A história épica e de ruptura dos vinhos supertoscanos italianos, ratificando que é preciso virar o jogo na taça, assim como na vida

MARCO MERGUIZZO – Sinônimo de modernidade e ousadia na taça, os sofisticados tintos produzidos na região da Toscana, Norte italiano, denominados pelos críticos e especialistas de “supertoscanos”, marcam o renascimento do vinho no país da Bota, a partir de 1970. Icônicos, representam a virada de mesa do cenário vinícola peninsular impulsionado por produtores visionários daquele cenográfico território de enorme tradição.

Ao contrariar a legislação ultracorservadora vigente, segundo a qual era proibido o uso de uvas estrangeiras em seus rótulos, um pequeno grupo de produtores “fora-da-lei” passou a elaborar vinhos a partir de cepas bordalesas como a Cabernet Sauvignon, a Merlot e a Cabernet Franc, dentre outras variedades de vitis vinifera oriundas do país vizinho.

Além destas, a Syrah e a Petit Verdot formavam o quarteto de variedades introduzido de modo ousado e pioneiro, há mais quase quatro décadas, pelo produtor Marchese Antinori e o enólogo-consultor Giacomo Tachis, considerados os “pais” dos chamados tintos supertoscanos.

O visual mesmerizante da região da Toscana: berço cenográfico do…
…icônico Tignanello: reverência ao pai dos supertoscanos italianos

Até a década de 1960, a grande maioria dos vinhos italianos era de qualidade inferior, com algumas exceções, caso dos Barolos e Brunellos. Ao longo daquela década, uma nova e irrequieta geração de vinhateiros surgiria, entre eles nomes que se tornariam célebres mundialmente: caso do marquês Piero Antinori, que assumiu, em 1966, a vinícola da família, e Ângelo Gaja, que, em 1961, tomou o lugar de seu pai na direção da vinícola piemontesa.

Marcado pela superprodução, por safras inferiores e pela rigidez das leis nacionais, os anos 70 fizeram com que a indústria do vinho italiano entrasse em crise. A dura realidade suscitou uma reação de alguns produtores que se mobilizaram em busca de soluções para aprimorar a qualidade de seus vinhos. Em 1971 foi realizada a primeira colheita do Tignanello, elaborado por Piero Antinori, que marca o início embrionário da produção de vinhos “fora-da-lei” em território italiano.

Un grande maestro que fez escola

O visionário produtor italiano Piero Antinori: revolução na taça

Esta revolução enológica teve início mais precisamente no final dos anos 60. Enquanto o mundo respirava a contracultura, a Toscana, berço do renascimento cultural e artístico do século XVI, contestava a ordem estabelecida na produção de vinhos. Sob esse ângulo, o “Leonardo Da Vinci” do renascimento dos vinhos italianos pode ser considerado o marquês Piero Antinori, produtor do Solaia.

O marquês assumiu os negócios da família em 1966 e representa a 26a geração de vinhateiros, seguindo uma tradição de mais de 600 anos. Fato que não o impediu de inovar. Tornou-se o pioneiro na reação dos produtores toscanos contra o status quo reinante na época. Segundo ele, “havia muitos erros na forma de se plantar e de se produzir o vinho”. A imagem geral do vinho italiano era a de um produto de quantidade em detrimento da qualidade, o que penalizava os poucos que buscavam melhorar sua produção.

Antinori, com a ajuda do enólogo Giacomo Tachis, introduziu mudanças técnicas, tais como o uso de tanques de aço inox com temperatura controlada para vinhos brancos; antecipação da colheita de alguns tipos de uvas; o engarrafamento esterilizado a frio; a fermentação malolática dos tintos; a diminuição no rendimento dos vinhedos; o uso de barris novos de carvalho esloveno e francês, mas, sobretudo, a introdução de castas estrangeiras não permitidas na região, como as francesas e globalizadas Cabernet Sauvignon e Merlot.

Fotos e Imagens deste post: arquivos digitais gratuitos e divulgação

Os problemas encontrados no início foram muitos, desde aspectos legais, técnicos e até culturais. O início da década de 1970 foi difícil para a região, com safras de qualidade inferior e problemas de superprodução. O Chianti estava em baixa, era preciso melhorar a qualidade dos vinhos e dissociar-se da imagem das garrafas revestidas de palha penduradas nos tetos das tratorias.

Neste contexto, Antinori decidiu plantar em 1970, numa de suas grandes propriedades na região do Chianti Clássico, um vinhedo de Cabernet Sauvignon, além de outras experiências que fez com castas, como a Chardonnay, a Sauvignon Blanc, a Gewurztraminer (única alemã entre as variedades brancas), a Cabernet Franc, a Merlot e a Pinot Noir, entre outras cepas francesas tintas.

Em 1971, produziu pela primeira vez o Tignanello. Não usou a branca Trebbiano, tradicionalmente utilizada para dar leveza e acidez, acrescentou 15% de Cabernet Sauvignon e 5% de Cabernet Franc, sendo o restante da casta tradicional toscana Sangiovese. Por conta destas inovações, a denominação “Chianti” não pôde ser usada e o vinho teve de ostentar em seu rótulo a classificação mais baixa da enologia italiana: “vino de tavola”.

O Tignanelo foi, então, o primeiro dos supertoscanos – uma expressão criada por ingleses e americanos para se referir aos vinhos da região que, apesar de serem na época, pela lei italiana, apenas “vino de tavola”, alcançavam alta qualidade e preço.

Antinori, há décadas, continua sendo o mais famoso produtor de vinhos de altíssima gama da Toscana. Embora sua atuação já tenha transcendido há muito esta região, com enormes investimentos nas regiões italianas de Salento, Piemonte, Franciacorta, Úmbria, além de Hungria e EUA.

Titãs fora-da-lei

Inspirados pela quebra de paradigma promovida pelo marchese Antinori, outros tintos começariam a ser feitos nos anos seguintes, nesses mesmos moldes, como os igualmente festejados Sassicaia, produzido pela Tenuta di San Guido, do marchese Mario Incisa Della Rochetta, e Ornellaia, da Tenuta Dell’Ornellaia, este último elaborado tão-somente com a Cabernet Sauvignon.

A partir destes tintos italianos emblemáticos, que formam a tríade precursora dos vinhos supertoscanos, outros produtores passaram a adotar uvas e cortes seguindo suas próprias regras, sintonizados nas tendências globais de enologia.

Com critérios rígidos de plantio, escolha de clones, condução de parreiras e vinificação, além do uso de varietais, como a Cabernet Sauvignon e a Merlot, originaram-se vinhos espetaculares mas que acabaram sendo enquadrados na denominação “Vino de Tavola”, a mais simples de todas as classificações.

Com isso, tintos italianos sem “pedigree” passaram a frequentar as listas de rótulos selecionados por júris e críticos de vinho internacionais. Melhor: passaram a ganhar prêmios, reconhecimento e fama internacionais.

Mesmo tendo em seu DNA castas não italianas e seguirem novas tendências de consumo, os supertoscanos são considerados vinhos com identidade e caráter inconfundivelmente italianos. A legislação do país, portanto, vilã no princípio, acabou por se adaptar, absorvendo as mudanças de seus vinhos.

Em 1994, um decreto ministerial criou a D.O.C. (Denominazione di Origine Controllata) Bolgheri, que permitia ao Sassicaia ser rotulado como D.O.C.. Hoje, algumas denominações, tidas como conservadoras, já permitem a adição de um certo percentual de uvas estrangeiras. Além disso, muitos rótulos recebem a classificação IGT (Indicazione Geografica Típica), sinalizando para o mercado que se trata de um supertoscano.

Além do Antinori Tignanello 2014 (94 pontos pela revista Wine Spectator; importadora Vino Mundi), reserve também um lugar especial na sua adega para os estupendos Sassicaia Bolgheri (safras 2013 e 2014; 95 pontos (WS), importado com exclusividade pela Ravin) e Ornellaia Bolgheri Superiore D.O.C. 2012, 94 pontos de Robert Parker; Via Vinum, mas prepare seu bolso, nestes tempos de dólar na estratosfera.

Mas se quiser gastar 1/5 ou 1/6, se comparado sobretudo ao ultravalorizado e quase proibitivo Sassicaia, uma dica de compra de excelente relação preço-prazer é o Rocca delle Macìe Ser Gioveto 2015, um supertoscano best-buy do portfólio da Decanter hoje disponível no site da importadora. Mescla de 80% Sangiovese e 20% de Cabernet Sauvignon e Merlot, com estágio de 14 meses em barricas de carvalho francês. Provei esta semana e o recomendo sem pensar duas vezes.

Sempre consistente, o supertoscano Ser Gioveto 2011, na safra saboreada por este blogueiro, mostra um estilo menos concentrado e estruturado quando comparado a anos anteriores, mas mantendo a tensão, o frescor e os taninos de ótima textura, que sustentam e equilibram o conjunto.

No nariz traz notas de cereja e cassis, tabaco, cedro com toques minerais e de ervas. Em boca, os taninos estão bem distribuídos em um conjunto harmonioso de longuíssimo final. Teor alcoólico: 13,5% muito bem integrado. Ainda jovem pode evoluir na garrafa. Tempo de guarda: 10 anos.

MARCO MERGUIZZO 
é jornalista profissional 
especializado em gastronomia, 
vinhos, viagens e outras 
coisas boas da vida. 
Escreve neste Coletivo 
todo domingo e quando lhe dá na veneta. Me acompanhe também no Facebook e no Instagram, acessando @marcomerguizzo  
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