Memórias de um Brasil enganado

GERALDO BONADIO – Eu fazia o curso primário no Grupo Escolar Baltasar Fernandes, que à época funcionava na rua do mesmo nome, a poucos metros da Hermelino Matarazzo, e nossas professoras nos levaram para participar da Páscoa dos Estudantes, no espaço fronteiro à Catedral. Naquele tempo o número dos que comungavam, nas missas dominicais, eram poucos. O acesso à eucaristia era dificultado por limitações rígidas, como a que obrigava o comungante a permanecer em jejum, a contar da meia noite. Em razão disso, dava-se ênfase às páscoas anuais de grupos profissionais ou de outra natureza.

A Páscoa dos Estudantes – alcançando os alunos das escolas primárias – foi promovida pela Juventude Estudantil Católica que, na oportunidade, presenteou cada participante com uma régua de madeira que levava estampada, em grandes letras verdes, a convocação: Defenda o Brasil do Comunismo – coisa que, com meus oito ou nove anos, não tinha a menor ideia do que fosse.

Estávamos nos anos 1950 e cada cidadão brasileiro era submetido a um incessante bombardeio propagandístico, financiado pelo governo norte-americano, precavendo-o contra comunismo, bicho papão que ameaçava devorar nosso país e nossa gente.

Nas emissoras de rádio, os norte-americanos financiavam a produção e emissão do programete Nos bastidores do mundo, introduzido pelos acordes iniciais do Oh! Suzana. Nele, um catarinense de Lages, Affonso Alberto Ribeiro Neto, o Al Neto, apresentava um comentário sobre questões internacionais, na perspectiva norte-americana.

Os pequenos jornais do interior eram abastecidos, entre outros materiais, por duas colunas semanais ilustradas, com clichês moldados em plástico: uma seção de curiosidades com três pequenos textos, um dos quais denunciava as mazelas da União Soviética e uma tira de humor em quadrinhos, O Paraíso de Ivan, com idêntico objetivo. Suponho que material mais sofisticado, de igual teor, fosse difundido por jornais e revistas mais elaborados.

Nas escolas éramos doutrinados pelo Pan Americanismo, sendo ensinados a cantar, ao lado dos hinos nacionais, o Deus Salve a América, canção que Irving Berlin compôs em homenagem aos Estados Unidos, que aqui nos chegou, com uma letra desonesta de João de Barro, o Braguinha, que tentava nos fazer acreditar que a América, que ali se louvava, era o continente americano como um todo.

Essa pretensa solidariedade continental foi usada para tentar arrancar, do governo brasileiro, o envio de uma força expedicionária à Guerra da Coreia, o que só não se consumou em razão do veto do general Góes Monteiro, lembrando o absoluto despreparo de nosso Exército para se engajar em tal confronto.

Foi, pois, com o sentimento de quem está cometendo um sacrilégio que, mais tarde, estudando com base em pesquisas históricas bem documentadas, os levantes da Aliança Nacional Libertadora em 1935, em Natal (RN) e Rio de Janeiro (DF), sementes do anticomunismo que ainda hoje assombra tantos de nós, me dei conta de que temos vivido – quase noventa anos – sob o temor de uma ameaça inexistente, em função da qual fomos submetidos durante 21 anos, a uma ditadura militar violenta e desnecessária.

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