As três mortes de Alexandria

TERCEIRA MARGEM – 2 ANOS DO COLETIVO DE BLOGUEIROS

14/03/2019 – 14/03/2021

FREDERICO MORIARTY – Os pragmáticos e utilitaristas norte-americanos guardam tudo. Tem até museu da bateria na terra dos Bush. Os franceses adoram colecionar o passado. Paris tem o museu dos museus, o Louvre. O palácio imperial japonês está intacto há mais de mil anos. Nem os comunistas chineses tiveram coragem de derrubar os mais de 8700 quartos e salas da Cidade Proibida. Machu Pichu sobrevive. Aqui não. Na terra do pogreço tudo deve dar lugar aos xópins, aos maquidonaldis e, claro, aos estacionamentos. Terra de carros possantes.

Placa do séc. VI a.C de Assurbanipal (Museu de Londres)

A primeira biblioteca que se tem notícia foi construída pelo rei assírio Assurbanipal. O rei ergueu um prédio no século VII a.C. com cerca de 50 mil placas em argila, talhadas com escrita cuneiforme. Entre as obras preservadas estavam a epopeia do rei Gilgamesh, o livro mais importante dos povos babilônicos e a obra religiosa Enuma Elish.

Construída às margens do rio Tigre, na então capital assíria, a cidade de Nínive (distante 500km de Babilônia e seus jardins). Desapareceu alguns séculos depois e foi reencontrada por arqueológos apenas no século XIX . Quase todo o acervo está no Museu de Londres, incluindo o maravilhoso livro de Elish, muito semelhante ao Genesis. Veja passagem da Primeira Tábua:

Quando no alto não se nomeava o céu,

E em baixo a terra não tinha nome,

Do oceano primordial (Apsu), seu pai;

E da tumultuosa (Tiamate), a mãe de todos,

suas águas se fundiam numa,

e nenhum campo estava formado,

nem pântanos eram vistos;

quando nenhum dos deuses

tinha sido chamado a existência

(Enuma Elish – Tábua I)
Mapa do Complexo Cultural de Alexandria

A maior e mais famosa biblioteca do mundo antigo foi a de Alexandria. cidade que fica no delta do Nilo na boca do Mediterrâneo, pertinho da Macedônia. Hoje tem 5,5 milhões de habitantes. Sob influência de Demetrium de Phalerum, o primeiro faraó da dinastia greco-macedônica, Ptolomeu I, ex-general de Alexandre o Grande, iniciou a edificação do Mouseion, dedicada às nove musas da Mitologia grega.

Os diversos prédios foram concluídos na metade do século III a.C. , um deles abrigava a Biblioteca de Alexandria. Numa política agressiva, suas alas foram crescendo e chegaram a atingir mais de 400 mil rolos de papiro, equivalentes a 100 mil livros atuais. Boa parte da cultura oriental e helenística anterior estavam entre os imensos papiros.

Mas eram nos grandes salões e jardins do Mouseion que a cultura antiga fervilhava. Pensadores de toda a Ásia Menor e Egito vinham estudar no centro do saber. No auge, os pátios de Alexandria chegaram a abrigar mais de 1000 alunos. Lembrava um centro universitário. Uma academia de conhecimento que teve em sua direção: Zenodotus de Éfeso, responsável pela compilação dos poemas Homéricos; Apollonius de Rhodes, autor dos Argonautas; Eratosthenes, o primeiro pesquisador a calcular a circunferência da terra e defender que a mesma é redonda; além dos pais das ciências exatas Arquimedes e Euclides. O faraó Ptolomeu IV ergueu o último pavimento do complexo, o templo de Serafeu.

Museu de Londres: xilogravura da Biblioteca de Alexandria

Para se ter uma ideia da dimensão da Biblioteca, um livro atual caberia numa sala de 10 metros, com as dezenas de estantes a sustentar os rolos e mais rolos dos ancestrais do papel, o papiro e o pergaminho. Galeno (um dos pais da medicina) dizia que todo navio que aportasse na cidade era obrigado a trazer o conhecimento e a arte produzida na terra natal dos navegantes e entregá-los ao Mouseion para poder descer no porto.

Em Alexandria, os sábios traduziam tudo para o copta. A bilbioteca tinha uma coleção de poesia, livros e textos que ia da Grécia à Pérsia antigas. Foram naqueles salões que nasceram a linguística e a filologia. Lá também, os poemas cantados da Ilíada e Odisseia foram finalmente compilados e eternamente grafados em forma escrita.

Platão, Aristóteles e excertos dos Pré-Socráticos foram salvos da destruição pelo tempo graças à Biblioteca de Alexandria. Quase todo o teatro grego que conhecemos deve-se aos papiros egípcios. A medicina ganhou o Livro dos Mortos e sua catalogação de mais de uma centena de doenças dos pergaminhos egípcios.

Mas o imenso prédio da biblioteca não era uno. Ele era cercado de jardins e fontes belíssimas, além do prédio central em homenagem às Musas. Essa verdadeira academia de ciência concentrava estudantes que recebiam bolsas, salários e eram isentos de tributos para poder dedicar toda a vida a produzir conhecimento. Estudava-se poesia, dança, teatro, línguas, plantas, doenças, insetos, animais e tudo que pudesse remeter ao entendimento da vida.

Nos salóes do Mouseion passaram Aristarco e uma infinidade de sábios e cientistas. Com pouco mais de 2 séculos de vida, Júlio César, o general romano, tascou fogo na zona portuária de Alexandria para arder os soldados egípcios leais a Pompeu. Queimou milhares de homens e a Biblioteca foi a reboque.

Um acervo reduzido foi levado para o Serapeum e colocado no templo do Deus. A Biblioteca ruiu, mas o Mouseion ainda resistiu ao administrador Teófilo. Nomeado por Teodósio em fins do século IV d.C., ele mandou queimar tudo que contrariasse a Bíblia. Passaram-se mais de três séculos até que o califa Omar desse a terceira sentença de morte a um dos maiores complexos históricos e culturais de toda a humanidade.

O califa mandou arder em chamas todo o Mouseion e a biblioteca reserva de Serapeum. Os papiros, pergaminhos e tudo que produzisse fogo foi utilizado para aquecer as termas da cidade. Nem cinzas restaram. Interessante notar que na primeira morte, desapareceu junto da Biblioteca o Egito Macedônico. Do primeiro grande Império da humanidade restaram só ruínas. Na segunda, destruição feita por romanos e cristãos, logo após o Império Romano desfazer-se como pó. A derradeira morte levou junto com ela a riquíssima cultura árabe. A História nunca perdoa a ignorância.

O Palácio Real (1808)

Nossos museus sofrem também com três assassinos: os governos, os cidadãos e a ignorância. Nosso maior acervo desapareceu. Construído em 1808 para abrigar a família real portuguesa que fugira da Europa, o prédio serviu de Casa Real até 1820. Localizado na belíssima Quinta da Boa Vista, o Palácio cresceu após a independência. Ganhou um imenso jardim botânico e um zoológico.

Virou Palácio Imperial entre 1823 e 1889. Com a proclamação da República sediou o Congresso Nacional entre 1890 e 1891. No ano seguinte foi tombado e tornou-se o Museu Nacional do Rio de Janeiro. Contava com um dos cinco maiores acervos mundiais de História Natural. Além disso, em suas salas encontrávamos quase 2 milhões de peças de história, arqueologia, antropologia, ciências e artes em geral.

Em 2 de setembro de 2018, por uma pane elétrica numa gambiarra do ar condicionado, o prédio histórico ardeu em chamas por horas. Desapareceram mais de 90% de todo o acervo do mais importante museu de toda a história do Brasil. Foi um dos mais importantes centros de pesquisa do país. Chora-se com razão por ele.

Infelizmente, o Museu Nacional não foi o primeiro (nem o sexto) incêndio a destruir o passado. E não será o último, para o nosso infortúnio. E tal situação vem de décadas. Todos os últimos governos empurraram os acervos para o lixo da realidade e a invisibilidade social. Somos um país que odeia as aulas de História, que acredita que tudo que é velho deve ser trocado por um novo, onde 2 tijolos de demolição valem mais do que um presídio do século XIX.

Nós adoramos visitar (em ritmo frenético) museus estrangeiros, tirar sélfi com o mais piegas dos quadros, a Monalisa. Somos o povo que prefere visitar as pirâmides de Elizabeth Taylor em Cleópatra, nos estúdios de Hollywood, do que dar uma passadinha no Egito. Temos orgulho em afimarque não temos passado nem cultura.

O Brasil é uma retroescavadeira de conhecimento. Temos pressa e a história tem uma longa duração. Somos os emergentes. O país que gastou 27 bilhões para sediar uma porcaria de Jogos Olímpicos (que não tem nenhum laço com os jogos antigos).

Construiu um Museu do Futuro no Rio torrando outros R$ 1 bilhão. E numa política de cortes e desprezo sucessivos “investia” de RS$ 0,5 a RS$ 1,5 milhão por ano no Museu Nacional. Nem os hidrantes funcionavam. Deveríamos é derrubar tudo. Criar um movimento. Incendiar todos os museus e bibliotecas que ainda existem. Botar no lugar imensos estacionamentos, lojas de conveniência e fotografias de paisagem.

Sinceramente, só uma meia-dúzia vai sentir falta mesmo. Essa situação piorou no governo Bolsonaro. A pandemia escancarou nosso descaso pela Cultura. Todo mundo reclama que fecharam bares, restaurantes, academia, ‘xópins’, cabeleireiros, parques e até escolas. Nunca vi um protesto pelo fechamento de teatros, bibliotecas e museus.

E quando quisermos fingir que somos educados, pegamos um voo pra qualquer país estrangeiro, entramos num museu qualquer, assinamos a lista de visitantes e saímos de fininho pela porta dos fundos-sem esquecer, é claro, de furtar a caneta do local.Virar à esquerda

O incêndio do Museu Nacional, em 2018: história em chamas

2 comentários em “As três mortes de Alexandria

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