Hoje, entrevista com Mia Couto

Os arrebatamentos

Evandro Affonso Ferreira

Pílula do dia

Pergunta insólita

Hipérion ou o Eremita da Grécia, de Friedrich Hölderlin

Trecho do livro

Entrevista: Mia Couto

Escritor, jornalista e biólogo moçambicano. Escreveu dezenas de livros, traduzidos em vários países. Ganhou, entre muitos, o Prêmio Camões e o Prêmio Neustadt International Prize for Literature, tido como o Nobel americano – Couto e João Cabral de Melo Neto foram os únicos escritores de língua portuguesa que receberam tal honraria.

Evandro Affonso Ferreira – Costumo dizer que sou muito afetivo, pegajoso, motivo pelo qual gostaria que Deus fosse palpável. Afinal, procurar Deus é querer apalpar plenitudes?
Mia Couto – O meu medo é que Deus procure por mim. E que eu seja, afinal, encontrável. Talvez eu seja, até ao fim dos meus dias, um ateu praticante.

Evandro – Agora, com o passar do tempo, tenho conseguido polir os avanços com o verniz da parcimônia. E você? Já se afeiçoou aos recuos? É condescendente com os retrocederes?
Mia – Sou um polidor do tempo, mas os brilhos que alcancei foram tão fugazes e, ao mesmo tempo, tão verdadeiros que dispensaram verniz. Conheço antecipadamente os meus recuos, as minhas retrocedências. Mas só dou conta dos meus avanços quando deles não já guardo memória.

Evandro – É aconselhável, vez em quando, se refugiar, resignante, nos estupefatos?
Mia – O refúgio, o único que sempre tive, está no momento da estupefação.

Evandro – Você já ensinou seu próprio olhar a refutar angústias e todos os seus apetrechos melancólicos?
Mia – O meu olhar é um péssimo aluno. Todos os dias nasce, como se tudo estivesse por acontecer.

Evandro – Costumo esbarrar, distraído, tempo quase todo na precipitação. E você?
Mia – Tudo o que alcancei foi por distração. E estava tão ocupado nesse alheamento que não dei conta de nada. E a precipitação que me sucede é igual à da chuva: tombo quando há que tombar.

Evandro – Você já aprendeu a farejar com antecedência uma rua sem saída?
Mia – As ruas são como a água: encontram sempre saída.

Evandro – E quando você pretende empreender tarefa de confeccionar caminhos, mas percebe que seus passos não se adaptam às probabilidades peregrinas?
Mia – Caminho não se confecciona. Revela-se. Não há tarefa. Apenas acontecimento.

Evandro – Você já inventou, para consumo próprio, símbolo gráfico indicativo para ajudá-lo a seguir os próprios instintos?
Mia – Nunca. Mas, em contrapartida, inventei os meus instintos. Um símbolo-gráfico-indicativo é coisa de muito peso. Não há instinto que aguente.

Evandro – E as certezas? Vida toda ultrapassamos, se tanto, o pórtico do talvez?
Mia – Nunca fui apto para certezas. Não porque não seja tentado: o pórtico do talvez serve para isso, para nos seduzir. Mas as certezas me cansam. Cada vez mais, cansar é muito próximo do envelhecer.

Fragmentos

FOTO/EVANDRO

Sensação de que havia desaparecido na voragem da própria ira – vivendo nos sumidouros nos escaninhos do abespinhamento. Contam que considerava pitoresco esse seu ofício de arregimentar exasperações. Difícil rastrear a geografia do insólito. Dizem também que às vezes se incomodava com a claridade excessiva do furor, com os fachos esbraseados da cólera. Desconfiam que ontem, logo cedo, atinou sobre o perigo definitivo de cultivar amiúde caudal de fúrias – motivo pelo qual começou a se dedicar ao plantio de arrependimentos.

Motejos

Livros de minha autoria

Foto principal

As fotos que abrem este blog pertencem ao meu futuro livro, Ruínas. Passei um ano fotografando paredes carcomidas pelos becos, veredas, ruas do centro, e de alguns bairros paulistanos.

As imagens apresentam uma concretude pobre e miserável, de ruína mesmo, que na sua própria deterioração encontra rasgos inesperados de um refinado expressionismo abstrato – força das paredes arruinadas e das tintas expressivas do tempo. (Alcir Pécora)

Capa: Marcelo Girard

2 comentários em “Hoje, entrevista com Mia Couto

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  1. Excelente entrevista, querido Evandro! Mas eu senti um tiquinho de Deus naquela parte em que ele fala que os caminhos “se revelam”… Mas querer que o Mia Couto deixe de seu ateu, perderia toda a sua graça!

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