Hoje, entrevista com Jorge Sallum

O duplo, seu duplo…

Evandro Affonso Ferreira

Continuarei lendo fragmentos de uma plaquete que eu publiquei muito tempo atrás, cujo título é Levaram tudo dele, inclusive alguns pressentimentos…

Pílula do dia

Perguntas insólitas

A arte do romance, de Milan Kundera

Entrevista: Jorge Sallum

Jorge Sallum, nascido em São Paulo em 1973, estudou História e fez mestrado em Letras Clássicas na FFLCH-USP. Fundou a editora Hedra em 1999 e desde então atua como editor principal. Atualmente tornou-se editor associado da n-1 Edições.


Editor-poeta


Evandro Affonso Ferreira – E quando seus passos não se adaptam de jeito nenhum às probabilidades peregrinas?
Jorge Sallum – Quando meus passos não se adaptam, eu procuro me lembrar de seguir o fluxo da água e ir por onde o homem não quer. Procuro esquecer os passos que são também uma forma de planejamento. Todo suicida é de certa forma um arquiteto que procura guiar os passos em volta de seu corpo em repouso, prevendo na sua ausência a rearticulação dos vivos. Prefiro esquecer o som dos passos para não enlouquecer.

Evandro – Costumo dizer que sou muito afetivo, pegajoso, motivo pelo qual gostaria que Deus fosse palpável. Afinal, procurar Deus é querer apalpar plenitudes?
Jorge – O velho estoico dizia maravilhado que o divino está ou dentro das coisas ou espalhado pelo mundo, em forma de razão espermática. Ele dizia que Deus é mais do que afeto, é viscosidade dentro da matéria e razão que flutua no éter. Dizia de alguma forma que a palavra porta algo capaz de fazer apalpar plenitudes. A palavra se desprende assim e mergulha em nós, carregada de sentido, dando desenho à coisa como uma pintura bem acabada em nós, sem a necessidade de matemáticas. Deus para o velho Zenão está em tudo que se vê bem, mas de olhos fechados. Depois vieram outras filosofias amorosas mas nenhuma como a dele. Só escritores e músicos ainda guardam um pouco dessa filosofia, pois sabem que o silêncio nunca é mera ausência, mas é pintura.

Evandro – Procurar a verdade é querer estudar a anatomia do inimaginável, debulhar as cascas do incógnito?
Jorge – Verdade, anatomia, debulhar castas. Sim, a verdade é irmã da verificação, da contagem. Debulhe e conte as castas e terá uma verdade. Descreva como o corpo funciona e terá uma verdade. Não minta e será verdadeiro. Tem algo bem prosaico nessa verdade que move as agregações mundanas. Quando queremos o incógnito, porém, sabemos procurar intuitivamente outra verdade, a verdade grega. A verdade de tudo aquilo que não pode ser esquecido, aletheia, e que não por acaso está na boca das musas, sutilmente guardada como o holocausto para o Primo Levi, a madelaine para Proust, os olhos oblícuos da Capitu de Machado de Assis.

Evandro – Agora, com o tempo, tenho conseguido polir os avanços com o verniz da parcimônia. E você? Já se afeiçoou aos recuos? É condescendente com os retrocederes?
Jorge – Já me afeiçoei aos recuos táticos shakespearianos necessários durante as traições, os velórios inconcebíveis, ou quando percebemos o envelhecimento das coisas até então eternas. Como diz o poeta Brodsky, a vida está muito aquém da poesia, porque a vida procura o clichê. Na vida, a mesquinhez pode ser questão de inteligência, mas nunca na obra.

Evandro – É possível rastrear lampejos?
Jorge – Estamos sendo sutilmente treinados para não perceber os lampejos. Vivemos uma religião sem dogma. Tudo é fugaz como um post, uma encomenda, um aplicativo. Mas nada atrai para o ser. Ultimamente penso nos escritores como os únicos capazes de rastrear lampejos. Somente eles conseguem narrar algo, mesmo sem pronúncia.

Evandro – E quando você se sente refém das ciladas da afoiteza? Sim: quando percebe que está transgredindo os preceitos da precaução?
Jorge – Ouvi de um amigo latinista que a toga viril ou pura era um tipo de toga que, na Roma Antiga, tinha um significado particular, pois vesti-la significava a passagem da infância para a adolescência. Segundo Varrão, a infância entre os romanos durava até os 16 anos; a adolescência dos 16 aos 30 anos e a juventude dos 30 aos 45 anos. Hoje, a precaução não é para mim hesitação. É apenas um momento do pensamento, como para aquele que conhece seu território.

Evandro – Você já ensinou seu próprio olhar a refutar angústias e todos os seus apetrechos melancólicos?
Jorge – Acredito piamente em Espinosa. E ele não acredita que o próprio olhar seja capaz de refutar angústias, mas somente o olhar dos outros – ou melhor, no diálogo com o outro – é que se consegue, de fora observar o círculo completo da alma se refazendo através dos relampejos expostos pelos atos e palavras.

Evandro – É possível se precaver contra as próprias contradições?
Jorge – No fim da vida, disseram que Sartre se contradizia muito. Ficou amigo de um jovem escritor que atuava como sua própria memória. Ele então explicava a ligação entre ambos como uma amizade utilitária, pois não podemos lembrar sobre tudo que dissemos e ainda ter que justificá-las.

Evandro – Você já aprendeu a farejar com antecedência uma rua sem saída?
Jorge – Há quem diga que em alemão todas as ruas sem saída são, na verdade, rua de mão única. E que Walter Benjamin estaria pensando em ambos os sentidos quando escreveu. Afinal nosso progresso é sempre o ir burramente para frente, o que não deixa de ser uma falta de opção.

Evandro – E quando as mágoas se embrenham nas suas entranhas? Como se livrar dos urros do rancor?
Jorge – A tristeza é algo que precisa ser mapeado em cada um. Não psicanaliticamente. As mágoas e tristezas fazem do apático um ser, mesmo em silêncio. Não é possível conversar com rostos revoltados. E isso é de certa forma um presente das horas de mágoa.

Evandro – E as certezas? Vida toda ultrapassamos, se tanto, o pórtico do talvez?
Jorge – As certezas são para quem acredita que o mundo está aí iluminado para todos, duradouro, eterno, real. Se a mão sente, quem sente a mão? Dizem que é possível resumir toda a filosofia em três situações. Entre os que acreditam no frágil vínculo entre as palavras e as coisas; os que acreditam que não há nenhuma ligação garantida entre palavras e coisas; e por fim, aqueles mais conformados, que postulam que enquanto estiver funcionando, melhor deixar que as palavras e as coisas andem juntas. Eu me filio a este último partido.

Fragmentos

Vida? Não dei conta deste empreendimento íngreme demais.

Motejos

Livros de minha autoria

1996Bombons Recheados de Cicuta (Paulicéia)
2000Grogotó! (Topbooks)
2002Araã! (Hedra)
2004Erefuê (Editora 34)
2005Zaratempô! (Editora 34)
2006Catrâmbias! (Editora 34)
2010Minha Mãe se Matou sem Dizer Adeus (Record)
2012O Mendigo que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Rotterdam (Record)
2014Os Piores Dias de Minha Vida Foram Todos (Record)
2016Não Tive Nenhum Prazer em Conhecê-los (Record)
2017Nunca Houve tanto Fim como Agora (Record)
2018Epigramas Recheados de Cicuta – com Juliano Garcia Pessanha ((Sesi Editora)
2019Moça Quase-viva Enrodilhada numa Amoreira Quase-morta (Editora Nós)
2019 – (Plaquetes) – Levaram Tudo dele, Inclusive Alguns Pressentimentos, Certos Seres Chuvosos não Facilitam a Própria Estiagem e Anatomia do Inimaginável.
2020Ontologias Mínimas (Editora Faria e Silva)
2021Rei Revés (Record)

Foto principal

As fotos que abrem este blog pertencem ao meu futuro livro, Ruínas. Passei um ano fotografando paredes carcomidas pelos becos, veredas, ruas do centro, e de alguns bairros paulistanos.

As imagens apresentam uma concretude pobre e miserável, de ruína mesmo, que na sua própria deterioração encontra rasgos inesperados de um refinado expressionismo abstrato – força das paredes arruinadas e das tintas expressivas do tempo. (Alcir Pécora)

Capa: Marcelo Girard

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