solidão, injustiça, violência.
Falar de temas sombrios também era uma forma de conhecimento de mundo que não podia ser dispensado. Servia como contraponto para valorizar a cidade dos poetas.
Nada é eterno, porém, ainda que os poetas tenham criado a ideia de eternidade como ilusão para acreditar no impossível.
Acontece que a qualidade de vida dos poetas começou a atrair a atenção de povos estrangeiros. Os forasteiros cobiçavam a paz de Poesia, mas não renunciavam às armas como instrumentos de força e dominação nos seus lugares de origem.
A comunicação com outras regiões favoreceu o surgimento de um mercado inédito. Era um tempo muito anterior à internet e as poesias eram transcritas em versões impressas. O interesse era tanto que foram iniciados serviços de transporte de livros de poesia para os estrangeiros. E os poetas atendiam à demanda cada vez mais crescente.
Com o passar do tempo, a poesia provocou uma mudança de comportamento nas regiões estrangeiras: os povos começaram a substituir as armas pelo magnetismo dos versos que traduziam emoções e sentimentos.
Diante do novo quadro, os fabricantes e investidores do mercado de armas reagiram com uma ferocidade nunca vista. Indignados com os prejuízos que tinham como origem as perdas na venda de armas por conta da concorrência dos poetas, arregimentaram os seus exércitos e atacaram Poesia.
Indefesa, sem proteção, a cidade foi totalmente destruída. Nenhum poeta sobreviveu. Muitos tiveram as cabeças cortadas, outros foram enforcados. Pelotões de fuzilamento concluíram a carnificina. A poesia foi massacrada, só sobraram as ruínas, e desde então não se lê e não se ouve a declamação de nenhum novo poema que traduza as angústias da solidão humana.

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