Apolo, Jacinto e Zhefiro: vida, ciúme doentio, morte e eternidade

FREDERICO MORIARTY – Entre as muitas esposas e seus muitos filhos, Zeus enamorou-se de Leto, a deusa do anoitecer. Do amor nasceram os gêmeos Artemis, a deusa da caça e Apolo. Apolo e Artemis eram de uma beleza estonteante. Apolo é um dos mais importantes deuses do panteão grego. Um deus masculino fisicamente perfeito, Apolo é o pai da Razão. Em verdade, Apolo é Deus de muitas coisas. Deus da caça, do arco e flecha, da morte súbita, da música, da poesia, das artes e claro, o senhor deus das guerras.

Apolo. Museu Vaticano

Nietzsche defendeu no Nascimento da Tragédia (1871) que a nossa vida é um sutil equilíbrio entre o lado “apolíneo” e o lado “dionisíaco”. Dionísio é filho de Zeus, portanto meio-irmão de Apolo. Deus dos prazeres da vida e da carne. Dos estados insanos da alma, do vinho, das festas, do sexo. Dionísio é intenso, instintivo livre. Apolo e Dionísio são símbolos opostos. Contraditórios como a vida. O filósofo alemão leva a discussão para a Estética. Segundo ele, na Grécia antiga, o teatro de Sófocles e Ésquilo deixava claro o equilíbrio tênue entre o espírito apolíneo e o dionisíaco. A tensão entre a doença racional e o princípio do prazer conduzia a peça à Tragédia. A identificação da plateia com a história era total. Nossa vida é uma tragédia. Nossas decisões racionais são, quase sempre, erradas. Os caminhos do instinto sempre são incompletos. Somos uma comédia de erros. Nietzsche critica Sócrates e o racionalismo dialético dele. O Apolíneo é dor e sofrimento. Por outro lado o Dionisíaco constantemente procura afirmar a vida. Seja em prazer ou dor,  sofrimento ou a alegria, a inebriante folia de Dionísio tem para com a vida perpetua o crescimento e o florescimento visceral da existência.

Nietzsche nos alerta para o sentido de Deus em Assim falava Zaratustra – um livro para todos e para ninguém (1885). Em certa passagem, o heroi Zaratustra fala:

É verdade: amamos a vida não porque estejamos habituados à vida, mas ao amor.

Há sempre o seu quê de loucura no amor; mas também há sempre o seu quê de razão na loucura.

Eu só poderia crer num Deus que soubesse dançar (…)

Os deuses gregos sabiam dançar. Os deuses gregos sabiam amar, trair, enganar, prejudicar ou salvar os homens. Eram deuses humanos, profundamente humanos. Nenhuma proximidade com o Deus judaico-cristão ou mesmo Alá. Eram deuses como Zhefiro, um dos 4 deuses do vento. Boreas era o vento norte. Eurus o vento leste. Nótus o vento sul. Zhefiro o vento oeste. Havia ainda o Deus dos deuses, o pai do ventos: Eolos ( daí a palavra “eólico” em português). Zhefiro era o vento leve e bondoso que refrescava. Foi ele que trouxe Psiché para Eros. Era Zhefiro que seduzia e fecundava as éguas da Lusitânia, por isso os cavalos da região tornavam-se os mais velozes do mundo antigo.

Apolo e Jacinto. Vaso grego do séc.IV a.C.

O mais belo dos soldados espartanos opôs Zhefiro a Apolo. Os dois deuses se apaixonaram por Jacinto, um simples mortal. Lindo, mas mortal. Apolo termina por vencer a disputa romântica. Jacinto torna-se o grande amor do Deus da Razão. Apolo o leva para o Olimpo. Deixa o amado desfrutar do néctar dos deuses. O ensina arco e flecha. Passeiam pelos campos e colinas, banham-se nas cachoeiras sagradas. Fazem amor em choupanas de ouro. Vivem um grande amor, como àqueles que assistimos na Sessão da Tarde. Rejeitado por Jacinto, Zhefiro se vinga. Numa bela tarde de sol, Apolo ensina Jacinto a jogar o disco de ferro aos céus. Quando Jacinto esperava o disco cair, Zhefiro sopra a peça com seu vento oeste e o artefato cai no meio da cabeça de Jacinto, que desfalece em sangue. Apolo corre até o amado. Dá-lhe um jarro de ambrosia, a bebida sagrada do Olimpo, mas era tarde. As três Fates já haviam terminado de tecer o tapete. Jacinto falece nos braços do senhor da guerra. Fates são as 3 deusas da mitologia grega também conhecidas como deusas Destino. Na história, elas vivem a tecer um tapete durante nossa vida. Quando o tear se encerra, não há mais o que fazer, nossa vida deixa de existir. Daí vem a ideia de inexorabilidade do destino. Somos muito pequenos para intervir na nossa existência. Esta é apenas um tênue fio. Interessante que o nome Fates também aparece numa palavra com sentido trágico em português: fatalidade.

As 3 Fates. Deusas Destino.

Apolo não se conforma. Chora desesperadamente. Solta gritos de lamentos. Ais e mais ais. Diz a lenda que do sangue rubro de Jacinto com as lágrimas de Apolo nasceu uma belíssima flor de cor púrpura, com um desenho interno que lembra um “ai”. O Jacinto antigo, hoje o ” delfinum”. Apolo viveu dionisiacamente e deu origem a uma tragédia.

O delfinum ou Jacinto antigo

Sim, meus leitores, a história de Apolo, Jacinto e Zhefiro é um clássico triângulo amoroso. E mais interessante ainda, um triângulo homossexual. Difícil não achar que a Grécia era um milagre cultural, filosófico e humano. Vinte e cinco séculos atrás, os gregos e seus deuses sabiam o que era amor. Hoje esquecida, a história de amor entre Apolo e Jacinto, além da Tragédia imposta por Zhefiro, inspirou Mozart a escrever sua primeira ópera aos 11 anos.

Outra tragédia dum triângulo amoroso homossexual é a história de Harvey Milk. Milk era um americano médio normal até seus 40 anos. Seus amores e desejos homossexuais ficavam escondidos em Nova York. Milk cogitou até casar -se com uma amiga lésbica, para que os dois tivessem um álibi para a sociedade. Em 1972 ele decide viver uma grande paixão. Vem para São Francisco e vai morar na famosa rua Castro, epicentro inicial da luta dos LGBT’s na cidade. Ali vira um ativista da causa, decide lutar politicamente pelo amor e liberdade homossexual. Em 1979 é eleito para o cargo de supervisor da cidade (um vereador com mais poderes). Na mesma legislatura, o pastor conservador Dan White também é eleito. Mas logo no primeiro mês é cassado. White põe a culpa na ” conspiração gay”. Como todo bom falso moralista tinha dois assessores homossexuais. Relatos de época dizem que White e Milk eram amigos fraternos. Ou seja, com certeza ele era um ” enrustido”. Milk fica no cargo por 11 meses. Torna-se conhecido nacionalmente. Aprova duas leis de direitos civis aos homossexuais. É o primeiro e até hoje o mais importante político assumidamente gay nos Estados Unidos e que lutou pela causa. Em 28 de novembro de 1979, White entra na prefeitura e mata o prefeito da cidade com 5 tiros. Sai da sala e dispara 7 tiros contra Milk ( 5 deles na cabeça). Milk morre nos braços de sua assessora. No ano seguinte, um júri de homens héteros, brancos e cristãos considera que Dan White não teve a intenção de cometer o duplo homicídio, condenando-o a apenas 7 anos ( dos quais ficou preso 4). São Francisco pega fogo. O sangue rubro de Milk misturados com as lágrimas e ódio dos LGBT ‘s encheu de luta e esperança a cidade. A história de Milk virou um documentário premiado com um Oscar em 1985 e um belíssimo filme de Gus von Sant em que Sean Penn (também venceu o Oscar de melhor ator) interpreta de forma magistral Harvey Milk. Milk é um Jacinto contemporâneo. Sua flor desabrochou muitas lutas recentes. Sua frase de efeito quando passou os 11 meses de mandato sendo ameaçado de morte valem como ouro até hoje:

” Que as balas que me atinjam sirvam pra derrubar todos os cadeados dos armários”.

Harvey Milk
Sean Penn como Harvey Milk

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