As chuteiras douradas da vitória

FREDERICO MORIARTY – Era a quinta Copa que assistiria. A primeira foi a de 1978 com o futebol medroso de Cláudio Coutinho, o soldado que gostava de atirar corpos de “comunistas” dum helicóptero para as profundezas do Atlântico. Cansado das derrotas anteriores – principalmente nas copas de 1982 e 1986, com Telê e seus times mágicos – e desanimado com o time de Parreira, formado por um meio campo de 3 médios volantes (entre eles, o grosso Dunga, um Chicão sem bigodes, marquei viagem para o Chile nos primeiros dias de julho de 1994. Chegasse o Brasil às semifinais eu estaria em Santiago, mas como acreditava ser difícil, me fui ao Chile.

O baixinho Romário: o jogador decisivo em 1994

Em Chile, visitei meu amigo German Covarrubias. Ligado ao movimento estudantil chileno, German fazia Sociologia na Universidade do Chile em 1984. Foi perseguido, preso pela ditadura de Pinochet e depois passou 6 meses numa prisão em meio a um deserto no norte do Chile. Conseguiu fugir para o Brasil. Escondido trabalhou 1 ano como pedreiro em Guarulhos. A peãozada, ao saber do passado, pagou-lhe um cursinho noturno.

German entrou na PUC-SP. Com o fim da ditadura voltou à terra natal em 1989. Dois anos depois veio concluir o curso no Brasil. Voltou novamente para o Chile e está lá até hoje. Véio 1994 e fui conhecer a terra de Allende. Fiquei no apartamentozinho russo em que ele morava (nos anos 1970, governo Allende, centenas de pequenos prédios foram construídos no país. Conheci Santiago.

Fui a Viña del Mar. Visitei a casa de pedra de Neruda – o mal-educado chileno não estava lá me esperando. Comi muitas empanadas e vinho nacional. German é um dos maiores contadores de história que conheço. Teatraliza a palavra, usa de tiques e recursos cênicos, de tal forma que parecemos vivenciar o contado. No apartamento comunista, vi a vitória sofrida contra a Suécia e o passaporte para as finais (depois de 24 anos, o Brasil chegava novamente a uma final de Copa do Mundo). 

La Sebastiana: uma das casas de Neruda

Domingo frio, a final. Preparei um belo nhocão de presunto e queijo, com muito molho vermelho e folhas e mais folhas de manjericão, tempero caprichado (afinal, a sogra de German que fazia nossos almoços no Chile não gostava de sal nem de cozidos).

O verdadeiro 11 de Setembro

German e esposa contaram-me de Gabriela Mistral (a primeira chilena a vencer o Nobel de Literatura) e Diamela, sua personagem preferida e agora nome da caçulinha dos dois. O mais velho, vindo de outro casamento, tratava German como único pai. Comemos bastante e sentamos à sala pequetita. Quatro adultos e duas crianças. A televisão era de 14 polegadas preto e branco (aos mais novos, explico: era uma tevezinha com tela menor que os tablets atuais, primitiva, precária, com uma parte traseira imensa e com duas anteninhas metalizadas que erguíamos e deixávamos em forma de ‘V’ pra melhorar o sinal). 

Jogo feio. 90 minutos de quase nenhuma emoção. Duas seleções tradicionalíssimas brigando pelo tetracampeonato. Haviam jogado a histórica final de 1970. Italianos que estavam entalados na minha garganta desde a derrota de 3 a 2 em 1982. A partida estava tão fraca que torcíamos para o Parreira colocar o Viola. O comentário era de que se o jogo durasse 3 dias terminaria OXO do mesmo jeito. Oxo é uma gíria para placares zero a zero. Um símbolo de jogo chocho e uma brincadeira com letras, afinal o resultado 0 x 0 lembra o acrônimo OXO. Sofremos mais 30 minutos com a prorrogação. A bola jamais entraria.

Pênaltis. German tinha fama de azarado, tinha o apelido de Sabugo na República em que moramos em São Paulo. Andava pela sala feito barata tonta. Márcio Santos bateu o primeiro e perdeu. Sabugo começou o discurso: 

– Viu, vamos perder. Chileno é Sabugo.

Na sequência a Itália perdeu, German comia unhas. Romário fez o dele. A Itália empatou. German olhou pra mim e falou:

– Se eu ficar aqui o Brasil perde. Vou embora. Abriu a porta do apezinho e saiu voando. A mulher não entendeu nada. A Itália empatou. Fizemos mais 2 gols, Taffarel pegou um. Baggio, o craque da Itália, responsável por levar a seleção italiana tão longe, chutou o dele e a a bola foi parar em Nova York (o jogo era na Califórnia). O Brasil era campeão!

Corri pra rua vazia abraçar o amigo chileno. Não o achava. Andei uns dois quarteirões e o vi de cabeça baixa, blusão verde, barba e cabelos compridos. Ao me avistar correu falando:

– Perdemos, né? Perdemos?

– Não! Brasil ganhou! É tetra!! Campeão do Mundo!!

– Falei que o Sabugo era culpado. Se eu ficasse na sala a gente perdia… Abraçamo-nos. 

– Vamos à Plaza de las Armas comemorar. 

Plaza de las Armas: Santiago do Chile ao entardecer

E fomos. Quando lá cheguei, tomei um susto, parecia que Santiago inteira estava ali. Era uma festa sem fim. Alguns amigos de German ao me ver e lembrar que era brasileiro tentaram até me levantar em meio à massa (o meu peso não deixou). Ficamos ali por horas cantando, bebendo vinho e comemorando. Bandeiras do Brasil, do Chile e hinos contra a Itália. Voltamos só de madrugada. Talvez a maior alegria nem tenha sido o título, mas me sentir irmão dos chilenos.Santiago era o Brasil inteiro. Os chilenos comemoraram o título brasileiro como se fosse deles.

Hoje senti orgulho dos chilenos novamente pela brilhante partida contra o Brasil nas oitavas de final. Não fosse a trave, e nós, os anfitriões, estaríamos eliminados da Copa de 2014. Mas senti orgulho mesmo foi da torcida mineira ao vaiar o hino do país vizinho. Odeio os mineiros no estádio que agrediram os chilenos, nossos irmãos, que há 20 anos torceram como nunca pelo Brasil. Odeio-os, pois como diria o poeta Pablo Neruda: “os poetas odeiam o ódio e fazem guerra à guerra.”

Post Scriptum: Os deuses da bola nos castigaram brutalmente pelo comportamento pérfido. Dez dias depois, no mesmo Mineirão, a Alemanha nos tascou a maior humilhação de toda a história no futebol, o 7 a 1 alemão.

Retrato de um futebol sem orgulho

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