Quantos filmes você já assistiu na sua vida? Nove.

FREDERICO MORIARTY – Vladimir Propp, linguista russo, lança em 1928 (no Brasil chegou 50 anos depois), a Morfologia do Conto Russo. Estudou mais de 100 contos maravilhosos de várias épocas da Rússia. Encontrou em sua estruturas internas. São 7 personagens que se repetem: o herói, o falso herói, o antagonista, o doador, o auxiliar, o mandante e a princesa e o rei. Além disso, Propp defende a existência de 31 situações, entre elas a aproximação, o afastamento, a partida e o regresso do herói. É um levantamento quase matemático, interno dos textos que influencia até hoje a teoria literária. Falamos e escrevemos sempre uma mesma história. O que varia são as relações entre os 7 personagens, a dimensão e amplitude que se dá a cada uma das 31 possibilidades. As probabilidades vão na casa dos milhões, mas as histórias são poucas.

Para os estruturalistas, são poucas as histórias contadas. Há apenas uma repetição de certos modelos, com as variações internas propostas por Propp ou outros teóricos da linguagem. Pensando assim, a leitura de um livro ou o ato de assistir um filme torna-se previsível demais e, portanto, entediante. Hollywood vem produzindo uma média de 1500 filmes ao ano. Isso nos dá algo em torno de 150.000 histórias, mas para os estruturalistas existe apenas uma. Defendo a ideia de que existem, em verdade, 9 grandes estórias que se repetem. Tais modelos podem ser representados na maioria das vezes por narrativas mitológicas. Joseph Campbell no Heroi das Mil Faces defendeu que os mitos estão impregnados em nossa mente e que as narrativas inconscientemente conduzem nossos desejos pela existência. Não é á-toa que a psicanálise elevou os mitos a condição de chaves para o entendimento da mente humana.

“Os ousados e verdadeiramente marcantes escritos da psicanálise são indispensáveis ao estudioso da mitologia. Isso ocorre porque, como quer que encaremos as interpretações detalhadas, e por vezes contraditórias, de casos e problemas específicos, Freud, Jung e seus seguidores demonstraram irrefutavelmente que a lógica, os heróis e os feitos do mito mantiveram-se vivos até a época moderna.

Joseph Campbell e os mitos

Primeira Estória: a Narrativa do Heroi . É a mais poderosa e presente das narrativas. O heroi ou heroína é alguém da tribo mas que não tem crédito. O grupo lhe entrega uma incumbência impossível de ser cumprida. Cético, o heroi segue a jornada imposta. Em geral tem um amigo torto ou manco ou defeituoso ( como o obeso Sancho Pança de Dom Quixote) que o acompanha e será essencial nos desafios. Os dois passarão por diversos desafios e vencem todos. Em algumas histórias há um pícaro ( palhaço) que tem a função de nos fazer rir em vista da tensão permanente. O heroi encontra o primeiro portal, a grande luta, o desafio intransponível. Ele sairá vitorioso. Haverá ainda um segundo portal, muito mais difícil, mas que diante da experiência adquirida e da autoconfiança do predestinado, será superado com facilidade. Lembrem que Luke Skywalker abandona o volante da nave e deixa apenas a ” força ” conduzi-lo na destruição da Estrela da Morte. Cumprida a obrigação, o herói retorna ao povoado. Conta as estórias da sua vitória. Num primeiro momento é tratado com descrença e só depois a tribo acredita no Heroi. Fiona precisou se revelar para provar que Shrek dizia a verdade. Filmes: Guerra nas Estrelas ( Hans Solo e Luke Skywalker); Shrek; A história de Rosa Parks; O senhor dos anéis ( Frodo), Rocky um lutador e o Neo de Matrix, entre outros e a maior história de u. Heroi, a de Jesus Cristo.

o amigo torto e o heroi

Segunda estória. A tragédia de Othelo. Triângulo amoroso. Shakespeare escreveu a tragédia de Othelo um general vitorioso de meia idade que se casa com a jovem e bela Desdêmona. Othelo promove Cássio provocando a inveja de Iago. Este elabora uma vingança que passa por provocar ciúmes doentios em Othelo. O fim é trágico. Othelo asfixia Desdêmona até a morte. Logo depois descobre que ela jamais o traíra, desesperado apunhala-se até morrer. Cássio em luta tem uma perna decepada. Filmes: todos aqueles que passam na sessão da tarde. Um casal que vive uma história de amor meio morna. Um segredo que deveria ter sido contado, mas permanece escondido, como o lenço de Desdêmona furtado por Iago que será putilizado como a “prova da infidelidade”.Nos filmes aparece um terceiro personagem. Alguém que virá desequilibrar a relação dos dois.Aos poucos percebemos que o verdadeiro amor dos protagonistas é este terceiro. Os dois passam a viver uma linda estória romântica, com direito a passeios de mãos dadas pela praia. Quando o amor resplandece, o segredo se revela. Tem o conflito e a separação que persiste até a cena final, quando um dos dois faz uma loucura e o casal se reencontra. Qualquer filme com a Meg Ryan e o Tom Hanks. Love Story, em que o terceiro elemento é a morte e Em algum lugar do passado, com o tempo como terceiro personagem. O vento Levou com Scarlet O’Hara e Rhet Butler.

Othelo ( 1995) com Lawrence Fishburne

Terceira estória. O mito do deus Marte. O deus construtor de mundos. Marte é o Deus da guerra romano. Vai além do grego Área, pois é também o Deus da agricultura e dos trabalhadores.Marte é um guerreiro sanguinário, entretanto é forte. Camões o coloca como o protetor de Portugal em Os Lusíadas. Marte casou -se com Vênus e tiveram um filho, o Deus Cupido. Por isso é o Deus construtor de mundos. Faz a guerra, mas nos dá esperança.

Marte e Vênus. Obra de Boticcelli

São os filmes com personagens fortes e pragmáticos. Se for preciso, utilizam da violência para conquistar o poder. Filmes: é Don Corleone em O Poderoso Chefão. O Vento Levou novamente, agora com a reconstrução de Tara proposta por Scarlet Ohara. Mesmo a Rede Social contando a história de Zuckberg. O inventor do Facebook roubou a ideia de dois amigos de faculdade , fez algumas alterações e mudou o mundo, claro, após pagar uma indenização ( hoje) insignificante de US$ 200 milhões.

Quarta Estória. O Mito de Ícaro. Ascensão e queda. Dédalo e seu filho Ícaro estão presos no labirinto de Creta, local protegido por Minotauro. Para fugir do local, o pai constrói asas de penas de pássaros e cera para fixar. Adverte o filho de que não deveria voar muito alto, pois o sol derreteria a cera. A soberba de Ícaro o levam a fugir do labirinto mas buscar as alturas. Quanto mais alto vou mais rápida foi a queda. São todos aqueles filmes em que vemos um homem construir um império, uma lenda, uma carreira sólida, mas ver tudo ruir como um castelo de areia. Al Pacino literalmente se afunda em pó na sua estória de Scarface. Charles Foster Kane morre sozinho e depressivo na mansão Snanadu em Cidadão Kane. Robert de Niro termina o filme Touro Indomável 47kg mais gordo e claramente encharcado em álcool. O boxeador foi de campeão mundial a presidiário e obeso.

Al Pacino em Scarface

Quinta Estória. O Mito de Zefiro. Zéfiro é um dos 4 deuses do vento, filho de Eólo. O Vento norte é um sedutor por excelência. Alguém que vem do estrangeiro para fecundar a vida. Foi Zefiro quem seduziu as éguas da Lusitânia e por este motivo seus descendentes são os mais rápidos cavalos do mundo. O mito fala do estranho sedutor. São as estórias em que um forasteiro vem desestabilizar a ordem do local. Em verdade, o estranho nada mais é do que a chave que abre o cofre do inconsciente daquela ” tribo”. Tudo já esrava latente e ele apenas serve como um espelho a refletir os desejos. É o personagem de Kevin Bacon em Footlose. Ou Tom Cody em Ruas de Fogo. Temos ainda o robô do Exterminador do futuro.

Cena de Footloose ( 1984) com Kevin Bacon

Sexta Estória. A fábula de Cinderela.No ano 6 d.C. O geógrafo Estrabão anotou o conto Rhodopis. Narra a história de uma escrava órfã que se casa com um rei do Egito.

Eles contam a fabulosa história de que, quando ela estava se banhando, uma águia arrancou uma de suas sandálias de sua criada e a levou para Memphis.
e enquanto o rei administrava justiça ao ar livre, a águia, ao chegar acima de sua cabeça, jogou a sandália em seu colo; 
e o rei, emocionado tanto pelo belo formato da sandália quanto pela estranheza da ocorrência, mandou homens em todas as direções ao país em busca da mulher que usava a sandália; 
e quando ela foi encontrada na cidade de Naucratis, ela foi levada a Mênfis, tornou-se a esposa do rei…”

( trecho de Rhodopis de Estrabão)

É considerada uma das primeiras versões do poderoso mito de Cinderela, em verdade um arquétipo, uma imagem coletiva primordial. A menina órfã de mãe que é criada pela madastra. Com a morte do pai vira escrava da madrasta e suas duas filhas abjetas.Um príncipe se apaixona pela alma de Cinderela e a resgata da opressão e da miséria. Filmes: My Fair Lady, as 5000 versões de Cinderela, A Princesa e o Plebeu. Uma linda mulher com Julia Roberts.

Cinderela, ilustração de Carl Offterdinger.

Sétima Estória. O Mito de Érebo. O deus das sombras e escuridão. Dono de um poder acima dos deuses, mas sempre levado ao ostracismo. São todas as estórias que buscam o mundo das Sombras, sobre a identidade escondida dos homens. Nosso lado pérfido, doentio e até de psicopatia. O prazer pela dor alheia. Érebo está em todos os filmes de terror que já assistimos. Qualquer estória de Stephen King como Carrie, a estranha; O iluminado; Christine, o carro assassino. As dezenas de versões de Drácula e Frankestein. Está em Anthony Hopkins no Silêncio dos Inocentes. E no impressionante Onde os fracos não tem vez.

Oitava Estória Mito de Édipo ou de Nêmesis. A restituição da ordem pela luta justa. Os filmes “noir”. Nestes filmes, o detetive é alguém “manco”. Ele tem um defeito físico, um desvio de caráter, um vício. Vive e se mistura com o submundo. É um excluído. Numa comunidade ” perfeita” a ordem é perturbada por um acontecimento, um crime ou um acidente. O heroi do submundo é convocado. Aos poucos ele desvenda o problema e o mundo volta a sua ordem original. Apesar disso, o herói solitário tem de voltar às profundezas e ao isolamento.

Nêmesis segurando a Roda da Fortuna. 150 d.C.

Nêmesis é a deusa grega da Justiça reparatória. Édipo é o mito do homem que matou o pai e desposou a mãe. Ao descobrir a trama ele fura os dois olhos com ferro em brasa e se retira para o deserto.

Temos Humprey Bogart em O falcão maltês. O clássico Os Brutos também amam ( brilhante tradução brasileira do filme ” Shane”). A trilogia western-spaghetti de Clint Eastwood.

Nona Estória. O Mito de Vidar. Vidar é filho de Odin e segundo homem mais forte da mitologia nórdica, sendo mais fraco apenas do que Thor. Vidar constrói pacientemente um par de sapatos indestrutível feito do resto de todos os sapatos do mundo. Seu objetivo é matar o Lobo Fendir, assassino de Odin. É o Deus da vingança.

Deus Vidar

Entre as centenas de histórias de vingança podemos lembrar de duas: uma no faroeste Era uma vez no Oeste e o Kill Bill de Tarantino.

Uma Thurman em Kill Bill

Este blog quis apenas fazer uma brincadeira com os muitos filmes e estórias já vistos. Não há nenhuma pretensão de “tese” ou de modelos rígidos. Desafio os leitores a enviar filmes que entendam estar nos 9 modelos ou então criar novos modelos além dos 9 propostos. Na prática, os grandes cineastas e roteiristas sempre fogem das regras ou, como Hitchcock, conseguem encaixar suas estórias em vários modelos. Lembremos de Um corpo que cai. James Stewart é um heroi. Mas temos também a história de Othelo e Ícaro. Talvez até um pouquinho de Nêmesis. Enquanto o cinema possuir esses geniais artistas, jamais as 9 estórias serão entediantes. E que nossa maior tragédia mundial desde a Segunda Guerra passe logo para que possamos voltar às salas de cinema, comendo muita pipoca e curtindo a sétima arte.

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