Todos a bordo – Diário de um Pandemônio (Blog Coletivo)

20 DE ABRIL DE 2020

Rodrigo e a capela; João e a favela

FREDERICO MORIARTY

Um Rodrigo é o sonho de consumo de muitos no Brasil. Tem a cor certa, o sobrenome nobre e o auxílio emergencial dos sonhos. Rodrigo cozinha, lava pratos, é simpático com a sogra. Cozinha pratos gourmets, mas não só os prepara, ele constrói o forno primeiro. Rodrigo namora a moça linda, da cor certa também. Romântico, não esconde do mundo seu amor. Rodrigo vai além, ele ergue a capela onde vai casar. Ah, meu Romeuzinho…


João é um bronco. Não parou de trabalhar na pandemia como Rodriguinho ou Guigui. João pega busão lotado às 5h39, depois entra no metrô. Chega na obra 7h59. Fica lá até às 18h, subindo e descendo andaimes, tomando conta de prédios, condomínios, estacionamentos, padarias. João é enfermeiro, secretário motorista, lixeiro porteiro, pedreiro, funcionário, professor, padre ou policial.

Depois de 1 mês de labuta, João recebe seus 1 paus e meio ou 2 paus de salário (que ainda usa cinquentão pra tomar cachaça), sua cesta trágica e o vale transporte. João vai levar uns 150 anos pra ganhar o que Gugui embolsa num mês. João, Maria e os filhos fazem tudo em casa, lavam, passam, cozinham, consertam telhado, tomada, encanamento, erguem paredes e às vezes até uma churrasqueira na laje.

Nas poucas folgas, João ergue sua casa, reboca as paredes, faz uma cozinha com bancada pra modos que Maria possa conversar com as visitas enquanto cozinha.Pinta o quarto da menina de rosa, o do menino ele prega o símbolo do Coríntia, do Parmera ou Sumpaulo. João pede pros molekes e molekas ajudar. Faz isso nos sábados, domingos e feriados.

A única forma de João erguer mansão é trabalhando na hora de lazer. Guigui foi dispensado das atividades há mais de um ano. Tudo rômi ófice. Sem neuras, sem estresse, sem horário fixo. E assim segue a vida, os Rodrigos no ócio eterno, dedicam-se ao lazer, sustentados por um arsenal de bons e simpáticos Joãos e Marias que lhe fazem todo tipo de serviço.

Os Joãos, na precariedade da vida e salário, utilizam as horas de lazer para erguer o que a vida lhes nega. Agora adivinha só quem são nossos heróis? Os olhos azuizinhos dos Rodrigos ou a pele escura dos Joãos?

Acompanhe o blog do Frederico Moriarty:

https://terceiramargem.org/author/fredericomoriarty/


18 DE ABRIL DE 2021

Na vida como no mundo do vinho, somos todos iguais nesta longa noite sombria

MARCO MERGUIZZO

Neste sábado (17/4), o mundo do vinho foi sacudido desafortunadamente com a notícia da perda para a Covid-19 de Pio Boffa, de 66 anos, proprietário italiano da vinícola Pio Cesare, referência internacional na produção dos reverenciados Barolos, obras-primas engarrafadas elaboradas unicamente da província de Cuneo, na região do Piemonte, norte da Bota, há mais de 800 anos.

Em um post especial que farei para o blog Aquele Sabor Que Me Emociona, vou falar mais especificamente sobre este vinho icônico e esse simpático a afável produtor, herdeiro e representante da quarta geração da família que produz, há exatos 140 anos, verdadeiras joias enológicas, entre barolos, como o Ornato, e barbarescos, caso do Il Bricco, rótulos incríveis e que fazem a gente sonhar.

Aqui no Brasil, também perdemos muita gente querida que era referência de qualidade, dedicação e paixão, ou melhor ainda, devoção ao vinho brasileiro.

Há cerca de um ano, Márcio Brandelli, produtor de seus próprios caldos – e que caldos! – da vinícola gaúcha Almaúnica. Personagem carismático e único, com o perdão do trocadilho, Brandelli, com seu jeitão irrequieto e apaixonado quando falava de seus vinhos, discorria horas sobre a concepção enológica defendida por ele fervorosamente, cujos paradigmas inclui a qualidade das uvas, o manejo criterioso dos vinhedos e o sábio e bem aplicado uso da madeira nos instigantes rótulos que produzia, moldados à sua imagem e semelhança.

Antonio Dall Pizzol e Márcio Brandelli: paixão pelo vinho brasileiro

Embora Brandelli não tenha sido vítima do coronavírus, ele faleceu aos precoces 47 anos por complicações advindas de internações hospitalares sucessivas, acabando por sucumbir em março de 2020, nos inícios do calvário da pandemia, via crucis com a qual convivemos até os dias de hoje.

Pela estrada também ficou outra figura ímpar do mundo do vinho brasileiro: o produtor pioneiro Antonio Dal Pizzol, da vinícola familiar de mesmo nome, situada na Serra Gaúcha. Ultrarrespeitado e querido, Seu Antonio, um mestre em moldar todo tipo de casta, em particular a Cabernet Franc, a Pinot Noit e a Gamay, das quais sou fã de carteirinha, faleceu no início deste ano, em meados de janeiro.

Todos estas duras perdas se juntam aos mais de 372 mil brasileiros e às mais de 3 milhões de pessoas vítimas do vírus letal. Sem diferenciar mais este ou aquele ser humano por gênero, idade, biotipo, comorbidade ou grupo social, somos todos iguais nessa noite longa e sombria. O ranking macabro da Covid-19 escancarou sem piedade nossas fragilidades, limitações e pequenezas humanas, tanto físicas quanto espirituais.

Quem tiver olhos que veja. Que sejamos mais empáticos, fortes e solidários nessa hora, exigindo medidas efetivas de combate à doença. Chega de narrativas negacionistas, de necropolíticas e de políticos da bancada do “Deus mercado”, fake evangélicos e da bala, que professam a morte.

Basta de irresponsabilidade, negligência e omissões, seja do atual ocupante do Planalto e de prefeitos como o de Sorocaba, seja de parte da população inacreditavelmente anestesiada e indiferente à transmissão – por ação ou omissão – do vírus.

Queremos e exigimos vacinação já para todos!

Meu minuto de silêncio, orações e luto aos grandes Pio Boffa, Antonio Dal Pizzol e Márcio Brandelli, seus familiares e amigos e a todas as vítimas calcinadas por uma das maiores tragédias sanitárias – senão a maior – da humanidade. Meu respeito, a minha dor e as minhas preces a eles – e a todos nós.

Amém.

Somos Todos Iguais Nesta Noite – Ivan Lins (1977)
09 DE ABRIL DE 2021

A persistência do Mito da Caverna

FREDERICO MORIARTY

Charge / Crédito: Laerte

4.195 mortes num dia.
Quase 350 mil num ano.
19 milhões de brasileiros passam fome.
15 milhões estão desempregados.
192 milhões ainda não tomaram vacina
11 novos bilionários em 1 ano.
Renda média do trabalhador é a mesma de 2009.
Um salário mínimo compra 25 sacos de 5kg de arroz (comprava 143 sacos em 2011).
Mas quer saber o que vão discutir amanhã?
O eliminado do BBB.


Nos anos 80, Maurício de Sousa recriou a análise de Platão, com uma pitada crítica no final, bem pertinente por sinal. Veja abaixo:


7 DE ABRIL DE 2021

Alfredo Bosi (1936-2021)

MARCO MERGUIZZO

Alfredo Bosi, professor emérito da Universidade de São Paulo e um dos maiores críticos literários do Brasil, morreu na manhã desta quarta-feira (7), em São Paulo, aos 84 anos, vítima da Covid-19. Professor titular aposentado do curso de Letras da USP, Bosi tornou-se em 2003 o sétimo ocupante da Cadeira nº 12 da Academia Brasileira de Letras.

Bosi lecionou literatura italiana e nutriu profundo interesse pela literatura brasileira. “Resistir é preciso” — eis o lema proposto pelo crítico ao analisar alguns dos mais combativos escritores de nosso país, como Cruz e Sousa, Lima Barreto, Graciliano Ramos, Darcy Ribeiro e João Antônio.

Ao longo da vida, Bosi conquistou diversos prêmios, como o Jabuti de melhor obra de Ciências Humanas para “Dialética da colonização” (1993), além de receber a Ordem do Mérito Cultural, outorgada pelo Ministério da Cultura.

Após se formar em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), em 1960, Bosi recebeu uma bolsa de estudos na Itália e ficou um ano letivo em Florença. Quando voltou ao Brasil, assumiu os cursos de língua e literatura italiana na USP.

Ele era professor de literatura italiana, e seu interesse pela literatura brasileira o levou a escrever os livros Pré-Modernismo (1966) e História Concisa da Literatura Brasileira (1970).

Em 70, passou a ensinar literatura brasileira no Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, da qual foi professor titular de Literatura Brasileira. 

Em 97, se tornou diretor do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP. No instituto, coordenou o Educação para a Cidadania (1991-96), integrou a comissão coordenadora da Cátedra Simón Bolívar (convênio entre a USP e a Fundação Memorial da América Latina) e coordenou a Comissão de Defesa da Universidade Pública (1998). Há 31 anos, Bosi era editor da revista Estudos Avançados.


Texto de homenagem do neto Tiago ao avô Alfredo Bosi

“Meu avô se foi. Fez sua passagem e descansou por fim de uma vida dedicada à poesia, à literatura, ao humanismo e à militância socialista em busca do progresso humano.

É difícil encontrar as palavras para esse momento de luto. Escrevo para exorcizar a dor.

Lembro de meu avô contando que em 1961 ganhou uma bolsa de estudos para estudar literatura italiana em Florença: Pirandello, Leopardi, Gramsci, Vico, Croce, Manzoni, Giotto. E Leonardo Da Vinci.

Ele tinha enorme paixão pelo tema do renascimento e humanismo italiano. Estudou profundamente Dante e me ensinou que ‘Nel mezzo del cammin di nostra vita mi ritrovai per una selva oscura’, é possível entender a utopia que os olhos dos quadros de Giotto sutilmente escondem: utopia mística contra o realismo cínico maquiavélico.

Meu avô se emocionava muito ao ver o filme sobre a vida de São Francisco de Assis e Santa Clara de Pasolini – ‘Irmão Sol, irmã Lua’. E da relação entre a canção de gesta medieval e a acumulação primitiva de capital do complexo econômico veneziano que fizeram, quinhentos anos atrás um jovem antever a relação predatória do homem frente a natureza que rege o capitalismo.

Quando criança meu vô se fantasiava de lobo e eu de São Francisco para interpretarmos a passagem do Lobo de Gubbio que atormentava os habitantes de Assis. Meu vô de lobo fingia ferocidade e eu o acalmava até ele se tornar dócil e me abraçar. Riamos.

Depois de estudar literatura italiana a fundo, meu vô, por um movimento de amor ao nosso país resolveu se voltar a literatura brasileira.

Se tornou um pensador gigante se valendo de sua crítica literária aguçada para interpretar o Brasil pelo olhar de Machado, Rosa, Drummond, Graciliano.

Sua obra está ai, para ser lida e relida.

Mas seu último livro foi sobre uma paixão antiga: Leonardo da Vinci.

Um livro conciso. Que guarda dentro de si os enigmas do olhar de Alfredo Bosi. Leiam com atenção e afeto.

O que poucos sabem é que em 2019 Unidos do Parque Aeroporto em Taubaté homenageou São Francisco – padroeiro da cidade.

Reprodução da capa da última obra de Bosi

Por meio do afeto das relações verdadeiras, meu avô foi consultado para o samba-enredo oferendo uma aula magna sobre a grande lição de São Francisco: o amor à natureza; natureza essa que padece perante a ganância insaciável do lobo-homem. O desfile teve esse tom e eu tive o privilégio de participar carregando São Francisco num andor.

Alfredo Bosi se foi, mas foi sambando junto com São Francisco.

O filho prodígio de uma costureira e um ferroviário da Barra Funda.

Da Itália ao Brasil, a Itália de novo e de novo ao Brasil.

E lá no alto está, nesse momento, rodeado por todos os bambas do renascimento e da literatura brasileira. E minha vó já preparou um batucajé de três dias. 57 anos casados na terra: vó Créa e vô Fredo agora estão juntos pela eternidade.

E, assim, termino com a frase de Leonardo que meu vô viu na casa do renascentista em Amboise, e que também é a última frase de seu último livro sobre Da Vinci:

‘Nenhum ser vai para o nada.’

Alfredo Bosi vive em nós.

Como disse João Nogueira, meu vô vive agora ‘em nossas casas, bibliotecas e mentes’ – e em nossos corações.”

Tiago Bosi Concagh

(Reprodução de sua página no FB)



04 DE ABRIL DE 2021

A Páscoa na rede

(EDIÇÃO: MARCO MERGUIZZO)

Publicado neste domingo (4/4) no FB da ativista curitibana

02 DE ABRIL DE 2021

Brasil sem paixão e compaixão e da indiferença

MARCO MERGUIZZO

Charge / Crédito: Lezio Júnior

Nesta sexta-feira santa, da Paixão de Cristo, o Brasil chega a 325 mil mortos pela Covid-19.
Eu me importo.
Eu oro.
Eu choro.
Mas quando despertaremos desse calvário sem fim da indiferença?
Quando afinal nos indignaremos e nos levantaremos?
Brasil, desperta! Já passou da hora de o País e a nação eternamente adormecidos ressuscitarem.


A cura

Por Kathleen O’Meara (*)
Ilustração / Crédito: Angel Boligán

E as pessoas ficaram em casa
E leram livros e ouviram
E descansaram e se exercitaram
E fizeram arte e brincaram
E aprenderam novas maneiras de ser
E pararam
E ouviram fundo
Alguém meditou
Alguém orou
Alguém dançou
Alguém conheceu sua sombra
E as pessoas começaram a pensar de forma diferente
E pessoas se curaram
E na ausência de pessoas que viviam de maneiras ignorantes,
Perigosas, sem sentido e sem coração,
Até a Terra começou a se curar
E quando o perigo terminou
E as pessoas se encontraram
Lamentaram pelas pessoas mortas
E fizeram novas escolhas
E sonharam com novas visões
E criaram novos modos de vida
E curaram a Terra completamente.

Que assim seja.

#FicaEmCasa #Empatia #Solidariedade 

(*) Kathleen O’Meara (1839-1888) é uma poetisa e escritora franco-irlandesa, natural de Dublin.


30 DE MARÇO DE 2021

31 de Março: de 1964 a 2021, de volta às trevas

MARCO MERGUIZZO

Charge / Crédito: Brum chargista

Nesta terça-feira santa (30/3), o Brasil registrou 3.780 mortes por Covid-19 em apenas 24h, um novo recorde desde o início da pandemia, chegando a 317.646 vidas perdidas para o vírus letal. A média móvel de óbitos chegou a 2.710, maior número da série histórica. Os dados são do Conselho Nacional de Secretários de Saúde. Ou seja, o caos e o colapso pelos quais o sistema de saúde passa atualmente foram exaustiva e amplamente anunciados.

Enquanto isso, lá no Distrito Federal, no “Centro do ‘Puder’”, testemunhamos o de sempre: nenhum gesto, uma palavra sequer, uma ação efetiva e minimamente coordenada e responsável para mitigar a maior tragédia humana brasileira. Apenas e tão-somente uma manobra política – mais outra rumo ao autogolpe mas rechaçada de pronto pela Câmara de Deputados -, para ampliar os poderes do mais inapto e distópico presidente da história do país.

Charge / Crédito: Ulisses Araujo

Ou seja, nada, absolutamente nada, justifica a permanência do atual ocupante do Planalto, que se mostra incapaz desde primeiro de janeiro de 2018 quando desafortunadamente tomou posse, no comando do país e das cada mais galopantes crises sanitária, social e econômica, que por sua vez se agravam, dia após dia, graças à inoperância governamental e ao desinvestimento criminoso perpetrado contra a educação, a cultura e a saúde públicas, paralisando como reflexo direto boa parte do mercado, da indústria e do comércio.

A menos a quem apoia ou acredita na narrativa negacionista, nas frases odiosas e atitudes distópicas e insidiosas manisfestadas cotidianamente pelo “chefe da nação”, satirizando a dor das famílias e da população, bem como os desvios de comportamento e caráter de assessores, ministros e toscos mal-intencionados que o cercam.

Quanto ainda falta para cair a ficha dessa gente?? Hello!!! O vírus mata. A Terra é redonda. O mercado é de e para todos. Houve ditadura e tortura no Brasil. Jesus não está na goiabeira e em nenhuma igreja – está dentro de você (ou não). Menino e menina se vestem da cor que quiserem, pois são livres e têm dentro de si a esperança de transformação de um País mais justo e inclusivo, voltado para todos e sem preconceitos.

Desejamos a vida, a luz de todas as ciências – humanas, exatas e biológicas -, da justiça e da democracia – sempre!

#DitaduraNuncaMais #ForaBolsonaroeSuaQuadrilha


27 DE MARÇO DE 2021

A tragédia não termina

FREDERICO MORIARTY

Charge / Crédito: Renato Aroeira

Michael Jordan recebeu a bola e atravessou a quadra. Iniciou uma série de passes. Ao final a bola volta para Jordan e este arremessa com perfeição. Cesta do Chicago Bulls, mais um título da NBA. Vinte e quatro segundos duram uma eternidade no basquete.

Os irmãos Lumiére descobriram há mais de 125 anos que se tirássemos 24 fotos e girássemos as mesmas em 1 segundo teríamos o movimento. Vinte e quatro quadros nos trazem a magia do cinema.

Vinte e quatro segundos é o tempo que um leitor médio consegue pronunciar a introdução do Apocalipse bíblico em seus três versículos e 9 linhas. Vinte e quatro segundos nos aproximam do fim.

Em numerologia, o número vinte e quatro é um sinal dos anjos de que você está no caminho certo e que as coisas não tardarão a te satisfazer. É um número do amor e da família. Vinte e quatro é um número da diplomacia.

A Deusa Artemis, deusa do mundo selvagem, é representada segurando um viado pelos chifres. Veado vem de venatus, ou caça morta em latim. Em 1892, o barão João Batista Drummond inventou uma loteria para salvar o zoológico de Vila Isabel no Rio. Escolheu 25 bichos, deu-lhes 4 números cada e ao final do dia dava um prêmio para o número sorteado. O bicho 24, logo depois do urso, era o veado. Vinte e quatro é acertar no milhar.

Ontem, dia 26 de março, tivemos um dos dias mais tristes da nossa história: 3.600 brasileiros perderam a vida para a Covid-19. Em média, as diversas formas de gripe, tiram a vida de 450 pessoas por ano no Brasil. Ou seja, em apenas um dia, morreram de Covid-19, o equivalente a oito anos de óbitos de gripe. Atingimos a triste marca de 307.000 mortos em 375 dias de pandemia. Das 5.568 cidades brasileiras, apenas 93 estão acima de 300 mil habitantes. A necrópole da Covid seria a 90ª maior cidade brasileira.

Lá fora nos chamam de “cemitério do mundo”. A lista de países que proíbem a entrada de brasileiros passa das 20 nações. Mesmo com testes negativos na mão. Somos a personificação da praga. Somos os portadores do vírus maligno. Somos um país em descontrole sanitário absoluto. O Brasil é responsável por 20% dos novos infectados pela Covid-19 no mundo diariamente e – assustadoramente – por 40% dos óbitos de toda a terra plana.

Ilustrações deste post / Crédito: Renato Aroeira

Junte a maior praga global desde o século XIV com o mais inepto e facínora governo de toda a nossa história e, pronto, a tragédia não termina. Retomemos algumas falas do governo genocida: “é só uma gripezinha”, “não vou parar a economia por conta de algumas mortes”, ” os números da Amazónia são altos porque lá neva no começo do ano”, “não existe Covid”, “a Covid é uma invenção chinesa para destruir o Brasil”, “não sou coveiro”, “cloroquina cura”, “vermífugo cura”, “a vacina da China é para implantar um chip na gente”, “não vou usar máscara”, “os hospitais de campanha estão vazios, é tudo mentira”, “não vou comprar vacina até os países baixarem os preços, afinal o Brasil é o maior mercado do mundo.”

Resultado: hoje temos uma inflação descontrolada, o maior desemprego de nossa história, a maior recessão de nossa história, a maior queda de renda do trabalhador em todos os tempos e uma crise médico-sanitária sem precedentes. Não há leitos de UTI em 7 estados brasileiros, não há oxigênio para 5 estados, em média 90% dos leitos hospitalares estão ocupados e temos a triste marca de 307.000 mortos, fora a de outras milhares que morreram por falta de atendimento adequado em decorrência da super-lotação provocada pela Covid. A situação só não é pior por conta do trabalho sério de muitos governadores, prefeitos e servidores da saúde. Não temos um governo ruim, temos um governo calamitoso.

Um governo que irá perdurar por 48 meses. Longos, árduos e doloridos meses. Quando, em verdade, deveria durar 24 segundos. Por que 24 segundos? Porque 24 segundos é o tempo que leva para um brasileiro perder a vida para a Covid.

Um brasileiro morre de Covid a cada vinte e quatro segundos!


23 DE MARÇO DE 2021

Tanto tempo o Museu do Louvre fechado durante a pandemia que muita coisa pode estar rolando por lá…

MARCO MERGUIZZO

O mais impressionante e visitado museu do mundo (cerca de 9,6 milhões de pessoas por ano, antes da pandemia), o Louvre, em Paris, possui um dos acervos mais preciosos de arte produzida pela humanidade. Sem contar a arquitetura do prédio, uma antiga fortaleza do século XII, de 160 mil m2, que foi ampliada e reformada em diversas ocasiões.

Antes de se tornar um museu, alguns monarcas como Carlos V e Felipe II utilizaram o palácio como residência real onde acumulavam suas coleções artísticas. Também rouba atenção de quem o visita e a Cidade Luz a monumental e ousada pirâmide de cristal, construída em 1989, contrapondo-se ao passado majestático da capital francesa de séculos atrás.

A coleção do Louvre compreende cerca de 300.000 obras anteriores a 1948, das quais são expostas “apenas” 35.000. Esse verdadeiro tesouro artístico e cultural está criteriosamente organizado em diferentes áreas, como antiguidades orientais, egípcias, gregas, romanas e etruscas, história do Louvre e o Louvre medieval, além de pintura, escultura, objetos de arte, artes gráficas e arte do Islã que complementam o seu acervo único e incomparável.

Entre as pinturas mais emblemáticas e vistas do museu estão em primeiríssimo lugar a Monalisa de Leonardo da Vinci, liderando o pelotão de obras não menos aplaudidas como a Liberdade Guiando o Povo de Delacroix, a Bodas de Caná de Veronese. No departamento das esculturas, ninguém vai se perdoar caso esqueça de espiar a célebre e popularíssima Vênus de Milo.

Em resumo: quem teve a oportunidade de conhecê-lo como eu, naqueles bons e já longínquos anos pré-pandemia, é um programa e tanto para ser feito em três dias pelo menos, ante à dimensão e à grandiosidade da coleção, e não apenas num único dia, ou pior, numa tarde, como costuma fazer a maciça maioria de turistas, preocupada em disparar cliques pelo celular em busca de uma selfie descolada para publicá-la nas redes sociais.

Ao navegar pela internet, neste final de semana, achei bem legal essa seleção de imagens, sacada por algum criador anônimo e inventivo de memes, capturada num site espanhol rede, que imaginou de forma bem-humorada como seria o comportamento, após esse longo período pelo qual atravessamos e em que o museu permanece fechado, nestes tempos de pandemia, dos personagens retratados nas famosas obras ali expostas. Vale conferir e se divertir.


19 DE MARÇO DE 2021

Alto , brasileirada! A Disney fechada pra vocês, taokey?

MARCO MERGUIZZO

19 de Março de 2021: 288 MIL MORTOS.
Esta soma macabra, grafada assim mesmo em números e letras garrafais de indignação e em bold enlutado, é o número de sepultados até o dia hoje na Terra Plana Brasilis do governante genocida e sua trupe de negacionistas aloprados.
Anote e note bem: já são 108 países que não aceitam mais brasileiros.
Viramos ameaça e vetor de contaminação globais.
Partiu Disney?
Mickey, Pateta & Cia. agora batem a porta na sua cara e dão tchauzinho pra você.
Bye, bye, suckers!

15 DE MARÇO DE 2021

900 posts, 182 mil visualizações, 121 mil acessos: as muitas vitórias desses dois anos do TM contra os Golias do Big Brother de Orwell

FREDERICO MORIARTY

Nós não temos patrocínio.
Nós não estamos em nenhum portal.
Nós, blogueiros do Terceira Margem, fazemos apenas auto-divulgação.
Nós não temos alavanca de textos e nem robôs.
Nós somos (a maioria) de Sorocaba, uma cidade média.
Nós escrevemos algo que a grande maioria das pessoas não quer ler.

Mesmo assim em dois anos, produzimos quase 900 posts de primeiríssima qualidade com muita arte, cultura, reflexões, informações, crítica e jornalismo de excelência. Durante os primeiros 730 dias do TM, nossas postagens tiveram 182.000 visualizações – 250 por dia, em média.

Foram 121.000 pessoas que entraram em nossos blogs. Temos leitores em várias partes do mundo: na Líbia, no Gabão, na Letônia e em Singapura, no outro lado do globo.

Para mim é muito. Até porque são de uma audiência qualificada. Ninguém vai ler sobre o BBB aqui, mas sobre o Big Brother.

Portanto, viva!

E feliz segundo ano do Terceira Margem!!!!

11 DE MARÇO DE 2021

2.349

FREDERICO MORIARTY

Dois mil e trezentos e quarenta e nove pais de família. 2.349 incansáveis mães. 2.349 filhos amados e outros tantos pródigos. 2.349 irmãos de sangue. 2.349 irmãos de coração. 2.349 negros, negras, mestiços, brancos e brancas. 2.349 crianças. 2.349 amantes da vida. 2.349 pessoas de fé. 2.349 românticos. 2.349 mulheres de fibra. 2.349 médicas, enfermeiras, farmacêuticas, engenheiras, advogadas. 2.349 domésticas, costureiras, secretarias, cozinheiras, rendeiras. 2.349 palmeirenses e corintianos. 2.349 pagodeiros. 2.349 leitores. 2.349 motoristas. 2.349 entregadores. 2.349 padres, policiais e professores.

Ontem, 2.349 brasileiros nos deixaram. Só ontem foram 2.349 histórias e vidas que se foram. Por conta de uma pandemia de um vírus sombrio. Uma gripe traiçoeira, feroz e fulminante. Ao total, após um ano, a Covid tirou a vida de 270.000 brasileiros. Número maior do que os soldados norte-americanos que morreram enfrentando os nazistas na Segunda Guerra Mundial. Se formassem uma cidade, a Necrópole seria a 106°maior do país, logo à frente de Volta Redonda, no Rio, ou de São Carlos ou da vizinha Indaiatuba, aqui, no interior de São Paulo.

Aliás, é exatamente o que vemos: a circularidade da imbecilidade. Um governo despreparado e genocida. Despreparado, pois coloca um energúmeno no ministério da Saúde que confunde Amapá com Amazonas (onde, por sinal, neva). Um Poder Executivo que sequer fez uma campanha de vacinação. Genocida, sim, pois menosprezou durante um ano a doença (a gripezinha que mataria 5 a 7 mil pessoas). Satirizou mortos e familiares. Empurrou goela abaixo um remédio ineficaz. Desprezou todos os conselhos médicos-sanitários e epidemiológicos. E ainda incentivou o país a fazer o mesmo.

Pior: negou a vacina e cortou verbas para que fosse produzida no país. Criou conflitos internacionais por conta da tacanhez mental, o que serviu para atrasar a vacinação acarretando em milhares de vidas. Fez tudo o que não era pra fazer. Infelizmente, contou com a colaboração de muitos brasileiros, tão negacionistas como o chefe.

2.349 inocentes, 2.349 exterminados, 2.349 mortos num só dia!

8 DE MARÇO DE 2021

Dia da mulher: aplausos a elas, que combatem o bom combate – hoje e cotidianamente -, de modo incansável, estoico e invisível

Homenagem dos blogueiros independentes do Coletivo Terceira Margem

4 DE MARÇO DE 2021

Nosso pesado fardo e luto cotidianos

Charge / Crédito: Kleber Sales
Charge / Crédito: Brum Chargista

2 DE MARÇO DE 2021

Nojo à comida, aversão a bebidas: os efeitos deletérios sobre o paladar e o olfato provocados pela Covid-19

MARCO MERGUIZZO

Parosmia. Eis o nome da patologia batizada pelos cientistas para os efeitos danosos gerados pela Covid-19 que afetam de modo devastador os sentidos gustativo e olfativo. Ou seja, quando o vírus não mata, ele gera em muitas pessoas aversão ao sabor e aos aromas da comida, bebidas e perfumes. Ou seja, de forma igualmente cruel e mortal, o coronavírus acaba por nos roubar uma das sensações mais caras e reconfortantes da vida, e que nos conecta em boa medida à nossa humanidade.

Embora o número de pessoas que contraiu a doença tenha crescido e se recuperado paulatinamente, estas se tornaram no entanto reféns da condição imposta pelo vírus, deixando de ter uma vida saudável e “normal” como antes. Com o crescimento vertiginoso de casos, os cientistas não sabem ao certo por que ela ocorre, como curá-la e se seus efeitos serão irreversíveis ou não na qualidade de vida desse grupo.

Arrebatador, o cheiro de um simples cafezinho causa aversão às vítimas da Covid

Cebola, café, carne, frutas, álcool, pasta de dente, produtos de limpeza e perfumes e mesmo o cloro da água da torneira para lavar a louça são alguns dos alimentos e produtos que causam a sensação de aversão, nojo e vômito nas vítimas recuperadas do coronavírus.

“Embora a anosmia (perda do olfato) não seja agradável, conseguiria levar minha vida normal e continuar comendo e bebendo”, declarou a britânica Clare Feer a uma reportagem da BBC inglesa. “Eu viveria com isso para sempre, se isso significasse me livrar da parosmia.”, diz ela, que contraiu Covid-19 em março do ano passado e, como muitas pessoas, perdeu o olfato como resultado.

A inglesa Clare Feer e a filha (Imagem / Reprodução): BBC

Perplexa e assustada, Clare procurou na internet por respostas e encontrou um grupo de 6 mil membros no Facebook criado pela instituição de caridade AbScent, que ajuda pessoas com perda de odores. Quase todos começaram com anosmia derivada de Covid-19 e terminaram com parosmia.

“Descrições comuns de diferentes odores de parosmia incluem: decomposição, carne podre, fezes”, diz a fundadora da AbScent, Chrissi Kelly, que criou o grupo no Facebook em junho, após o que ela descreve como uma “onda” de casos de parosmia devido à Covid-19.

Cerca de 65% das pessoas com Covid perdem o olfato e o paladar e estima-se que cerca de 10% delas desenvolvem uma “disfunção olfativa qualitativa”, ou seja, parosmia ou outra condição, fantosmia, quando cheiram algo que não está presente no momento. Se esses dados estiverem corretos, 6,5 milhões de pessoas entre os 100 milhões que tiveram Covid-19 em todo o mundo podem estar experimentando parosmia prolongada de Covid.

Definitivamente, a pandemia do coronavírus não é – e jamais foi – uma simples gripezinha. E como outros paradigmas de outrora, quem diria, a máxima “se não mata, engorda” também caiu por terra. O que nos sobrará?


25 DE FEVEREIRO DE 2021

Trinta e seis meses de espera: a vacina que não chega ao país do genocida

FREDERICO MORIARTY

25 de Fevereiro de 2020. Um paulistano que estava em Itália volta ao Brasil com o vírus da Covid no corpo. Iniciava-se ali o ano que não começou.

A letalidade da doença e o grau exponencial de contaminação já eram amplamente divulgados, mas quem iria parar um Carnaval só pra achatar uma curva?

Passados vinte dias, o país resolveu adotar a quarentena. Perdemos aí a primeira batalha.

Iniciou-se uma guerra entre as pessoas de bom senso, os pesquisadores, os cientistas e boa parte dos agentes de saúde contra o canalha e genocida que nos governa, com sua trupe de malucos de uma SS perdida nos trópicos do terceiro mundo.

Vire e mexe, um desses medicozinhos que se arvoram a cientistas andaram receitando gemada de ovo de gansa albina do Alasca para curar a doença. A insanidade chancelada por um diplominha de Hipócrates.

Veio a gripezinha e o ministro da saúde começou a deixar o rei nu, com aquele corpinho de avestruz peludo na praia de Copacabana. Resultado: caiu o ministro. Trouxeram outro, com cara de filme de terror B com olhos e semblante de 20 charutos de maconha.

Uniforme da SS nazista dos trópicos

O presidente cloroquina defenestrou mais um. Botou um general que nunca foi de saúde nenhuma. Homem que acredita existir neve na Amazônia e confunde Amapá com Amazonas quando manda entregar vacinas.

E a população foi se contaminando e milhares de vidas foram ceifadas pela doença. O descaso, o desrespeito, a política antiprevenção e negacionista da Covid levaram os números a índices estratosféricos. O governo é responsável por boa parte das mortes.

A pressão sobre o sistema de saúde virou o esgotamento. Quantas milhares de vidas não se perderam por falta de leitos, UTIs, médicos, enfermeiros e equipamentos básicos estarem 100% direcionados à Covid. Quantas crianças não morreram por falta de atendimento? Afinal, tudo era para a Covid.

Mesmo com tudo isso a curva começou a cair em setembro. O povo saiu às ruas comemorar. Veio o fim do ano e a festa foi total. Pra piorar tínhamos a vacina chegando. Abandonaram-se máscaras, distanciamento e isolamento sociais, álcool em gel, tudo virou meme. Praias lotaram, festas pra todo lado. Tragédia anunciada.

Passada a farra do boi (ou burros, tamanha a ignorância das pessoas) apareceu o resultado: hoje completamos 37 dias seguidos de mortes na casa dos 1.000 óbitos diários. A média de mortes é a maior desde o início da pandemia. Em plena segunda curva, o caos se tornou presente em vários sistemas de saúde.

Hoje, faz exatamente um ano do início da Covid. Passamos dos 251 mil mortos. Cerca de 11 milhões de infectados. Hoje, tristemente, tivemos o maior número de falecimentos num dia desde o início da Covid: 1582 (mais do que o número total de 110 países). O Brasil é o 3° país com mais casos no mundo e o 2° com maior número de óbitos.

A gripezinha matou mais de 20 mil brasileiros por mês, algo tristíssimo. Só pra se ter ideia de comparação, a média de mortes por gripe entre 2014 e 2019 foi de 707,3. Na prática, em um só dia, a Covid matou mais do que dois anos de gripe. E muitos ainda tripudiam da doença. Genocidas!! Sádicos que satirizam a imensa dor alheia.

Mas temos a vacina. Ou quase. A incompetência e a inconsequência do atual governo são tão grandes que eles passaram dois meses brigando contra países e laboratórios para a produção da vacina. Fomos um dos últimos a iniciar a imunização de sua população.

Por conflitos e corte de verbas dos institutos de pesquisa, a produção é lenta. Vacinamos pouco mais de 6 milhões de pessoas no Brasil. Nesse ritmo terminaremos de vacinar todos daqui a 36 meses!!

Infelizmente, ainda teremos de chorar muitas mortes. Mais de 1,5 milhão de pessoas a cada 30 dias ainda serão contaminadas. A pandemia está acabando. Menos no Brasil de Bolsonaro.


24 DE FEVEREIRO DE 2021

De causar inveja e engulhos a George Orwell, o BBB 21 cancela, controla e aprisiona mentes

MARCO MERGUIZZO

Desenho / Crédito: Angel Boligán

Produto de consumo ainda em alta na TV aberta brasileira, uma coisa inacreditável após 21 anos ininterruptos de exibição, o programa Big Brother Brasil, um dos carros-chefe da programação da principal emissora do país, é um case de lixo cultural de sucesso que só se explica por ocorrer aqui, na Terra Plana Brasilis.

Como um grande imã mesmerizante de mentes e telespectadores alienados, de causar inveja e engulhos a George Orwell, pseudônimo do escritor e ensaísta inglês Eric Arthur Blair (1903-1950), o visionário autor de 1984, obra de ficção antológica que criou o conceito e a expressão originais de big brother (representação do controle social do Estado através da espionagem tecnológica e invasão de privacidade dos cidadãos), esse highlander da telinha reflete em boa medida o grau de inconsciência coletiva e social e a inversão de valores da sociedade brasileira dos dias atuais.

Em tempos de tragédia humana que a cada dia enterra mais de 1.000 pessoas vítimas da covid e da omissão da necropolítica do Estado, boa parte da população de todas as classes sociais para bovinamente diante da TV para assistir a eliminação ou o cancelamento, termo da moda e mais atual, dos participantes da recente edição da sandice.

Afinal mais do que vidas e da realidade insuportável dos tempos atuais, dos corpos empilhados, do preço da gasolina e do botijão de gás nas alturas, o importante é dar likes, palpitar, julgar, salvar ou condenar figuras virtuais e idealizadas e não raras vezes fictícias, como se fazia por sinal os imperadores tiranos de outrora nos circos romanos, há mais de 2.000 anos, posicionando o polegar para cima ou para baixo, só que agora no anonimato das redes sociais e no conforto do sofá. O direito à vida e à morte e o regozijo individual e coletivo agora são decididos no teclado do celular a um simples toque do indicador.

Desde sempre, o homem é o lobo do homem.

Prostradas, as atuais gerações de telespectadores e cidadãos passivos e amorfos, bem como nosso presente e futuro, foram jogados a eles, aos leões e aos ratos.

Salve-se quem puder.

Desenho da capa / Crédito: Santiago Vecino

19 DE FEVEREIRO DE 2021

Um país refém do debate binário, da negação da ciência e do atraso sem fim

MARCO MERGUIZZO

Cartum / Crédito: Kleber Sales

Sem conseguir exorcizar até agora a anacrônica polarização entre esquerda e direita, o que acabou contribuindo para a vitória eleitoral e a própria narrativa de intolerância do atual ocupante do Planalto, cuja gestão desastrosa nos conduz a passos largos rumo ao desastre econômico e social – o binarismo volta a nos atormentar com uma nova pugna, de contornos surreais, em pleno século 21, entre o conhecimento científico e a atroz ignorância, amplificada pelos grupos de WhatsApp.

Agora, a peleja da vez é travada nas ruas, nas discussões em família, com os amigos e nas redes sociais, entre os que são a favor da vacina e os negacionistas anticiência contrários ao seu uso contra a covid-19, cujo flagelo já ultrapassou os 243 mil brasileiros mortos, deixando o “Titanic Brasil” na vice-liderança do ranking macabro de vítimas do coronavírus, atrás somente dos EUA.

Criação / Crédito: Claudio Duarte

Definitivamente é uma guerra de surdos, medieval, rancorosa e sem vencedores. Um pesadelo protagonizado por uma legião de zumbis e lúmpens aloprados devotos da bala e da morte.

A banalização da doença, a começar pelo próprio presidente da república, a falta de estratégia governamental e a inoperância em produzir, comprar e fornecer vacinas suficientes para imunizar a população, como os demais países sérios do mundo, faz com que a situação brasileira se agrave ainda mais, aumentando o sofrimento individual e coletivo, sobretudo daqueles mais desassistidos e vulneráveis, formando uma crescente multidão de seres invisíveis, sob o olhar do Estado omisso e o mantra inculcado do Deus mercado.

Desenho / Crédito: Angel Boligán

Sabe-se que não há tratamento eficiente contra à Covid-19, assim, a vacina é o único meio eficaz de prevenir contra a doença e conter a pandemia e grande esperança por dias melhores e para a retomada da vida e da própria economia. Argumentos contrários, suposições absurdas e fake news são puro delírio de gente irresponsável.

Que, oxalá, o conhecimento científico e a razão iluminem as trevas da ignorância. E a vida, enfim, vença as sombras da morte que hoje nos cercam e ameaçam o presente e o futuro de um país inteiro.


19 DE FEVEREIRO DE 2021
Criação / Crédito: Claudio Duarte

16 DE FEVEREIRO DE 2021

As charges campeãs das redes sociais do Carnaval 2021

Charge / Crédito: Quino (@QuinoCartum)
Charge / Crédito: Gilmar
Charge / Crédito: Jota Camelo
Criação / Crédito: Beto (@betocartuns)
Criação / Crédito: Renato Aroeira
Criação / Crédito: Nando Motta
Criação / Crédito: Jean Galvão

13 DE FEVEREIRO DE 2021

Carnaval 2021: Alôôôôôôô, Unidos da Cloroquinaaaaaaa!

Vídeo / Crédito: Canal GNT – Youtube

10 DE FEVEREIRO DE 2021

Laranjal mecânico

MARCO MERGUIZZO

(Foto: Arquivo)

Meninote de tudo, tinha meros 7 de idade, quando chamou minha intenção esta foto perturbadora do personagem transgressor interpretado magistralmente pelo ator inglês Malcolm McDowell, em A Clockwork Orange (de 1971; filme icônico e impactante cujo enredo foi baseado no romance homônimo de Anthony Burguess, de 1962), do mesmo diretor de 2001, Uma Odisseia do Espaço (1968), o genial Stanley Kubrick.

Uma década depois, já adolescente ultracomportado e pra lá de alienado, naqueles tempos de “abertura segura, lenta e gradual” do governo Geisel, assisti a esta película premonitória do que o Brasil se tornaria nos dias de hoje.

O pior, no entanto, é sentir hoje o gosto amargo de estar testemunhando um movimento contrário ao daqueles idos: o de um retrocesso político e social sem precedentes e o completo desmonte de nossas instituições e das conquistas democráticas duramente obtidas com a luta e o sangue de centenas de brasileiros mortos pela Ditadura Militar.

Pergunta que não quer calar: aquela foi uma luta vã?

Desafortunadamente, o cenário distópico, sombrio e violento daquele clássico kubrickniano das telonas virou realidade, meio-século depois. Hoje, porém, a delinquência, quem diria, é promovida e praticada pelo próprio Estado. Um Estado corrupto, irresponsável e genocida. Nossa infeliz realidade deu de 7 a1 na ficção.

Mas o pior, o pior mesmo, é que a plateia anestesiada e deliberadamente omissa, alheia e indiferente a esse show de horrores, assiste a tudo num estado de permanente torpor. Nenhum pio. Nada de nada. Um silêncio ensurdecedor.

Decepcionante demais para um “sonhador” como eu.

Charge / Crédito: Dinho Lascoski

Prostrada, cega e muda, dela sequer um “patriota indignado” ensaia uma sonora vaia, “joga ovos” ou sai às ruas para protestar contra os canastrões da ópera-bufa que hoje atuam nos palcos de Brasília e são os protagonistas desse grande circo chamado Brasil.

Despertem, “cidadãos de bem”, pois já passou da hora de vocês acordarem!

No lugar do copo de leite, bebida predileta e sorvida como um símbolo de deboche pela gangue de Alex, o personagem de McDowell no filme de Kubrick, o atual governo e sua claque de apoiadores agora preferem brindar e aplaudir seus malfeitos com suco de laranja.

O laranjal mecânico é aqui.


7 DE FEVEREIRO DE 2021

Flagelo

TODOS A BORDO (DIÁRIO DO PANDEMÔNIMO) -
Cartum / Crédito: Renato Aroeira

MARCO MERGUIZZO

Duzentos e trinta mil brasileiros mortos.
Além de vidas, a arminha pérfida e insidiosa tenta matar as ciências e a vacina.
A arte e a criatividade.
A educação e a cultura.
O jornalismo e as “true news”.
A empatia e a alegria.
A tolerância e a fraternidade.
Mas, o pior, o pior de tudo, meus caros, ela querer com as mãos pejadas de sangue roubar sonhos, chacinar nossa utopia, torturar e flagelar nossa fé, assassinar nossa esperança.
“Eu não vim para construir”, cunhou o malsinado “Exterminador do País”.
Não vão passar, não passarão.
Vamos resistir.
Permaneçamos fortes.
E juntos.

Charge / Crédito: Beto (@betocartuns)
Caricatura/ Crédito: Claudio Duarte

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