Recém-chegada ao Brasil, a safra 2017 do Petit Caro, rótulo feito a quatro mãos pela argentina Catena e a francesa Barons de Rothschild, faz suspirar todo fã da Malbec

MARCO MERGUIZZO – No mundo do vinho, quando se ouve falar sobre o lançamento de uma nova safra, o sentimento daqueles que apreciam a mais apaixonante das bebidas criadas pelo homem é de um misto de alegria, prazer e súbito regozijo. Tão gratificante e crucial quanto a vindima – a festa da colheita das uvas que serão a matéria-prima basilar de um vinho -, a possibilidade de desfrutar na taça de um árduo e profícuo trabalho realizado ao longo de todo um ano ou de vários (se ele é um vinho de guarda) -, é infinitamente recompensador.

Mais: é uma satisfação em dose dupla, com o perdão do trocadilho, já que, para o produtor, a bebida por ele imaginada no vinhedo e materializada na adega pelo enólogo, é como se fosse o nascimento de um filho de verdade. Um ciclo precioso que se completa desde o instante de concebê-lo, depois moldá-lo – e, por que, não? amá-lo -, incluindo, ainda, obviamente, alguns percalços, como as intempéries do tempo e a imprevisibilidade da natureza, além de outras vicissitudes que se colocam no cotidiano do vinhateiro, como também acontece, por sinal, na vida de todos nós.

Já para o enófilo é um privilégio saborear um rótulo que acaba de ser lançado no mercado. Melhor: de ter a oportunidade de desarrolhá-lo em primeira mão não só para matar a expectativa e a curiosidade – além da sede, obviamente -, mas o de poder desvendar e decodificar a proposta enológica daquele rótulo; identificar a filosofia da própria vinícola; constatar as influências do terroir de origem; descobrir cada nuance e detalhe de produção na busca de se preservar a tipicidade da uva e a correta utilização da madeira, além do resgate fabuloso de personagens e histórias incríveis que se escondem por trás de uma garrafa de vinho.

O que dizer então de dois expoentes mundiais desse irresistível universo, que se unem para criar um caldo a quatro mãos com o máximo rigor, conhecimento e sabedoria enológicos, tradição secular e paixão? É o caso da bodega argentino-francesa CaRo, que reúne a mística da vinícola mendocina, a centenária Catena Zapata, e o icônico Château Domaine Barons de Rothschild-Lafite, cujos cobiçados vinhedos estão localizados na região do Médoc francês (conheça mais detalhes dessa bem-sucedida parceria logo abaixo).

Vendido desde o seu lançamento, em 2017, no país hermano, pátria-natal da vinícola – o Petit Caro (R$ 173 no site da importadora Mistral, de São Paulo) é considerado o segundo rótulo ou o “hermano menor”, o irmão mais novo, em bom português, desse premiado produtor. Ele chega só agora aqui para o consumidor brasileiro, com um delay, digamos, de quatro anos, por intermédio da importadora paulistana.

É um tinto de corte cativante, com predominância da uva-símbolo da Argentina, a Malbec, com 65%; a Cabernet Sauvignon, com 32%; e Cabernet Franc (3%), castas provenientes de lotes selecionados de vinhas velhas (com idade acima de 50 anos), em Lujan de Cuyo, nos arredores de Mendoza, e também de Altamira, onde os vinhedos estão plantados a 1.000m acima do nível do mar, no antigo leito aluvial do rio Tunuyan. Lançado pela primeira vez em 1999, a safra de 2017 é a vigésima-segunda do Petit Caro.

Rico, elegante e repleto de camadas, este rótulo sedutor, de ótima relação preço-prazer, mostra toda a classe e elegância característicos do seu “mano mais velho”, o Caro – o topo de gama da vinícola de estilo grandioso e apontado por críticos internacionais como um dos melhores vinhos da Argentina –, mas em uma versão que oferece grande prazer desde jovem (com pouco tempo de garrafa) e a um custo muitíssimo menor.

De coloração rubi profunda, apresenta notas intensas de flores brancas, cerejas vermelhas e figos. Na boca é suculento e complexo, com notas de cravo e outras especiarias. Essencialmente gastronômico, característica dos grandes vinhos, combina com receitas que levam carnes vermelhas (grelhadas, assadas e na forma de churrasco, de preferência com cortes argentinos), de caça e cordeiro. Para quem ama a Malbec e as demais castas bordalesas, é um belíssimo achado – e, melhor, não irá machucar o seu bolso, mesmo nestes tempos de dólar nas alturas.


Uma nobre linhagem

Fruto da união da família Catena e a Domaines Barons de Rothschild-Lafite, as Bodegas CaRo são um dos expoentes na produção de grands crus classés sul-americanos, sinônimo na taça de classe, muita classe
Foto: Divulgação

Acostumada a sorver os Malbecões originários da região argentina de Mendoza, muita gente pensa que o país vizinho só produz rótulos simples e básicos a partir de sua uva-símbolo. Ledo engano.

Nascida da feliz união entre dois gigantes do vinho – a Domaines Barons de Rothschild-Lafite e a família Catena -, as Bodegas CaRo (Catena & Rothschild), com seus tintos de parcela excepcionais de estilo francês, é um dos grandes expoentes na categoria de supervinhos sul-americanos moldados a partir do conceito enológico dos Grands Crus Classés bordaleses.

Sem perder a identidade dos terroirs locais, tais caldos costumam apresentar a elegância e a classe dos rótulos do Velho Mundo – daí ostentarem boa dose de prestígio e reputação e preços que ultrapassam os três dígitos.

Ao lado de outros projetos similares levados a cabo no continente, como os chilenos Seña, Almaviva e Don Melchor (este último, o topo de gama da gigante Concha y Toro, que teve a primazia de inaugurar essa linhagem de rótulos premium, no final dos anos 1980) – a CaRo é uma joint-venture de duas décadas de existência, cuja parceria bem-sucedida nasceu a partir da expertise, princípios e objetivos comuns desses dois clãs gigantes no mundo do vinho, visando a criar o primeiro Grand Cru Classé argentino produzido em Mendoza.

Cabe, aqui, um parêntesis técnico. Criado na região da Borgonha pelos monges cistercienses, exímios vitivinicultores durante o período medieval, o conceito de cru (particípio passado do verbo francês croître, uma derivação do latim crescere, que significa crescer em bom português) define a parcela homogênea de um vinhedo que origina vinhos superiores.

A região francesa do Médoc e Mendoza, embaixo: cenários idílicos

Ou seja, safra após safra, esse território especifico da vinha apresenta características de solo e microclima e uma constância de resultados vinícolas. Áreas consideradas preciosas, muitas delas chegaram até a ser muradas pelos religiosos dando origem aos Clos – termo que batiza os famosos vinhedos existentes na França que são “fechados” e protegidos por muros.

Além de delimitar os Crus, os monges também passaram a classificá-los qualitativamente, criando dois níveis superiores: o Grand Cru e o Premier Cru. Tal classificação passou a ser adotada também em outras regiões vinícolas do país, como Champagne e Bordeaux. Nesta, em especial, a legislação de 1855 criou cinco categorias de crus – do Premier (primeiro) ao Cinquième (quinto) – classificando os châteaux bordaleses e, não, as áreas de cultivo de vinhedos.

DOIS GIGANTES DA TAÇA

Fotos deste post: bancos de imagens digitais gratuitos

“A CaRo é um projeto conjunto de duas famílias amigas que são especialistas mundiais em Cabernet Sauvignon (os Rotschild) e Malbec (os Catena)”, diz Laura Catena, herdeira e atual diretora geral das premiadas bodegas Catena Zapata e CaRo (confira a entrevista exclusiva que ela concedeu ao blog, em 2020, clicando aqui). “O resultado tanto no vinhedo quanto na taça acaba por refletir o melhor dessas duas variedades e a obsessão das nossas famílias pela qualidade”, ressalta.

De acordo com ela, a ideia de formar uma parceria com o renomado Château Lafite Rothschild, uma união liderada por dois visionários: o empresário Eric de Rothschild e por seu pai, o lendário produtor Nicolás Catena, foi tratada pela primeira vez em 1988, exatamente um ano depois de o projeto Don Melchor decolar no Chile.

À mesma época, os Rothschild, que tinham uma joint-venture com a bodega chilena Los Vascos, lançaram o vinho premium Le Dixpara para comemorar os dez anos de parceria no pais vizinho. Ou seja, parcerias com grandes produtores franceses e europeus foram cruciais para impulsionar e alavancar a produção de rótulos de excelência por todo o continente, nas últimas décadas.

O entusiasmo inicial tornou-se rapidamente um plano concreto para produzir um vinho único que combinasse as culturas francesa e argentina e a experiência das duas casas com essas duas variedades emblemáticas, visando à sua máxima qualidade.

Laura com o pai, o legendário produtor argentino Nicolás Catena

Com quatro gerações e 120 anos dedicados à produção de vinhos em Mendoza, a família Catena valeu-se do seu amplo conhecimento de vinhedos de altitude e a paixão pela uva Malbec para encontrar as melhores vinhas dentro do terroir mendocino de Godoy Cruz.

Os Rothschild, por sua vez, trouxeram sua enorme expertise ao longo de mais de um século com a Cabernet Sauvignon e a sua mestria em elaborar grandes vinhos através da combinação de diferentes varietais.

Atualmente, a gestão técnica da propriedade e a vinificação são realizadas pelo enólogo argentino Fernando Buscema, responsável por estabelecer uma sintonia fina permanente com o diretor técnico de propriedades da Lafite, Olivier Tregoat.

Touchée! Em 1999, o sonho enfim se materializaria com o surgimento da Bodegas CaRo. Desde então, intercâmbios e constantes trabalhos de seleção foram realizados para produzir, em 2000, a primeira safra do CaRo: um corte esplêndido e refinado de Malbec e de Cabernet Sauvignon.

Cultivadas em duas zonas históricas de Mendoza situadas nos valles Central (Cuyo, Maipú) e Uco, as uvas da vinícola são colhidas manualmente, com rendimentos limitados. O vinho amadurece, a seguir, durante 18 meses em barricas de carvalho francês produzidas pela própria Lafite-Rothschild, sendo 60% são de primeiro uso. De perfil elegante e aristocrático como um autêntico Bordeaux, ele leva não por acaso o nome da bodega na etiqueta.

Aclamado mundialmente, até hoje é um dos rótulos mais cobiçados pelos enófilos e de maior procura entre os admiradores mais fiéis das duas vinícolas. Desde a primeira safra, o CaRo tem recebido altas pontuações da imprensa especializada internacional, consolidando-se como um dos grandes vinhos ícones da América do Sul. Disponíveis no Brasil, as safras 2013 e 2015 (mescla de 15% da Cabernet Sauvignon e 85% da Malbec) alcançaram entre 92 e 95 pontos, segundo avaliações de Robert Parker e da Wine Spectator.

De acordo com a avaliação do crítico americano, “é um vinho de notável profundidade de fruta, cheio de nuances e grande elegância”. Já para a rigorosíssima crítica inglesa Jancis Robinson, “é um tinto que tem algo de vivacidade de uma boa safra de Lafite. A maestria no uso do carvalho o eleva e o distingue de outros Malbecs mendocinos.”  

Foto: Divulgação

O fato é que o sucesso de público e crítica deste cult wine grandioso levou os Catena e os Rothschild a projetarem um outro rótulo: o Amancaya que, como seu antecessor, oferece um equilíbrio harmonioso da identidade argentina com o estilo de Bordeaux.

Com a mesma ascendência nobre do CaRo, este deuxième vin é como seu mano mais famoso uma mescla da Cabernet Sauvignon e Malbec, elaborado em proporções diferentes a cada ano, que pode variar ora entre 35% e 65% ora fifty-to-fifty, dependendo da safra. Antes de ser engarrafado, o caldo estagia durante 12 meses em carvalho francês.

Com excepcional relação custo-prazer, a safra 2012 mereceu 92 pontos das revistas especializadas Wine Spectator e Wine Enthusiast. E mais: esta última publicação indicou o Amancaya como o vinho “Editor’s choice” (Escolha do editor) — avaliação extraordinária para um rótulo hoje na faixa dos R$ 150.

Abaixo disso, na casa dos R$ 100, há também o mais jovem rótulo desta premiada bodega mendocina – o Aruma – um varietal feito a partir da uva Malbec sem passagem por barrica. De qualidade superlativa, ambos são best-buys que, ao lado do classudo CaRo, levam a assinatura, o DNA e a aura de duas das mais célebres famílias do vinho e que valem – e muito – ter na adega.

Os vinhos das Bodegas CaRo e Catena Zapata são comercializados no Brasil pela importadora Mistral, de São Paulo.


MARCO MERGUIZZO 
é jornalista profissional 
especializado em gastronomia, 
vinhos, viagens e outras 
coisas boas da vida. 
Escreve neste Coletivo 
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