Hoje, entrevista com Carla Camurati

Ah, os destrambelhos…

Evandro Affonso Ferreira

Pílula do dia

Pergunta insólita

Doze nós numa corda (tradução Herberto Helder)

Entrevista: Carla Camurati


Frase-pensamento de Carla Camurati


Evandro Affonso Ferreira – Procurar a verdade é querer estudar a anatomia do inimaginável, debulhar as cascas do incógnito?
Carla Camurati – Acho que sim Evandro, é muito difícil procurar a verdade… Seja nos fatos, nas pessoas ou dentro em nós. Acho que esse turbilhão de sentimentos e emoções da existência fazem com que a verdade fique ali, disfarçada, tentando se esconder.
Quantas vezes não mentimos para nós mesmos? Confrontar a verdade, quando é possível, vale a pena, apesar de sairmos muitas vezes doloridos.
Porque nem sempre as nossas verdades estão do nosso lado.

Evandro – E quando você se sente refém das ciladas da afoiteza? Sim: quando percebe que está transgredindo os preceitos da precaução?
Carla – Ao longo da vida venho melhorando no quesito afoiteza… (rsrs); consigo me ver melhor do que antes e não me sinto mais tão dominada pela afoiteza, tenho sido menos reativa e me permitido refletir mais.

Evandro – Como tanger com destreza o próprio rebanho de inquietudes?
Carla –Não tenho ideia! Aliás, gostaria de ter uma boa receita para isso… as minhas inquietudes são terríveis e não sossegam por nada! São um campo que observo com distância para não enlouquecer… meu rebanho de inquietudes está ligado aos sentimentos de potência e impotência que me assolam o coração.

Evandro – E quando seus passos não se adaptam de jeito nenhum às probabilidades peregrinas?
Carla – Sinto que estou no espaço errado e, quando possível, saio do caminho no qual não acerto o passo.

Evandro – Às vezes, nem sempre, estoico, consigo trocar a penúltima vogal pela primeira: ao invés de odiar, adiar. E você?
Carla –Depende da situação… Em muitas situações prefiro sentir o ódio, mesmo que muito tóxico, e me livrar dele, do que cozinhá-lo em banho-maria.

Evandro – Você tem o hábito de jogar sementes de conformismo sobre seu terreno baldio?
Carla –Devo dizer que tenho mais sementes de inconformismo para jogar para o mundo do que as de conformismo…

Evandro – Existe nele, seu baú invisível, uma penca de irrealizações?
Carla –Tenho algumas bem claras que me fazem sofrer, mas não carrego comigo esse sentimento. Elas ficam ali, inacabadas, no meu baú e, às vezes, me encontro com elas.

Evandro – E quando as mágoas se embrenham nas suas entranhas? Como se livrar dos urros do rancor?
Carla– Algumas mágoas ficam carimbadas, mas nunca gostei do gosto do rancor na alma ou na boca. Então, me conformo com a tatuagem que passou a existir em mim e vou em frente! Não compro, não alimento, nem procuro o rancor.

Evandro – E Deus? Exilou-se de vez no subsolo do incognoscível?
Carla – Devo confessar que essa relação com Deus anda mais confusa com o passar da vida do que era antes… minha avó, muito católica, deixou em mim o hábito de agradecer e de falar com Deus em linha direta e cotidiana, como Adão fala no Antigo testamento. Isso sempre me fez bem, no entanto, desde que comecei a estudar e me aprofundar nas religiões para o meu próximo filme, as narrativas dramáticas que pretendem elucidar a nossa existência mais me afastam do que me aproximam de Deus.

Evandro – É possível se precaver tempo todo contra as próprias contradições?
Carla – E possível não temer as contradições e enfrentá-las grande parte do tempo. Se o seu jogo for não jogar!

Evandro – Viver? É possível se preparar para essa emboscada?
Carla – Não, acho que não. Chegamos aqui sem saber muita coisa e sem contrato assinado…(rsrs) Ninguém na vida é funcionário público com estabilidade, todo mundo pode ser mandado embora a qualquer momento.
Mas acho que é possível se preparar para viver sabendo que tudo vai passar… as melhores e as piores coisas, e sempre lembrar dessa máxima nos bons e nos maus momentos , assim, fica mais fácil aproveitar os momentos bons e para suportar os piores.

Evandro – Agora, com o passar do tempo, tenho conseguido polir os avanços com o verniz da parcimônia. E você? Já se afeiçoou aos recuos? É condescendente com os retrocederes?
Carla – Não diria me afeiçoar aos recuos, mas com certeza respeito e obedeço recuos.

Evandro – E a as certezas? Vida toda ultrapassamos, se tanto, o pórtico do talvez?
Carla –Tenho algumas certezas, mas prefiro o portal da dúvida; ele sempre me parece mais interessante… a dúvida me obriga à reflexão e ao aprofundamento de sentimentos e atitudes.

Fragmentos

FOTO/EVANDRO

Vive atrelado à melancolia e seu cortejo angustioso e seus penduricalhos de inquietudes. Vida toda desestabilizado diante dos enigmas dos obscuros desalentos – subjugado às estocadas da soturnidade e às bruxas dos bocejos e aos deuses do desânimo. Contam que semana passada começou a empreender surrealista tarefa de confeccionar caminhos, mas seus passos ainda não se adaptaram de jeito nenhum às probabilidades peregrinas.

Motejos

Livros de minha autoria

Foto principal

As fotos que abrem este blog pertencem ao meu futuro livro, Ruínas. Passei um ano fotografando paredes carcomidas pelos becos, veredas, ruas do centro, e de alguns bairros paulistanos.

As imagens apresentam uma concretude pobre e miserável, de ruína mesmo, que na sua própria deterioração encontra rasgos inesperados de um refinado expressionismo abstrato – força das paredes arruinadas e das tintas expressivas do tempo. (Alcir Pécora)

Capa: Marcelo Girard

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