Hoje, entrevista com Heloisa Seixas

Olhares procurando lonjuras…

Evandro Affonso Ferreira

Pílula do dia

Pergunta insólita

O legado de Humboldt, de Saul Bellow

Trecho do livro

Entrevista: Heloisa Seixas

Escritora, tradutora, formada em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense. Durante anos escreveu a Coluna Contos Mínimos no Jornal do Brasil. Trabalhou como jornalista no Jornal O Globo, na agência no notícias UPI, depois na assessoria de imprensa da ONU. Escreveu contos, crônicas, romances, textos sobre viagens, com Ruy Castro.

Evandro Affonso Ferreira – E quando seus passos não se adaptam de jeito nenhum às probabilidades peregrinas?
Heloisa Seixas – As probabilidades, peregrinas ou não peregrinas, se esfacelaram neste mundo louco. O imponderável se instalou entre nós. Vivemos um filme de ficção científica – há dois anos, qualquer um que tivesse apostado no futuro teria perdido a aposta.

Evandro – Costumo dizer que sou muito afetivo, pegajoso, motivo pelo qual gostaria que Deus fosse palpável. Afinal, procurar Deus é querer apalpar plenitudes?
Heloisa Seixas – Deus está ou não está, palpável ou apalpável. Deus não se procura. Nossas mentes não foram aparelhadas para essa busca.

Evandro – Procurar a verdade é querer estudar a anatomia do inimaginável, debulhar as cascas do incógnito?
Heloisa Seixas – A verdade é como Deus, está e não está, é e não é.

Evandro – Agora, com o tempo, tenho conseguido polir os avanços com o verniz da parcimônia. E você? Já se afeiçoou aos recuos? É condescendente com os retrocederes?
Heloisa Seixas – Não, prefiro sempre os andares, os caminhares, os seguires em frente, sem medo do novo. Ainda arrisco, em tudo.

Evandro – É possível rastrear lampejos?
Heloisa Seixas – O mundo hoje é só lampejos, só chispas, cintilações. Não temos mais certeza de nada, podemos apenas intuir – e esperar.

Evandro – E quando você se sente refém das ciladas da afoiteza? Sim: quando percebe que está transgredindo os preceitos da precaução?
Heloísa Seixas – No que suponho tenha sido a metade da minha vida – 40 – eu me virei do avesso e comecei a escrever. Já larguei três empregos e três maridos, sem olhar para trás. Como posso ser refém das ciladas da afoiteza?

Evandro – Você já ensinou seu próprio olhar a refutar angústias e todos os seus apetrechos melancólicos?
Heloisa Seixas – Não, tenho um certo apego à angústia, à melancolia. À dor. Às vezes elas preenchem mais do que a alegria.

Evandro – É possível se precaver contra as próprias contradições?
Heloisa Seixas – Nem possível, nem preciso, nem devido. As contradições são o fermento da criação, da ousadia. E, em última análise, da arte.

Evandro – Você já aprendeu a farejar com antecedência uma rua sem saída?
Heloisa Seixas – Não. Quando se fareja, é porque há saída.

Evandro – E quando as mágoas se embrenham nas suas entranhas? Como se livrar dos urros do rancor?
Heloisa Seixas – Se a dor é criativa, o rancor, ao contrário, paralisa. Endurece, empedra. Dele, sim, é preciso fugir.

Evandro – E as certezas? Vida toda ultrapassamos, se tanto, o pórtico do talvez?
Heloisa Seixas – O talvez é parte de nossa natureza. Somos, do nascimento à morte, um único e imenso talvez.

Fragmentos

FOTO/EVANDRO

Dias seguidos tentando-procurando desabilitar a atimia jogando-a no subsolo, no porão dos arrebatamentos. Ainda não percebeu que certos empreendimentos psicológicos carecem de sinergia, de cumplicidade idônea capaz de decodificar-decifrar os arcanos dos porquês. É difícil dissecar silhuetas do abatimento, rastrear dias sombrios. Entanto, nossa ontológica personagem acredita que o esplendor já está a caminho: encontra-se a duas quadras daqui.

Motejos

Livros de minha autoria

Foto principal

As fotos que abrem este blog pertencem ao meu futuro livro, Ruínas. Passei um ano fotografando paredes carcomidas pelos becos, veredas, ruas do centro, e de alguns bairros paulistanos.

As imagens apresentam uma concretude pobre e miserável, de ruína mesmo, que na sua própria deterioração encontra rasgos inesperados de um refinado expressionismo abstrato – força das paredes arruinadas e das tintas expressivas do tempo. (Alcir Pécora)

Capa: Marcelo Girard

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